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Boom do agronegócio camufla queda na circulação de contêineres do porto de Santos

DIEGO GARCIA
·10 minuto de leitura
*ARQUIVO* SANTOS, SP, 16.04.2019 - Vista geral de contêineres no porto de Santos (SP).  (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)
*ARQUIVO* SANTOS, SP, 16.04.2019 - Vista geral de contêineres no porto de Santos (SP). (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O porto de Santos vem registrando queda na movimentação de cargas conteinerizadas em 2020 em relação ao mesmo período do ano passado. A retração, porém, não aparece nos dados gerais porque está sendo camuflada pelo boom de exportações no agronegócio, que faz o translado de cargas sólidas a granel bater recordes todos os meses, puxados principalmente pelas exportações de açúcar, milho e soja.

De acordo com especialistas ouvidos pela Folha, a retração na circulação dos contêineres é um dos impactos econômicos da pandemia, que reduziu o nível de atividade das industriais, o consumo das famílias e, consequentemente, as importações via portos. Os setores que mais contribuíram para essa queda foram o automotivo e o de produtos químicos.

Segundo dados da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) enviados à Folha, a queda na movimentação ocorre desde março, quando o recuo no porto público foi de 14,9% nos contêineres de longo curso na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Na análise de janeiro a agosto de 2020 com o mesmo período de 2019, a queda foi de 7,05%.

De acordo com a agência, o porto vem apresentando uma redução contínua em sua movimentação de contêineres no longo curso. Mesmo assim, afirma não ser possível responder se existe uma tendência de queda, e o resultado é creditado inteiramente à pandemia.

"Acreditamos que a queda observada na movimentação de cargas conteinerizadas no Porto de Santos responde exclusivamente a fatores conjunturais, e não a fatores estruturais de longo prazo", afirma a Antaq.

O diretor de operações da SPA (sigla em inglês para autoridade portuária de Santos), Marcelo Ribeiro, também vê o fato como circunstancial e pontual. A queda seria um efeito da economia mundial desaquecida diante do cenário pandêmico que mudou a circulação de contêineres. Não reflete, de forma alguma, a capacidade do porto de receber esse tipo de carga, afirma ele.

"É a conjuntura. Quando você pega os dados do porto em exportação e importação, vê que, normalmente, exporta 70% e importa 30% das cargas movimentadas. Mas hoje ele está fazendo 74% de exportação e 26% de importação, e isso é fruto da conjuntura", diz Ribeiro.

A SPA diz que a queda era esperada e é coerente com os efeitos da pandemia. Ao mesmo tempo, entende que os quatro primeiros meses mostraram resiliência do porto em meio à pandemia, com crescimento das exportações.

O professor Helio Halite, consultor portuário e professor da Universidade Santa Cecília de Santos, enxerga com preocupação a redução e os seus efeitos.

"A conteneirização funciona como um termômetro daquilo que agrega mais valor. A cadeia produtiva do contêiner dá mais oportunidades e gera mais empregos, produz outro tipo de crescimento. Temos que ficar preocupados com essa queda", afirma o professor.

Os mensários estatísticos da SPA mostram que, no quinto mês de 2020, pior momento da pandemia no país, foram 3,6 milhões de toneladas de cargas em contêineres, contra 3,9 milhões no mesmo período da temporada anterior, quando não existia pandemia.

Os dados apontam recuo na movimentação de contêineres no porto a partir do quinto mês do ano nas análises com os mesmos meses de 2019. Não havia registro desse tipo de retração anual entre meses de maio desde 2011.

Em setembro de 2020, a prévia das estatísticas da SPA indica circulação de 344 mil TEUS em contêineres, abaixo dos 386 mil do ano anterior, mas 6% acima de agosto de 2020, quando movimentou 323 mil.

Os contêineres que circulam no porto de Santos costumam transportar componentes da indústria automotiva, alimentos e bebidas, eletrônicos, brinquedos, vestuários, produtos agrícolas e fertilizantes, entre outros produtos. As origens e destinos são os mais variados países nos cinco continentes, em especial China, Estados Unidos e Europa.

Antônio Carlos Sepúlveda, presidente da Santos Brasil, atribuiu a queda especialmente aos impactos sofridos pelas industrias automobilística e química. "São dois dos principais itens de importação e sofreram na pandemia. Tem importação de contêiner cheio caindo 27% em agosto na comparação com o ano anterior", diz.

Estatísticas da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) confirmam a tese. No primeiro semestre do ano, a produção de veículos teve queda acumulada de 50,5% na comparação com os primeiros seis meses de 2019. Em abril, o tombo chegou a 99% na comparação com o mês anterior e 99,4% com relação ao mesmo mês do ano passado.

Na avaliação da Antaq, a queda observada na movimentação de cargas conteinerizadas está coerente com os efeitos adversos da pandemia de Covid-19 sobre o nível de atividade e consumo das famílias, especialmente no âmbito nacional. A agência apontou que o porto de Santos concentra o maior parque industrial e o maior mercado consumidor do país.

"Lembremos que o surto de Covid-19 no Brasil teve início no estado de São Paulo, o que levou o governo estadual a imediatamente adotar fortes medidas restritivas à circulação de pessoas, ao funcionamento do comércio e serviços, e exigindo cuidados redobrados no funcionamento das indústrias", disse a Antaq, em nota.

De acordo com dados do IBGE, a indústria do Brasil ainda não retomou os patamares pré-crise. Em São Paulo, maior polo industrial do país, a variação percentual acumulada no ano até agosto apresentava recuo de -11,1%.

O consultor portuário Helio Halite explica que o porto movimenta 30% dos contêineres do país, e boa parte com cargas voltadas à produção industrial de São Paulo. Com a indústria impactada pela pandemia, o complexo portuário também sofre os efeitos.

"Somos grandes importadores de peças de automóveis. Boa parte vem da China e Ásia para montagem em São Paulo", afirma o professor.

Além disso, ele apontou que o porto de Santos está suscetível à transferência de cargas para outros portos que iniciaram ou ampliaram operações com contêineres, como em Paranaguá e Santa Catarina.

"Paranaguá aumentou muito as exportações de cargas de boi, suínos e aves e deve ter roubado um pouquinho do porto de Santos. Os de Santa Catarina também. Você pode ver essa queda na movimentação de contêineres um pouco pela concorrência com Santos, que fica atenta a essa fuga de cargas e sofre com um ajuste logístico natural".

A Antaq diz que, analisando janeiro a agosto de 2020 com o mesmo período do ano passado, houve redução na movimentação de contêineres em TEUS (volume de carga conteinerizada) na ordem de 9,3% em todo o complexo portuário, sem incluir na conta o resultado do terminal privado da DP World.

Com o terminal privado, a queda geral no completo portuário foi de 3,58% de janeiro a agosto de 2020 comparado ao mesmo período do ano passado. Isso porque, isoladamente, a DP World teve crescimento superior a 33%, mas por causa de uma mudança de serviços de navegação, com a entrada de um novo muito maior que o anterior.

"As bases comparativas são diferentes", explica Fabio Siccherino, diretor comercial e de relações Institucionais da DP World. Siccherino afirma que o terminal percebeu uma queda mensal de 10% a 15% no volume de movimentação de contêineres. A expectativa é que só se recupere o patamar pré-crise no quesito contêineres no final de 2021.

O BTP (Brasil Terminal Portuário) faz a mesma previsão. O terminal também contabiliza queda na movimentação de contêineres e reforça que isso foi efeito da desaceleração do comércio internacional por conta da pandemia. O terminal registrou suas importações caírem 17% e atribui o recuo à retração na produção industrial, queda do consumo e alta do dólar.

Na relação com os painéis estatísticos aquaviários do volume de carga conteinerizada (em TEUS) exportada e importada declaradas pelas instalações portuárias do Brasil como um todo, os contêineres de exportação do país tiveram redução de 1,6%, enquanto os de importação sofreram queda de 2,7%, quedas inferiores às que são registrado em Santos.

A retração ocorre não apenas no Brasil. Um relatório da Drewry, dedicado a acompanhar a circulação mundial de contêineres, aponta retração de 8% no segundo trimestre de 2020. Porém, o resultado foi considerado melhor do que os 16% que eram projetados anteriormente.

Exportações explodiram mesmo com pandemia Por outro lado, o terminal privado da DP World compensou as perdas nos conteinerizados com alta no volume de vendas externas. Com o dólar em alto, o que favorece as exportações, o segmento de celulose elevou os negócios com a China, em particular, e com a Ásia, de um modo geral, o que favoreceu o terminal. A expectativa é que encerre o ano movimentando perto de 2 milhões de toneladas, mais do que o dobro do ano passado.

"É uma commodity que o Brasil é competitivo e cresceu absurdamente", afirma Siccherino. Ele atribui o sucesso no setor ao novo modal ferroviário do porto, que trouxe competitividade à celulose no exterior. "Fizemos um projeto para exportar esse produto e estamos recebendo 100% por rodovia", analisou.

O efeito excepcional das exportações de matérias-primas ou produtos ligados ao agronegócio foi visto no porto como um todo. O câmbio é um fator decisivo, dizem especialistas.

Em fevereiro, a cotação do real frente ao dólar estava na faixa de R$ 4,35, enquanto em agosto o patamar ficou em R$ 5,46, servindo como outro importante fator inibidor das importações.

Ainda em maio de 2020, de acordo com dados da SPA, as mercadorias sólidas a granel aumentaram as exportações de 5,1 milhões para 7,4 milhões de toneladas.

A maior parte do montante veio do agronegócio. Só em grãos de soja -item que o Brasil é o maior exportador do mundo -foram 3,8 milhões de toneladas, bem mais do que as 2,5 milhões de maio de 2019. O açúcar quase dobrou a exportação, indo de 1 milhão para 1,9 milhão.

Já em agosto, o açúcar teve um aumento de 140%, indo de 1,1 milhão de toneladas em 2019 para 2,7 milhões no ano seguinte. O milho também registrou aumento, de 2,9 milhões para 3,4 milhões de toneladas. No total, os sólidos a granel aumentaram a circulação em 2 milhões de toneladas, totalizando 8,1 milhões --7 milhões apenas em exportações.

Antônio Carlos Sepúlveda, presidente da Santos Brasil, apontou que essa deve ser uma tendência para os portos no país, com amplo crescimento em exportação, especialmente de matérias-primas agrícolas.

"O Brasil nisso é imbatível e vai continuar forte sempre. E pode continuar crescendo, pois pode expandir área plantada sem problema ambiental, tem espaço para isso, com uma vantagem climática muito grande. A produtividade é alta", afirma.

"Todos estão são afetados pelo que está acontecendo com a pandemia, é uma situação única, mas a tendência é normalização, ou por vacina ou imunidade de rebanho. Com o isolamento social cada vez menor, a economia vai ficando cada vez mais parecida a como era antes", diz.

Impulsionado pelos resultados do agro, o porto de Santos registrou movimentação de tonelagem total de 110 milhões de toneladas em setembro, uma alta de 10% sobre igual período de 2019.

No BTP, as exportações continuaram bastante aquecidas mesmo em meio à pandemia, tanto que, em agosto, cresceram 2% em relação a agosto do ano passado. Em 2020 como um todo, aumentaram 35%. O terminal credita o resultado às exportações do agronegócio, como açúcar, café, algodão e proteína animal, que compensaram a queda geral das importações e também a redução no fluxo de cabotagem.

Para a sequência do ano, o BTP aponta que o cenário é de melhora no volume de importações, principalmente a partir de setembro, como reflexo da retomada das principais atividades econômicas e também a melhora nas expectativas de vendas do varejo para o fim de ano. "Além disso, as exportações de commodities continuam aquecidas, e devem encerrar o ano com um novo recorde histórico", diz.