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Em defesa do chefe da Secom, Bolsonaro esgarça a bandeira da moralidade

Fabio Wajngarten, chefe da Secom, ao lado do presidente Jair Bolsonaro. Ueslei Marcelino/Reuters

Jair Bolsonaro decretou na semana passada que o jornalista era uma raça em extinção no Brasil.

Poucos dias depois, duas dessas espécies, os repórteres Fábio Fabrini e Julio Wiziack, deixaram o presidente diante de uma escolha de Sofia.

Reportagem assinada pela dupla, na Folha de S.Paulo, mostra que o chefe da Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República), Fábio Wajngarten, é sócio de uma empresa pela qual recebe dinheiro de emissoras de TV e agências publicidade que têm contratos com a secretaria que comanda.

Somente no ano passado, a Secom gastou R$ 197 milhões em campanhas.

A FW Comunicação e Marketing presta serviços como estudos de mídia e checking -- ela acompanha se peças publicitárias contratadas foram de fato veiculadas nos canais.

Dois de seus clientes são as TVs Record e Bandeirantes, emissoras que desde o governo Bolsonaro têm aumentado sua participação nas verbas publicitárias da Secom. A primeira tem atualmente quase um terço desse dinheiro (27,4%, ante 23,6% do ano anterior), enquanto a segunda fica com 12,1% (tinha 9,8% há um ano).

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As duas emissoras têm sido generosas na cobertura do governo, com espaço para entrevistas camaradas em algumas de suas principais atrações.

Em contrapartida, a TV Globo, que possui a maior audiência do país e foi declarada inimiga pelo governo, detém hoje 13,4% das verbas publicitárias do governo, segundo a reportagem da Folha -- também declarada inimiga.

Só a Band pagou, em 2019, R$ 109 mil para a empresa do secretário.

Em nota, a Secom diz que Wajngarten se afastou da administração da empresa, conforme determina a lei, mas nada diz sobre a Lei de Conflito de Interesses, que desde 2013 proíbe que integrantes da cúpula do governo mantenham negócios com pessoas físicas e jurídicas que podem ser afetadas por suas decisões. Parece ser o caso de quem gerencia a verba publicitária de clientes de sua empresa privada, não?

O detalhe é que Wajngarten não só manteve sua participação na empresa como nomeou para seu lugar o irmão do número 2 da Secom. 

Diante do questionamento, o chefe da Secom lançou m]ao de um recurso já conhecido do governo: diante da mensagem ruim, bata no mensageiro. Wajngarten chamou texto de “exemplo de mau jornalismo” que “não se conforma com o sucesso do governo”.

No dia seguinte, ganhou a companhia do chefe, para quem a Folha não tinha moral para fazer perguntas e disse que, até segunda ordem, o secretário está mantido.

Queira o presidente ou não, o suposto conflito de interesse atinge em cheio a bandeira da moralidade de seu governo, que passou o primeiro ano de mandato mediando a bronca de um de seus filhos, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro, com os rumos da comunicação do governo.

Parte da oposição não demorou a se posicionar. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), por exemplo, aproveitou a deixar para dizer que “quando Bolsonaro falava em acabar a mamata, a mamata era dos outros”. 

Líder da oposição na Câmara, o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) chamou a situação de ilegal e imoral.

Diante da pressão, Bolsonaro terá de decidir se vai seguir acobertando o caso e ficar do lado do aliado ou se vai dar crédito ao trabalho jornalístico de duas espécies que tinha decretado a extinção.