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Vitória no Congresso tira de Bolsonaro a farsa do "mito acorrentado"

Matheus Pichonelli
·4 minuto de leitura
Brazilian Deputy Arthur Lira gives the thumbs up during a plenary session to elect the president of Brazil's Lower House in Brasilia on February 1, 2021. - Brazil's Congress on Monday elected Rodrigo Pacheco and Arthur Lira as Senate and Lower House's speakers respectively, both allies of far-right President Jair Bolsonaro. (Photo by Sergio Lima / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Aliado de Bolsonaro, o deputado Arthur Lira é eleito presidente da Câmara. Foto: Sergio Lima/AFP (via Getty Images)

Dopados pelas redes governistas e instalados num mundo paralelo, os devotos de Jair Bolsonaro talvez não tenham percebido, mas o presidente que acaba de atravessar a segunda metade do seu mandato não é sombra do holograma apresentado como candidato em 2018.

Do postulante eleito na esteira da Lava Jato, aquele que seria implacável contra a corrupção e teria em Sergio Moro um aliado contra os vícios da nova política, que estava disposto a promover as reformas econômicas com choque de liberalismo e escolhas técnicas, em detrimento das ideológicas e partidárias, sobrou apenas a lenda. Ou melhor, o “mito”.

Em seus últimos dias, já sem as bases do tripé que deu a sustentação provisória ao governo, Bolsonaro perambulou em público com a fantasia do “mito” acorrentado. A lenda dizia que o Brasil estava quebrado e o presidente nada podia fazer --nem para impedir a catástrofe da pandemia --já que a condução estava a cargo apenas de prefeitos e governadores (o que é mentira)-- , nem o colapso econômico.

Por essa versão, a culpa de sua inapetência é do vírus potencializado pela mídia. Um ano atrás, quando a pandemia ainda era uma sombra já desdenhada por ele, a queixa era que não conseguia aprovar o que queria no Congresso. “Até gostaria que fosse botada alguma coisa, muita coisa, mas não é botado em pauta. É a regra do jogo”, queixou-se, em uma live no fim de fevereiro.

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Na sequência começaram a pipocar nas ruas manifestações bolsonaristas contra o Congresso, mais especificamente contra o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o Supremo Tribunal Federal. Eram eles os gestores do atraso que acorrentaram o mito e serviam de âncora à decolagem do país.

Bolsonaro, vale lembrar, elegeu com ele, em 2018, a maior bancada da Câmara. Mas implodiu o PSL, partido pelo qual foi eleito, em menos de um ano pelas razões mais mesquinhas.

Na cabeça dos apoiadores mais fiéis, porém, o governo Bolsonaro era uma ilha isolada de notáveis, repleta de ideias e boas intenções, mas cercada por ervas espinhentas por todos os lados. É o que impediria a árvore do progresso de florescer.

A troca de comando no Congresso, encerrada nesta segunda-feira 1º após uma novela de articulações, promessas e traições dignas de reality show, representou uma vitória ao chefe do Executivo, que tirou um inimigo da vista e emplacou seus aliados Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) nas presidências da Câmara e do Senado.

Com promessas de cargos e liberação de emendas, e uma provável reforma ministerial em vista, com direito a recriação de pastas antes extintas, o governo virou o jogo e levou a queda de braço. Conseguiu derrotar o antípoda Rodrigo Maia, que volta ao mundo dos mortais e viu seu partido, o DEM, entrar em profunda crise existencial entre o bolsonarismo e uma provável frente ampla em direção a 2022.

O resultado, sobretudo na Câmara, mostrou o peso e a força da máquina governista em jogo. Lira obteve 302 votos, contra 145 de Baleia Rossi (MDB-SP), o candidato apoiado por Maia e a oposição.

Bolsonaro ganhou a disputa e perdeu a desculpa.

O placar em torno de seu aliado, em tese, representa também a base disposta a emplacar os projetos mais caros ao bolsonarismo, até aqui resumidos a pauta de costumes, o fim da cadeirinha para crianças no banco de trás, a implicância com os detectores de velocidade nas estradas, a tomada de três pinos, a distribuição de armas para a população, a cloroquina, a instalação do filho na embaixada dos EUA, a guerra contra a China e o globalismo, o fim das restrições ambientais e todos os itens da caixa de ferramentas bolsonaristas capazes de finalmente alinhar o Brasil entre as grandes potências econômicas e tecnológicas mundiais. (Na prática, claro, essa maioria numérica terá uma oposição ampliada e mordida, reforçada pelas alas do PSDB e do DEM ligadas a Rodrigo Maia e derrotadas por Lira).

Com a popularidade em queda e com a palavra impeachment cada vez mais presentes nos verbetes dos círculos para além da oposição à esquerda, Bolsonaro obteve seu passaporte imunológico em direção a 2022 amarrado no bote do antes demonizado centrão. A fatura está a caminho.

Pelo histórico de brigas e desavenças dos dois lados, há quem veja como questão de tempo o surgimento das rusgas entre os neoaliados na primeira discussão sobre promessas, dívidas e pagamentos. Parece próximo do horizonte também o embate mortal entre o apetite da base de apoio e a tesoura econômica de Paulo Guedes.

A queda de braço pode resultar não em furo, mas na marretada final no teto de gastos.

Seja lá qual for seu plano para tirar o Brasil do atoleiro, além da destruição de tudo e todos que não se curvam a ele, Bolsonaro tem agora a faca, o queijo e o controle do comando do Congresso. Só não tem mais a fantasia de mito acorrentado, boicotado por tudo e por todos, para apresentar ao próprio público em caso de novo fracasso.