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Bouteflika, um homem agarrado ao poder e derrubado pelas ruas

·3 minuto de leitura

Nunca um presidente argelino permaneceu tanto tempo à frente do país, mas Abdelaziz Bouteflika, que morreu na sexta-feira (18) aos 84 anos, entrará para a história como o único dirigente da Argélia independente que, agarrado ao poder apesar de sua doença, foi obrigado a renunciar pela mobilização das ruas.

Mais de 35 anos depois de seu primeiro cargo ministerial, Bouteflika ficou à frente da Argélia em 1999, impulsionado por uma imagem de salvador em um país devastado por uma guerra civil. Duas décadas depois, foi derrubado pelo exército, pilar do governo, sob a pressão de um movimento de protestos nas ruas sem precedentes (conhecido como "Hirak").

"Butef", como era chamado pelos seus compatriotas, jogou a toalha em 2 de abril 2019, pressionado pelo Estado Maior, e depois de querer se apresentar para um quinto mandato, apesar de seu estado de saúde frágil.

Mas o anúncio de sua candidatura foi visto como uma humilhação para milhões de argelinos, especialmente entre os mais jovens.

Seis semanas de mobilização em massa - algo nunca visto na Argélia - levaram o general Ahmed Gaid Salah, chefe do Estado Maior e um de seus leais colaboradores, a pedir sua demissão.

- "Eu sou a Argélia inteira" -

Aquele que um dia foi, aos 26 anos, o ministro das Relações Exteriores mais jovem do mundo, era recentemente um homem silencioso preso a uma cadeira de rodas desde que sofreu um AVC em 2013, que o deixou hospitalizado durante um longo período em Paris.

Sua limitação física contrastava com o início de seu primeiro mandato, em 1999, quando se apresentava como um orador eloquente e dirigente hiperativo que percorria o país e o mundo.

"Eu sou a Argélia inteira, sou a encarnação do povo a argelino", disse no dia da posse.

Nascido em 2 de março de 1937, em Uchda (Marrocos), numa família originária de Tlemcen (oeste da Argélia), com apenas 19 anos, Buteflika entrou em 1956 na Frente de Liberação Nacional (FLN) que lutava pela independência da então colônia francesa.

Após a independência em 1962, com apenas 25 anos assumiu o cargo de ministro dos Esportes e Turismo durante o governo de Ahmed Ben Bella, um ano antes de assumir a pasta das Relações Exteriores, onde ficou até 1979.

Em junho de 1965, apoiou o golpe de Estado de Huari Boumédiène, que era ministro da Defesa do deposto Ben Bella. Com Boumédiène como chefe de governo, Bouteflika se posicionou como seu principal conselheiro, mas com a morte do presidente em 1978, os militares o impediram de participar da sucessão e ele acabou se afastando da cena política.

- Articulador da reconciliação -

Após exílio em Dubai e Genebra, Bouteflika, imposto pelo exército, se apresentou como candidato à presidência em abril de 1999, e saiu vitorioso nas urnas após a desistência de seus seis adversários por conta de supostas fraudes.

Com a Argélia em plena guerra civil contra grupos radicais islâmicos - um conflito que deixou oficialmente cerca de 200 mil mortos em 10 anos - o novo presidente buscou restabelecer a paz.

Duas leis de anistia, em 1999 e 2005, convenceram vários islâmicos a abandonarem as armas.

Acusado por seus detratores ser apenas um fantoche do exército, Bouteflika mostrou desde sua eleição independência em relação aos militares.

Em 2011, enquanto a "Primavera árabe" derrubava vários dirigentes da região, Bouteflika manteve a paz social graças ao dinheiro do petróleo.

- Saúde frágil -

As dúvidas sobre sua capacidade para governar aumentavam à medida que sua saúde se deteriorava. Foi hospitalizado de emergência em Paris no fim de 2005 devido a uma hemorragia gástrica, e depois, em 2013, por conta de um AVC que o deixou com muitas sequelas.

Contra todos prognósticos, em 2014 emendou um quarto mandato.

Desde então, Bouteflika não falava mais em cerimônias em público.

Apesar das restrições físicas, nessa época reforçou ainda mais seus poderes: no início de 2016 dissolveu todo poderoso Departamento de Inteligência e Segurança e ainda demitiu o chefe da instituição, o intocável general Mohamed Médiène.

O quarto mandato foi marcado também pela queda dos preços do petróleo, o que deixou evidente a forte dependência da economia argelina desta indústria.

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