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Bolsonaro, assim como Collor, deixa um Brasil devastado, diz Walter Salles

·6 min de leitura
*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  19-10-2021, 12h00: O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Colômbia Iván Duque durante cerimônia de assinatura de atos após encontro em visita oficial, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 19-10-2021, 12h00: O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Colômbia Iván Duque durante cerimônia de assinatura de atos após encontro em visita oficial, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um político que se vende como um outsider assume a presidência do país e promete reerguer a pátria. "O Brasil não aceita mais derrotas. Agora, é vencer ou vencer. Que Deus nos ajude", afirma em um dos seus primeiros discursos no poder.

No início, existe esperança no ar, mas, com o passar dos meses, o custo de vida sobe. A inflação, que parecia sob controle, volta a preocupar. Muitos passam fome. Cada vez mais gente resolve deixar o país.

Parece bastante, mas não se trata dos dias de hoje ou de um passado muito recente. É o começo dos anos 1990. A frase, um simulacro de patriotismo e fé, foi dita por Fernando Collor de Mello em 16 de março de 1990, um dia depois de tomar posse como presidente.

Collor e sua equipe anunciavam àquela altura o pacote econômico que chocou o país ao determinar, entre outras medidas, o bloqueio das cadernetas de poupança. Correntistas e poupadores só poderiam sacar uma parte do que tinham acumulado --o restante só depois de 18 meses.

Lançado cinco anos depois, "Terra Estrangeira", filme dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, parte justamente desse momento traumático da vida econômica e social do país.

Moradora de um prédio ao lado do Minhocão, em São Paulo, a costureira Manuela, interpretada por Laura Cardoso, sofre um infarto ao descobrir pela TV que não teria acesso ao dinheiro que havia economizado por décadas. Transtornado com a morte da mãe, o universitário Paco --papel de Fernando Alves Pinto-- aceita uma oferta insólita de viajar para Portugal levando uma encomenda misteriosa.

Em Lisboa, ele conhece a Alex de Fernanda Torres, uma garçonete incomodada com a discriminação que sofre como brasileira. "Quanto mais o tempo passa, mais eu me sinto estrangeira", diz. Não há vontade, porém, de retornar à degradação do país natal.

"Terra Estrangeira" está de volta em uma versão restaurada que celebra os 25 anos do lançamento --os ajustes técnicos para a nova cópia deveriam ter sido concluídos no ano passado, mas a pandemia atrasou os trabalhos. Terá a primeira exibição ao público na Mostra de Cinema de São Paulo neste sábado (23) no Espaço Itaú da rua Augusta.

Ao fazer essa ponte entre os anos 1990 e a década de 2020, o filme liga períodos de desencanto e perplexidade com a realidade brasileira, ganhando novas camadas de interpretação. Para Thomas, que fazia sua estreia como diretora de um longa de ficção, é "terrivelmente irônico" que a cópia restaurada seja lançada em uma fase como a que vivemos hoje.

Ela chama a atenção para o número recorde de brasileiros vivendo em Portugal. Foram registrados 184 mil em 2020, um aumento de 22% em relação ao ano anterior, segundo o SEF, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O número real, no entanto, certamente é maior já que esse levantamento contabiliza apenas os residentes legais.

"O desgoverno Collor foi uma expressão dos segmentos mais arcaicos da sociedade brasileira. Era um governo sem projeto que caiu de podre", afirma Salles, que tem em "Terra Estrangeira" seu segundo longa de ficção --o primeiro foi "A Grande Arte", de 1991.

Ele continua: "O que estamos vendo [hoje] é pior. Há um projeto de milicialização da política brasileira em curso, que se traduz no ódio à ciência, à educação pública, à equidade racial, às reservas indígenas, às nossas florestas, à diversidade de cor e gênero, à cultura. É novamente o que há de mais arcaico no poder, se mesclando agora à violência mais primitiva. Como Collor, Bolsonaro deixa um país devastado, em profunda crise identitária, sem presente e sem futuro".

Uma foto que Salles tinha visto em um livro sobre Cabo Verde guiou o filme desde o início do processo, a elaboração do roteiro, assinado por ele, Thomas e Marcos Bernstein. A imagem mostra dois jovens na praia, à frente de um navio emborcado na areia.

O filme, aliás, é todo em preto-e-branco, tal qual a foto do arquipélago africano.

"Aos poucos, percebemos que a imagem refletia diferentes formas de exílio: político, econômico, amoroso. Era uma tradução da condição existencial de Paco e Alex, nossos jovens protagonistas, em um momento de profunda crise identitária do país. Depois de 25 anos de ditadura militar e do caos do desgoverno Collor, o Brasil passava a ser um país de emigração, e não mais de imigração", lembra o diretor.

Quando "Terra Estrangeira" foi rodado, em 1994, a produção de filmes no país apenas começava a se recuperar de um período de inatividade por falta de fontes de financiamento. O ano seguinte, quando o drama estreou, ficaria marcado como o marco inicial da chamada "retomada do cinema brasileiro".

Salles e Thomas decidiram viabilizar um filme de ficção como se costuma fazer um documentário, com uma equipe pequena e dinâmica, e um roteiro que permitisse agilidade. Foi rodado em três países --Brasil, Portugal e Cabo Verde-- em apenas quatro semanas.

"Tudo foi feito de maneira arriscada, urgente, pequena. Reflete esse nosso desejo de filmar de qualquer maneira", diz a diretora.

Um dos riscos de que ela fala foi a inclusão de personagens africanos no longa-metragem, algo que não estava previsto no roteiro. Durante as filmagens, ao encontrar a pensão onde Paco se hospedaria em Lisboa --não um espaço de locação, e sim, de fato, um pequeno hotel numa área pobre da cidade--, a equipe percebeu que viviam por lá muitos angolanos, moçambicanos e outros imigrantes vindos de ex-colônias portuguesas.

Alguns deles não apenas participaram do filme como também reescreveram os seus diálogos. Segundo Thomas, Paco ia se entender como um imigrante entre outros imigrantes.

"Queríamos fazer um filme pulsante, que oferecesse um retrato possível de nós mesmos. Trabalhamos com urgência, de forma coletiva, reinventando as cenas diariamente, cada membro da equipe se tornando co-autor do filme", conta Salles.

O diretor lembra que a música "Vapor Barato", de Jards Macalé e Waly Salomão, na voz de Gal Costa, entrou em "Terra Estrangeira" por sugestão de Fernanda Torres. "Nanda nos ofereceu uma outra síntese possível do filme. Incorporamos a música e mudamos todo o final do filme, na hora. Foi um filme feito com esse grau de liberdade, uma experiência feliz de cinema, que acabou irrigando todos os filmes que fizemos depois", diz ele.

"Terra Estrangeira" foi restaurado pela produtora Videofilmes a partir dos negativos originais, digitalizados pelo laboratório francês Éclair. O projeto teve a coordenação de Patricia di Filippi, que havia se notabilizado pelo trabalho de restauração de "Limite", o clássico de Mário Peixoto de 1931.

A recuperação foi supervisionada por Walter Carvalho, diretor de fotografia do filme. "O filme continua com o frescor de 25 anos atrás, é como se tivesse sido filmado agora", afirma Carvalho. "Éric Rohmer [cineasta francês] disse certa vez que todo bom filme é também um documentário sobre sua época. É o caso de 'Terra', um filme emergente que traz na sua largada as características de construção do documentário."

A nova cópia acentua os contrastes em cenas como a passagem dos protagonistas pelo Cabo Espichel, no distrito de Setúbal --a "ponta da Europa", nas palavras de Alex. Os dois se sentem desamparados em meio à vastidão da paisagem, uma referência ao cinema do italiano Michelangelo Antonioni.

Embora melancólico, "Terra Estrangeira" abre algumas frestas de coragem, como "Vapor Barato". "Oh, sim, eu estou tão cansado / Mas não pra dizer / Que eu não acredito mais em você".

TERRA ESTRANGEIRA

Quando: sábado (23) às 20h45

Onde: Salas 1 e 3 do Espaço Itaú Augusta

Elenco: Fernanda Torres, Fernando Alves Pinto, Alexandre Borges, Laura Cardoso, Luís Melo

Produção: Brasil, 1995

Direção: Walter Salles e Daniela Thomas

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