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Invasão a hospitais e fogos no STF: Bolsonaro estimulou, os súditos obedeceram

Apoiadora de Bolsonaro conversa com soldado após protesto ser dispersado em Brasília. Foto: Sergio LIMA / AFP (via Getty Images)

Na quinta-feira (11) à noite, Jair Bolsonaro pediu aos seguidores “na ponta da linha” que o assistiam em sua live semanal: “Tem hospital de campanha perto de você, hospital público, arranja uma maneira de entrar e filmar. Muita gente está fazendo isso e mais gente tem que fazer para mostrar se os leitos estão ocupados ou não, se os gastos são compatíveis ou não. Isso nos ajuda”.

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Na sexta, cinco pessoas entraram no Hospital municipal Ronaldo Gazolla, referência no tratamento da Covid-19 no Rio, e provocou tumulto em alas restritas a médicos e pacientes. Gritavam “mentira! mentira”. Alterada, uma das “manifestantes” chutou portas, derrubou computadores e tentou acessar a ala de pacientes internados.

No mesmo dia, diante das investigações de supostas irregularidades na campanha de 2018, que pode resultar na cassação de sua chapa, Bolsonaro disse, em nota assinada com o vice-presidente, Hamilton Mourão e o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, que “as Forças Armadas estão sob autoridade suprema do Presidente da República, de acordo com o artigo 142 da Constituição Federal" e que elas não cumprem “ordens absurdas” nem “aceitam tentativas de tomada de Poder por outro Poder”.

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Era uma resposta à decisão decisão liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux segundo a qual os militares não são moderadores de eventuais conflitos entre os Três Poderes.

Cerca de 24 horas depois da divulgação da nota, outro grupo de manifestantes lançou fogos de artifício em direção ao prédio do Supremo Tribunal Federal. A cada estouro, alertavam que aquele era um “recado” para os “bandidos” da corte.  Um deles repetiu a frase "acabou, porra", dita por Bolsonaro para criticar uma operação determinada pelo STF no inquérito das fake news. 

Na manhã daquele mesmo dia a Polícia Militar do Distrito Federal desmontou um acampamento de apoiadores bolsonaristas instalado na Esplanada do Ministério desde maio -- um acampamento armado, diga-se. 

Um dos incendiários, identificado como Renan Silva Sena foi preso no domingo (14) por supostamente liderar o “recado” ao STF. Funcionário (agora exonerado) do Ministério de Direitos Humanos, de Damares Alves, ele era figura conhecida na praça. Semanas antes, havia ameaçado, xingado e cuspido em uma das enfermeiras que se manifestavam no local por melhores condições de trabalho. 

Após a prisão, cerca de 25 bolsonaristas tentaram invadir a sede da Polícia Federal na capital. Os agentes precisaram montar uma barreira para impedir o avanço.

Liberado, Sena participou no domingo de um novo ato em Brasília, prestigiado pelo ministro da Educação Abraham Weintraub — que na célebre reunião de 22 de abril xingou e manifestou o desejo de prender os ministros do STF.

Quem acabou na prisão, porém, foi a líder do acampamento, Sara Winter, que nas redes já prometeu trocar socos com o ministro do STF Alexandre de Moraes, relator do inquérito das fake news, e perseguir até suas empregadas. A prisão estava sendo cavada havia dias. Winter queria posar de mártir — e conseguiu.

Passa de 43 mil o número de mortos na pandemia do coronavírus -- a doença que o presidente da República já chamou de resfriadinho, disse que não faria mais estragos do que a gripe comum no Brasil e que já estava indo embora.

Sob o estímulo do presidente, seu séquito de fanáticos são hoje risco de vida para enfermeiros, pacientes, autoridades e quem mais ele considerar uma “barreira” para seu plano autocrático.

Sem conseguir censurar os próprios números da Covid-19, Bolsonaro conseguiu transformar a pandemia num assunto secundário. No momento mais agudo da crise, estamos debatendo se os militares devem ou não ser usados como brinquedo para seu projeto de poder. Se depender dos fogos de seus apoiadores, que em algum momento acreditaram estar acima da lei, o golpe já está dado.