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Bolsonaro se recusou a analisar os números e negou gravidade da covid, diz Mandetta

Ana Paula Ramos
·4 minutos de leitura
Presidente Jair Bolsonaro foi alertado sobre a gravidade da covid, mas preferiu ignorar, diz ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Presidente Jair Bolsonaro foi alertado sobre a gravidade da covid, mas preferiu ignorar, diz ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

O presidente Jair Bolsonaro foi alertado sobre a possibilidade do Brasil atingir o número de 180 mil óbitos causados pela covid-19, mas sua reação foi “negacionista e raivosa”.

A declaração foi dada pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, durante entrevista ao programa “Conversa com Bial” na madrugada desta sexta (25), na Rede Globo.

"Eu nunca falei em público que eu trabalhava com 180 mil óbitos se nós não interviéssemos, mas para ele [Bolsonaro] eu mostrei, entreguei por escrito, para que ele pudesse saber da responsabilidade dos caminhos que ele fosse optar", revelou Mandetta.

Embora tenha sido avisado, o presidente se recusou a analisar os números e negou a gravidade da situação logo no início, chegando a ficar com raiva do Ministério da Saúde.

"Foi realmente uma reação bem negacionista e bem raivosa. Eu simbolizava a notícia e ele ficou com raiva do 'carteiro', ficou com raiva do Ministério da Saúde.", relatou.

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O episódio é relatado no livro Um paciente chamado Brasil, lançado nesta sexta-feira (25), que conta os bastidores da crise que levou à sua saída do cargo em abril.

Ao recorrer às fases do luto, o ex-ministro explica a reação de Bolsonaro na pandemia: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

Segundo Mandetta, após o presidente passar pela negação e pela ira, ele entrou na fase do apelo a algo sobrenatural. "Ele se apegou àquela cantilena de pessoas que vão ao seu redor e começam a falar o que ele queria escutar", disse o ex-ministro no programa.

"Me lembro de uma pessoa da saúde pública, um ex-parlamentar, que falava que só iria ter três mil óbitos e duraria só quatro semanas. Daí veio a história da cloroquina e foi uma válvula de escape para ele [Bolsonaro]. Foi do tipo 'eu tiro e coloco isso no lugar'", afirmou.

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

Entre os assuntos debatidos no programa, está uma afirmação presente no livro de Mandetta, de que no início da pandemia, Bolsonaro estava absolutamente convencido de que o coronavírus era uma conspiração e uma arma biológica chinesa para levar a esquerda de volta ao poder na América Latina.

O apresentar Pedro Bial questionou: “Como é que você rebateu essa sandice?”

"Tem coisas que você não rebate. Você olha e fala: 'Até que se prove isso, vamos tratar dos fatos, vamos tratar da vida como ela é, vamos enfrentar o problema e depois a gente vê as teorias conspiratórias que são muito comuns'. A gente não deve embarcar nessas teorias", respondeu Mandetta.

Na entrevista, ele fez ainda uma autocrítica sobre o seu desempenho como ministro da Saúde e revelou qual foi o seu maior arrependimento: "O meu grande erro foi não ter sido capaz de demonstrar para o presidente numa maneira mais convincente, que era a minha função, de demovê-lo daquele caminho e colocá-lo no caminho para a gente andar”.

FRITURA

No livro, Mandetta acusou também Jair Bolsonaro de deslealdade e afirmou que o presidente agia de modo diferente ao discurso que adotava.

Em reunião com o presidente no dia 5 de abril, quando Mandetta já passava por um processo de fritura dentro do governo, o então ministro da Saúde teria dito:

“O senhor tem que me demitir. Seria mais leal de sua parte. O senhor quer cobrar lealdade, mas lealdade é uma via de mão dupla. Não se pode ser leal unilateralmente. O senhor está sendo desleal. Porque o senhor fala uma coisa e faz outra”.

"Não tem ninguém aqui que tenha mais noção de pátria, porque o senhor fica falando de pátria, de nação, e ninguém aqui tem mais ou menos noção que o outro”, relatou.