Mercado abrirá em 1 h 28 min

Por que Bolsonaro declarou guerra à Folha e à TV Globo?

O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de 300 dias de governo (Foto: Sergio Lima/AFP via Getty Images)


Jair Bolsonaro está em guerra.

Contra seu partido, o PSL.

Contra os partidos de oposição.

Contra o “politicamente correto”.

Contra as ONGs.

Contra países vizinhos.

E contra quem relata essa guerra de atualização diária.

Ainda na reta final da campanha, o então candidato confessou em voz alta desejar um mundo sem Folha de S.Paulo.

Quando, já presidente, soube que um executivo do Grupo Globo foi recebido no Palácio do Planalto pelo então ministro Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral da Presidência), ele se queixou com o auxiliar. Não queria um “inimigo dentro de casa”.

A mania de perseguição tem duas pontas.

Uma beira o delírio.

Só quem nunca abriu um jornal nos últimos 30 anos pode acreditar que a imprensa hegemônica no Brasil decidiu só agora fazer oposição.

Quem diz isso se esquece da cobertura incisiva de escândalos como a compra de votos da reeleição, os anões do orçamento, o mensalão, os desvios na Petrobras, entre tantos.

Parte dela, aliás, noticiou de forma bastante acrítica declarações e iniciativas condenáveis do agora presidente.

Apostavam que, “do outro lado”, o mal era maior ou correspondente - ainda que, durante as experiências de governos tucanos e petistas, nunca alguém tenha flertado tão claramente com soluções autoritárias, como o resgate de atos institucionais, a intimidação contra juristas, a exposição de jornalistas e as promessas de boicote a veículos de comunicação - ao menos os que se propuseram a fazer qualquer coisa diferente do que produzir releases para agradar o mandatário, caso específico e descarado de ao menos três emissoras amansadas que veem no governo uma oportunidade de negócios.

Na outra ponta da tensão com o jornalismo profissional está uma disputa narrativa ferrenha, que não tem nada de paranoica.

É estratégia de sobrevivência.

Muitos decidiram só agora pesquisar quem era Bolsonaro antes da Presidência.

Onde morou.

Com que andava.

Quem protegia.

Com quem convivia.

Cada nova revelação quebra um pouco a tela de cristal líquido que emoldura a imagem do “mito” - honesto, de hábitos frugais, cercado de gente competente, técnica, apolítica e disposta a restabelecer a ordem e mudar o país.

Essa imagem emoldurada não cabe em histórias mal contadas sobre ex-assessores, funcionários fantasmas, negócios em família, movimentações atípicas, transações de imóveis, relações com grupos investigados. 

Como não há respostas para tantos questionamentos que só o jornalismo profissional, junto com os órgãos de controle (que começam a ser manejados), em uma democracia efetivamente estabelecida, pode levantar, resta ao mandatário estrangular o mensageiro.

O estrangulamento pode acontecer de várias formas.

Como um ataque típico, e descontrolado, como o da famosa live das Arábias após a TV Globo revelar que o nome do presidente apareceu nas investigações do caso Marielle Franco.

Com uma canetada que desobriga as empresas de (pagarem para) divulgar seus balanços em veículos impressos de circulação nacional.

Com o flerte de boicote a anunciantes.

Com ameaça sobre a renovação de concessões.

Com a tentativa de apagamento ao cancelar assinaturas ou citações na clipagem na estrutura governamental.

O caminho é o constrangimento ou a asfixia financeira, e não mais a censura ou o empastelamento dos tempos de ditadura.

O apelo já faz efeito, e nesta quinta-feira, dia 7, a rede Havan, de lojas de departamento, anunciou a suspensão de todas as campanhas publicitárias que faria em intervalos de programas jornalísticos e de entretenimento da emissora.

O dono da empresa, Luciano Hang, um dos mais fanáticos apoiadores do presidente, atribuiu a decisão ao “jornalismo ideológico” e “algumas programações da Rede Globo nacional. “Estamos sendo cobrados pela sociedade e nossos clientes”, disse ele, em comunicado.

Se antes havia um esforço das autoridades em ficar bem na foto e no relacionamento com as grandes empresas midiáticas (um esforço perpetuado e interrompido, entre tapas e beijos, nos governos petistas), a estratégia agora é o enfrentamento.

Por quê?

Porque, como mostrou a Folha de S.Paulo, alvo preferencial de Bolsonaro, em sua edição nesta quinta-feira, dia 7, o presidente que sonha em se comunicar diretamente com seu público, sem questionamento ou intermediação, manifesta uma declaração falsa ou inexata em suas redes a cada quatro dias.

A última foi o anúncio de fechamento e transferência de empresas da Argentina, que acaba de eleger um presidente progressista, para o Brasil. A informação era verídica, mas ocorreu em 2001. O post foi apagado.

Não foi a primeira nem a última fake em rede oficial: o sonho de todo governante autoritário é poder falar o que quiser sem ser confrontado com a realidade.

É exatamente o oposto do que propõe o jornalismo profissional, mesmo que ele faça, aqui ou ali, concessões e assopros para o próprio governo, como se vê em editoriais elogiosos à política de desmonte do Estado atualmente em curso.

Um efeito dessa guerra contra os veículos é que o (e)leitor mais atento, e menos disposto a ser lobotizado pela versão oficial ou meramente matraqueada pelos veículos chapa-branca - que, vale dizer, se multiplicaram nos governos petistas - pode ser justamente fortalecer o que o presidente chama de “inimigo”.

Pelas redes, há inúmeras manifestações de pessoas que, em meio ao tiroteio, resolveram assinar ao menos um jornal imprensa em tempos de comunicação online.

Outro sinal de desobediência à vontade do mandatário é que, apesar dos apelos para ignorar quem o acossa, a audiência do Jornal Nacional só tem aumentado.

Cerca de 34 milhões de brasileiros ficaram na frente da TV na semana em que o telejornal divulgou a estranha história da casa 38 em seu noticiário, número superior ao da novela das 9.

O jornalismo no Brasil, ao menos o que não está disposto a lamber as botas do “rei leão”, nunca foi tão atacado.

Goste-se ou não dessa ou daquela linha editorial, isso nunca será uma boa notícia.