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Bolsas mundiais têm o pior pregão desde o crash de 1987; dólar bate R$ 5

JÚLIA MOURA E TÁSSIA KASTNER
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 09.05.2015: MERCADO-FINANCEIRO: Gráfico das flutuações dos indicadores econômicos no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo. (Foto: Diego Padgurschi/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nesta quinta-feira (12), as Bolsas de Valores do mundo tiveram o pior pregão desde 19 de outubro de 1987, período conhecido como Segunda-Feira Negra, no qual o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, desabou 22,61%.

Nesta sessão, Dow Jones caiu 10%. O S&P 500 recuou 9,5% e Nasdaq, 9,4%. Na Europa, Bolsas caíram mais de 12%. O movimento reflete o temor de investidores aos impactos econômicos do coronavírus.

A Bolsa de Valores brasileira também teve fortes quedas e escapou do terceiro circuit breaker do dia por pouco. Por volta das 13h50, o Ibovespa cedia 19,60% quando o Fed, banco central americano, anunciou aumento de liquidez no mercado financeiro.

A medida inverteu a aceleração da queda do Ibovespa, que reduziu perdas para 14,78% ao fim do pregão, a pior queda de 1998, ano marcado pela crise russa. Caso a marca de 20% de queda fosse atingida, um terceiro circuit breaker (paralisação das negociações) seria acionado, desta vez, por tempo indeterminado.

No início das negociações desta quinta, o mecanismo foi acionado duas vezes. A primeira foi logo na abertura do pregão, às 10h21, quando a Bolsa chegou a cair 11,65%. A parada foi de meia hora. A segunda foi às 11h12, quando o índice recuou 15,43%.

No ano, o Ibovespa acumula queda de 37,2%, o pior desempenho anual desde a crise financeira de 2008, quando acumulou desvalorização de 41,2%.

Segundo dados da Economatica, o valor de mercado e todas as 285 empresas listadas na B3 recua R$ 1,52 trilhão para R$ 3,03 trilhões em 2020. No final de 2019, as empresas valiam R$ 4,56 trilhões.

Nesta semana, o circuit breaker foi acionado quatro vezes, reflexo da piora da percepção dos danos que serão causados pelo coronavírus sobre a economia global, que muitos economistas comparam à crise de 2008.

Com o tombo, o índice fechou cotado a 72.582 pontos, no menor patamar desde junho de 2018, antes da corrida eleitoral que elegeu Jair Bolsonaro presidente.

Dentre as maiores quedas do dia, estão Gol (-36,3%), Azul (-32,89%) e CVC (-29%), visto que viagens estão sendo canceladas devido ao coronavírus e a alta do dólar aumenta os custos dessas companhias.

"A semana inteira foi muito intensa, mas hoje vai entrar para a história. Vemos uma saída massiva de investidores de tudo o quanto é jeito. De grandes investidores vendendo ações de países emergentes a fundos que tem que vender. O estrangeiro está se desfazendo de ações sem critério, está vendendo Brasil", afirma Thiago Salomão, analista da Rico Investimentos.

Até esta segunda (9), quando a Bolsa caiu 12%, estrangeiros sacaram R$ 48 bilhões do mercado de ações brasileiro, sem contar ofertas iniciais e subsequentes de ações (IPOs e follow-ons).

Um dos maiores compradores neste momento de forte queda tem sido o investidor pessoa física, que aumentou sua participação no mercado de renda variável em busca de rendimentos maiores do que a renda fixa tradicional.

"Nossa base está muito mais educada do que em outras quedas, a maioria das pessoas que tenho contato está querendo comprar", diz Salomão em referência a educação financeira do brasileiro.

Nos Estados Unidos, a Bolsa de Nova York também acionou o cricuit breaker no início do pregão desta quinta, parando negociações por 15 minutos, quando o índice S&P 500 caiu mais de 7%.

Na Europa, índices acionários que reúnem as maiores empresas da região tiveram as piores perdas da história nesta quinta. O FTSEurofirst 300 caiu 11,53%, a enquanto o índice pan-europeu Stoxx 600 perdeu 11,48%.

Desde fevereiro, o Stoxx 600 perde quase um terço de seu valor de mercado. Em outra indicação dos distúrbios no mercado, o Índice de Volatilidade do Euro Stoxx, considerado uma medida de medo para os mercados, subiu para o nível mais alto desde a crise financeira de 2008.

O índice de volatilidade VIX, baseado no mercado americano, também volta aos níveis de 2008, com alta de 24%.

O novo gatilho para o aumento de aversão a risco é a decisão do presidente americano, Donald Trump, de restringir voos entre Europa e Estados Unidos sob o pretexto de limitar a disseminação da doença entre americanos.

A consequência mais imediata da medida anunciada na noite de quarta (11) é uma nova queda no preço do petróleo, visto que a demanda das companhias aéreas pelo combustível deve cair.

O petróleo foi o catalisador das perdas desta semana depois que a tentativa da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) de combinar uma redução da produção. A Rússia, que não integra o bloco, não fechou acordo e, em resposta, a Arábia Saudita afirmou que aumentaria a oferta do combustível e reduziria o preço.

A cotação do barril de petróleo do tipo Brent caiu 7,2% para US$ 33,22, menor patamar desde fevereiro de 2016.

Trump também anunciou empréstimos com juros reduzidos para pequenas e médias empresas afetadas e pediu que o Congresso americano aprove a isenção de impostos da folha de pagamento.

As medidas foram consideradas insuficientes pelo mercado. As quedas das Bolsas desaceleraram apenas com a noticia de que o Fed de Nova York vai injetar US$ 1,5 trilhão em operações de "repo", sigla para repurchase agreement (contrato de recompra, na tradução livre).

Tais operações se assemelham a operações compromissadas. Nela, o Fed compra títulos do tesouro americano de agentes do mercado por um período determinado, concedendo dinheiro para as instituições. Essa é uma maneira do regulador conceder liquidez ao mercado em momentos de stress financeiro.

"A intervenção do Fed não vai segurar o mercado, o que precisa ser feito são de medidas fiscais, como de que modo o governo vai ajudar trabalhadores que ganham por hora e quem está de licença durante a pandemia. O que o Trump anunciou é muito pouco," afirma Adriano Cantreva, sócio da Portofino Investimentos.

O dólar também perdeu força com a atuação do Fed. O BC brasileiro também atuou, com quatro leilões de dólares à vista, que somaram US$ 1,782 bilhão. Com as vendas, o dólar reduziu alta e fechou a R$ 4,779, novo recorde nominal. Na abertura do mercado, a cotação da moeda ultrapassou os R$ 5 pela primeira vez na história.

O risco-país medido pelo CDS (Credit Defautl Swap) saltou 42%, alta recorde.