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Bolsonaro acusa índios de trocarem madeira por 'uma Coca-Cola, uma cerveja'

Marcelo Freire
·6 minuto de leitura
Jair Bolsonaro durante live nesta quinta, 19 de novembro de 2020 (Reprodução)
Jair Bolsonaro durante live nesta quinta, 19 de novembro de 2020 (Reprodução)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) dedicou toda a sua live nesta quinta-feira (19) para falar sobre a exportação ilegal de madeira, vinculando o crime ao desmatamento na Amazônia, e acusar índios de “tora de madeira por uma Coca-Cola, uma cerveja” sem mostrar provas.

Para a transmissão de hoje, Bolsonaro chamou o ministro da Justiça, André Mendonça, e o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, delegado Alexandre Saraiva, que engrossaram o discurso do presidente contra empresas do exterior que, segundo o presidente e seus aliados, são receptoras de madeira ilegal.

O presidente não falou sobre o resultado das eleições municipais, no último domingo (15), depois de ter feito intensa campanha para prefeitos e vereadores nas últimas semanas. Ainda há candidatos apoiados pelo presidente na disputa do segundo turno em algumas cidades, como Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio de Janeiro, e Capitão Wagner (Pros), em Fortaleza.

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Bolsonaro preferiu tratar apenas do tema ambiental nesta quinta-feira. Primeiro, ele criticou um projeto britânico que, segundo ele, torna ilegal o uso de commodities por empresas que importem material de países que realizam desmatamento. "É um grande jogo econômico para nos atingir, porque somos uma potência do agronegócio. Eles querem diminuir a concorrência nossa, facilitando outros comércios", disse o presidente.

Apesar de admitir que existe desmatamento ilegal no país, Bolsonaro disse que as críticas são "potencializadas". Em seguida, perguntou a Alexandre Saraiva se existe casos de "índios trocando uma tora de madeira por uma Coca-Cola, uma cerveja".

O delegado da PF respondeu que "já aconteceu da madeira em terra indígena ser negociada por valores pífios", mas não entrou em mais detalhes, dizendo que a grande causa do desmatamento é a "falha em processos administrativos gerados que vêm lá de 2010".

Na sequência, apoiado por Saraiva e Mendonça, Bolsonaro afirmou que madeiras nobres do Brasil são vendidas na Europa por valor muito abaixo do que valem. "Há uma desproporção do valor real do nosso ipê e o valor negociado no exterior. Isso é decorrente de fraude", disse o delegado da PF.

Bolsonaro não revela nome de empresas que importam madeira ilegal

Por algumas vezes, Bolsonaro disse na transmissão que o governo não estava acusando ou criminalizando os países que são destino de madeira ilegal, mas sim as empresas que faziam esse tipo de compra. Apesar da afirmação, ele não citou o nome nem das empresas e nem os países envolvidos nesse cenário.

Segundo ele, o trabalho da PF nessa investigação começou há alguns meses e terá apoio da Marinha. "Porque essa madeira sai pelos rios, então dá para fazer barreiras. Temos nomes de empresas que importam isso e de quais países elas pertencem. Não vamos acusar o país de cometer crime, mas as empresas desses países, sim", disse.

"Porque há países que nos criticam – em algumas oportunidades até com razão, mas em outras, não –, e quando conseguimos chegar em bons termos nessa questão, vai diminuir drasticamente o desmatamento no Brasil. É o que nós queremos. Não basta criticar", atacou.

Questionado por um jornalista sobre qual é a "quantidade de madeira brasileira extraída ilegalmente e que é comprada por empresas francesas", Bolsonaro não respondeu diretamente. "O que a gente pode ver, quando pega o montante do ipê que vai para vários países, é que é muito superior ao que é permitido extrair em reserva legal. A gente nota isso."

Depois, o presidente disse que a França era uma grande concorrente do Brasil em commodities e tem atrapalhado o país para avançar no acordo econômico com a União Europeia.

Ministro e delegado da PF reforçam discurso do presidente

A transmissão mostrou André Mendonça, ministro da Justiça – órgão responsável também pela Polícia Federal –, e Alexandre Saraiva, superintendente da PF no Amazonas, com um discurso muito alinhado ao de Bolsonaro.

Mendonça, por exemplo, disse que os criminosos responsáveis pela extração ilegal de madeira se organizaram ao longo dos anos. "O extrator na mata é quem paga o pato, mas quem está lucrando mesmo é quem está com a empresa em outros países, se enriquecendo de um produto valiosíssimo por um preço vil", acusou o ministro.

"Não adianta a gente combater aqui se do outro lado do oceano tem gente ganhando muito dinheiro com as nossas riquezas. Acabaram com o pau-brasil, com o mogno e estão acabando com o ipê", atacou Mendonça.

Na sequência, ele comparou a essas empresas a quem comete o crime de receptação. "Se alguém está oferecendo uma Ferrari a preço de um [Toyota] Corolla para nós, mesmo que a documentação esteja aparentemente legal, eu não sou inocente para saber que aquele não é o preço de uma Ferrari. No Código Penal, existe o crime de receptação. Quem compra um bem por um valor vil é responsável por pelo menos desconfiar."

"E, num caso como esse, quando estão tirando riquezas que demoram anos para recompormos, esses países têm que se unir a nós não apenas no discurso, dizendo que mandam um pouco de recurso, mas impedindo que esse material entre e seja comercializado", concluiu o ministro.

Em outro momento, Mendonça engrossou o discurso de Bolsonaro de que a Lava Jato não atinge o governo federal porque não há casos de corrupção no governo.

"A Lava Jato continua funcionando, mas para o meu governo, não", afirmou Bolsonaro. "É que não precisa", adicionou o ministro. "Não precisa, porque não tem problemas", concluiu o presidente.

Saraiva, por sua vez, citou em um determinado momento que o maior conservatório de ararinha-azul está na Alemanha, vinculando o país europeu ao tráfico de animais. "Ela está extinta no Brasil. Como elas foram parar lá? Então, assim esse tráfico de espécies...", disse o delegado, que em seguida foi interrompido por Bolsonaro.

"Não estamos aqui criminalizando ou acusando qualquer país. A gente está falando a realidade. Não é o governo [do outro país] o responsável por isso. Lógico, ele tem sua cota de responsabilidade", acrescentou o presidente, citando crimes como exportação ilegal de minérios e tráfico de animais.

Alexandre Saraiva também disse que os países europeus têm acesso a imagens de satélite que mostram a agricultura brasileira não está na Amazônia. "Não existe uma relação positiva entre desmatamento na Amazônia e nossa agricultura e pecuária. Isso é uma inverdade, e 90% dos artigos científicos divulgam essa mentira porque vão no órgão ambiental e veem, nos processos que autorizaram desmatamento, que o sujeito que está fraudando é agricultor. Eu falo porque eu olhei esse processo", disse o delegado, de forma enfática.

"Se o pesquisador que não vai a campo, e escreve uma bobagem dessa. São grandes palpiteiros que causam um dano imenso pro meio ambiente do brasil", atacou o delegado.