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Bolsonaro prometeu diesel russo, mas importações foram de apenas 0,5%

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao contrário do que o ex-presidente Jair Bolsonaro prometeu no ano passado, a importação de diesel russo por importadoras brasileiras continuou insignificante e similar ao nível registrado em anos anteriores. Segundo executivos e outros profissionais do setor, as promessas do antigo governo pretendiam apenas diminuir a pressão política em torno dos altos preços de combustíveis no país naquela época -na prática, a administração pública pouco fez para garantir as transações.

Ainda em julho, Bolsonaro anunciou que seu governo negociava um acordo para comprar diesel da Rússia, e que as primeiras cargas poderiam chegar ao Brasil em dois meses. "Estamos bastante avançados na questão do fornecimento de diesel para o Brasil. O preço mais barato. Quantos por cento? Não sei. Quanto mais barato, melhor", disse ele.

O saldo dos meses seguintes evidenciou que seu governo realmente pouco sabia sobre como efetuar as operações. Até novembro, o diesel russo significou apenas 0,5% das importações de diesel por importadoras brasileiras, segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). O número é muito próximo ao registrado em anos anteriores -0,2% em 2021 e 0,6% em 2018 e 2017. Em 2020 e 2021, o país não importou diesel da Rússia.

O principal entrave, segundo importadores ouvidos pela reportagem, era como pagar as petrolíferas russas em meio à série de sanções contra o país europeu devido à Guerra da Ucrânia. Alguns dos principais bancos russos foram excluídos do Swift, sistema internacional que as instituições financeiras usam para transferir dinheiro, e efetuar as transações obrigaria contornar esses obstáculos.

Além disso, instituições financeiras americanas deixaram de conceder garantia bancária àquelas importadoras de diesel russo. Isso aconteceu, por exemplo, com a Uptime, empresa catarinense que ainda em maio obteve licenças da ANP para trazer 25 mil toneladas de diesel russo para o Brasil. Na ocasião, porém, o banco que geralmente emitia as garantias para a empresa desistiu da operação, e a compra precisou ser interrompida -o deferimento de licenças não obriga a empresa a seguir com a transação.

"O governo brasileiro deveria ter oferecido uma garantia e ficado como colateral na operação, já que o Brasil não tem problemas com a Rússia. O próprio Banco do Brasil poderia ter criado mecanismos para oferecer essa garantia", diz Eraldo Rosa, presidente da empresa.

Situação semelhante aconteceu com uma outra empresa ouvida pela reportagem sob anonimato. Nesse caso, porém, a importadora conseguiu resolver o problema, importando o diesel da Rússia por meio de portos da Índia.

Entre julho e agosto, as importadoras chegaram a se reunir várias vezes com representantes do governo Bolsonaro e de petrolíferas russas em busca de soluções para os impasses. Funcionários do Itamaraty e do Banco Central também teriam participado dos encontros, mas nenhum acordo foi acertado.

"Em alguns momentos, o governo dizia que estava importando e avançando, quando na verdade não tinha nada fechado e nenhum navio vindo", afirma Sérgio Araújo, presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis. "O governo anunciava que a solução estava desenhada, quando na verdade não estava."

Procurado, o Ministério de Minas e Energia disse que não se manifestaria sobre o caso. A reportagem também procurou o ex-secretário-executivo da pasta, Hailton Madureira, e o ex-secretário de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Rafael Bastos, mas ambos disseram não ter informações sobre as negociações.

A insistência retórica do governo Bolsonaro tinha razões políticas: em julho, o litro do diesel custava mais do que o da gasolina e do etanol em alguns postos de combustíveis e superava até mesmo o valor cobrado na gasolina aditivada. Além disso, o Executivo tinha pouco o que fazer para reduzir os valores, uma vez que já havia zerado os impostos federais sobre o produto.

Bolsonaro escolheu, então, vender a ideia de que seu contato político com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ajudaria o Brasil a controlar os preços do combustível -sob críticas dos Estados Unidos, os dois se reuniram em fevereiro, dias antes de o russo ordenar a invasão da Ucrânia.

Pelo que tudo indica, seus ministros também teriam sido orientados a seguir esse caminho: no final de setembro, o então chefe de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, comemorou a chegada de 35 milhões de litros de diesel russo no porto de Santos. Quatro dias depois, o próprio Bolsonaro anunciou no Twitter a chegada da mesma quantidade em Santos e disse que outras operações de importação estavam em progresso.

Àquela altura, porém, o governo Bolsonaro já sabia que a importação era irrisória. Ao todo, o país importou até novembro mais de 14 bilhões de litros de diesel -importações desse combustível representam entre 25% e 30% do consumo interno, sendo que a grande maioria vem dos EUA.

Para Eric Gil Dantas, economista do Observatório Social do Petróleo, a importação de diesel russo, como anunciada pelo governo, não fazia sentido. "É mais fácil para a Rússia vender a países como China e Índia do que vender ao Brasil. A produção de diesel dos russos é muito grande, então o percentual que é importado pelo Brasil não resolveria em nada a vida deles ", diz.