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A quinta série vai à ONU em discurso de Bolsonaro

Matheus Pichonelli
·4 minutos de leitura
Jair Bolsonaro em seu discurso para a ONU. Foto: Agência Brasil
Jair Bolsonaro em seu discurso para a ONU. Foto: Agência Brasil

Como um aluno que sabe ter feito bobagem, Jair Bolsonaro abriu a Assembleia Geral da ONU sob olhares de professores e colegas de classe na comunidade internacional.

Diferentemente do cercadinho do Planalto, onde manda jornalista calar a boca, diz não ser coveiro e pergunta “e daí?” diante do desastre de seu governo na condução da pandemia, o presidente mostrou comedimento desta vez. Mas estava sentado sobre quase 140 mil mortos por coronavírus em seu país.

Na versão oficial, que ele tenta emplacar nas redes aos seguidores e, agora, aos pares, Bolsonaro foi tolhido de tomar qualquer decisão contra a histeria do slogan “fique em casa” que, por culpa e risco de prefeitos e governadores, produziu uma carnificina humana e econômica nos últimos seis meses. De modo macabro, o populismo do presidente brincava de “comigo não morreu”.

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Quem ouve nem imagina que sua comitiva voltou de uma viagem aos EUA com ministros e auxiliares contaminados, que ele fez o que pode para boicotar os esforços pelo isolamento, que a determinação judicial não criou amarras, como diz, para agir como deveria na pandemia, em vez de desfilar de cavalo e jet ski e prometer churrasco enquanto seus governados eram enterrados sem velório.

Bolsonaro levou à ONU a postura de um jovem da quinta série que aponta o dedo para o colega quando está prestes a ser repreendido.

Que corre para abrir a janela e ligar o ventilador para desbaratar a fumaça no ambiente que o mundo inteiro vê e sente por conta das queimadas na Amazônia e no Pantanal, que ele ousa atribuir a índios e caboclos que supostamente querem botar fogo na mata para ter onde plantar -- e não ao sucateamento do sistema de proteção e fiscalização, a perseguição a ativistas e inspetores ambientais e à ação de grupos criminosos estimulados pelo governo que queria aproveitar as atenções da imprensa na pandemia para passar a boiada nos marcos regulatórios do Meio Ambiente.

Bolsonaro foge da responsabilidade ao dizer que as más notícias de quem sente o cheiro de fumaça na sala são fruto de ativistas com interesses “escusos” unidos a entidades estrangeiras que invejam e querem nossas riquezas naturais para eles. Falou e ficou por isso mesmo.

Contrariando a própria Polícia Federal, que investiga ação criminosa de posseiros no Pantanal, Bolsonaro responsabilizou a natureza e as “consequências inevitáveis” da alta temperatura e o acúmulo da massa orgânica em decomposição pelas queimadas na região -- onde, não por acaso, as multas por crimes ambientais despencaram neste ano.

Apostando nas memórias de curta distância ou de seletividade patológica, ele finge agora que não precisa ser responsabilizado por ter, no momento mais grave da crise, criado crises internas sucessivas com dois ministros ejetados na Saúde, a confirmação de um interino que não era da área, e a energia canalizada no conflito com seu ex-ministro Sergio Moro após as mudanças no comando da Polícia Federal

Ele exaltou no discurso a ajuda do auxílio emergencial que, se dependesse da vontade de sua equipe econômica, teria um terço do valor.

As discussões para transformar o benefício em renda universal acabam de ser suspensas por ordem do mandatário, mas isso, claro, não foi citado. Bolsonaro escondeu, assim, a fumaça de outra queimada, a da fritura de seu superministro da Economia no momento em que abre a carteira para atender ao centrão, formado pelas figuras do velho fisiologismo político em Brasília.

O presidente falou também da parceria na fabricação de uma vacina que ele mesmo diz não ser obrigatória para a população. E lançou ao vento os velhos de outras conversas, como a cristofobia, que no Brasil mata anualmente um total de zero pessoas, enquanto jovens e negros são ainda as maiores vítimas da violência do Estado antes, durante e depois da pandemia.

Entre tantas conversas fiadas, Bolsonaro acertou ao dizer que seu país tem na família a sua base. A família dele, no caso, como mostram os caminhos de cheques e salários recolhidos de funcionários, a prosperidades de negócios particulares com imóveis e lojas de chocolate e a relação com um ex-faz-tudo escondido da polícia na casa do advogado da família em Atibaia.

Para o público interno, o discurso performático pode ter funcionado. Aos olhos estrangeiros, Bolsonaro segue como um dos piores, se não o pior, líder governamental da pandemia, como cravou o Washington Post.

Se fosse uma prova de Redação, não passaria para a sexta série.