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Notícia do dia não é cloroquina para emas. São os quase 85 mil mortos

Matheus Pichonelli
·3 minuto de leitura
Foto: Evaristo Sá / AFP. (via Getty Images)
Foto: Evaristo Sá / AFP. (via Getty Images)

No conto “Darandina”, de Primeiras Estórias, João Guimarães Rosa descreve o alvoroço provocado numa cidadezinha quando um sujeito escala uma palmeira e de lá passa a proferir sentenças desconexas.

De mão dupla, o espelho da loucura se apresenta na narrativa com uma pergunta ao leitor: quem perdeu o juízo? Quem está em cima ou quem está embaixo obcecado pela cena?

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Do alto, o “psiquiatrartista” descrito pelo autor mineiro berrava barbaridades do tipo: “O feio está ficando coisa...”, “Se vierem, me vou, me vomito daqui”, “Cão que ladra não é mudo”. “Estou aqui, vós me vedes”. “Eu não sou aquele!” “Suspeito, exploração, calúnia, embuste, de inimigos e adversários…”. “Vi a Quimera!”

Abaixo, “frenéticos o ovacionavam, às dezenas de milhares se abalavam”.

É de circo, diziam uns. É político, afirmavam outros. É fugido de hospício, especulavam outros ainda. É um gênio, concluíam alguns.

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Tivesse sido escrita em 2020, Guimarães Rosa poderia até negar, mas ninguém acreditaria que o nonsense daquela estória não foi inspirada num certo habitante do Palácio do Alvorada.

Por mais machadiana que seja a obsessão de Jair Bolsonaro com a cloroquina, uma obsessão pé em pé com a de Brás Cubas e seu emplastro anti-hipocondria que o levaria à glória ou o humanitismo sem fundamento científico de Quincas Borba, é em Guimarães Rosa que se encontra o estado mais bem acabado do espanto com a cena do sujeito que ninguém sabe como foi parar, nem como poderá descer, da palmeira imperial.

Jair Bolsonaro convalesce após testar positivo novamente para covid-19. Tem evitado declarações retumbantes desde a prisão, agora domiciliar, do ex-PM, ex-assessor e ex-amigo Fabrício Queiroz.

Tem atrapalhado menos também o andamento de negociações sobre reformas e aprovação de projetos-chaves no Congresso, como o do Fundeb.

Ainda assim, é o assunto do dia.

De ontem.

De hoje.

Provavelmente de amanhã.

Faz isso já adaptado ao espírito do tik tok, a rede social chinesa em que o gestual está no centro da cena de mímicos que já não precisam gritar. Foi o que levou a plateia ao delírio, no domingo passado, quando levantou uma caixinha de cloroquina no fosso que separa a Presidência e os súditos o ovacionaram, também às dezenas.

É gênio ou é doido, pergunta-se a plateia abaixo da palmeira, como no conto roseano.

Em tempos de comunicação em rede, pendurar a melancia no pescoço já não comove.

Que tal passear pelos campos do Alvorada e ser flagrado mostrando cloroquina para as emas?

Eureka!

É o melhor jeito de seguir no centro das atenções e desviar o foco das perguntas fundamentais do dia. A maior delas: como chegamos a quase 85 mil mortos na pandemia que o garoto-propaganda da quimera salvadora diagnosticou, lá atrás, como um resfriadinho que mataria menos que uma gripe normal?

A resposta é óbvia, mas segue em aberto, enquanto Jair Bolsonaro em seu retiro repete o personagem de Guimarães Rosa que “disse nada. Ou talvez disse, na pauta, e eis tudo”.