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'Borat 2' é sobre Trump, Bolsonaro e nosso fracasso como sociedade

Thiago Romariz
·2 minuto de leitura
Borat retorna com sequência quase 15 anos após sucesso do primeiro filme (Foto: Divulgação)
Borat retorna com sequência quase 15 anos após sucesso do primeiro filme (Foto: Divulgação)

Eu nunca fui fã de 'Borat'. O primeiro filme é uma espiral de cenas vergonhosas embutida com crítica social e dedo na cara da sociedade conservadora americana. Há 15 anos, aquele contexto não funcionou pra mim, confesso que não sei ainda o motivo exato para isso. Hoje, a sequência me atingiu de forma oposta. Não tinha como Borat se transformar mais, ser mais importante ou vergonhoso no bom sentido. 'Borat 2’ é, de longe, o filme que mais me incomodou em 2020.

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É bem possível que em um, dois ou dez anos o filme não tenha metade da força, pois o roteiro inteiro consiste no recorte de tempo em que é lançado: a pandemia e as eleições americanas. Por ter este intuito, ele assume claramente a função de uma peça publicitária contra o negacionismo e conservadorismo exagerado de Donald Trump e não há qualquer tentativa de esconder isso. A crítica do repórter do Cazaquistão extrapola o presidente dos EUA, chega à equipe do governo e vai até Bolsonaro, que não só é citado como mostrado no longa.

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Não que precisasse, pois a atitude do séquito cego de Trump não é tão diferente do que acontece no Brasil. E talvez aí esteja a força maior de Borat 2, a forma como usa os EUA para esparramar no rosto da audiência a catástrofe social e cultural na qual o mundo se vê hoje em dia. A negação de vacina, a glorificação de grupos supremacistas e tantos outros assuntos que a internet insiste em achar que constam na 'liberdade' quando na real cerceiam o direito do próximo. Baron Cohen faz piada com tudo isso, nos deixa envergonhados por nos fazer lembrar que todos nós temos alguém negacionista desse jeito do nosso lado, no grupo do zap, na família.

É lógico que o roteiro de Borat aponta para Trump, está escancarada a crítica e a intenção. O real valor do filme, porém, é fazer refletir o quão ligados por absurdos estão todos os países hoje em dia. Ligados por uma internet que vive de criar narrativas, de políticos que se aproveitam do extremismo para criticar o próximo, de uma sociedade que não conversa, apenas grita e não escuta. A falsa inocência de Borat, o cidadão, por vezes até suscita inveja de viver num mundo de fantasia em que só valem opiniões absolutas, em que o mundo não precisa de mudanças e principalmente onde não é necessário pensar.

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*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice.

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