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Bolsa sobe com Persio e Lara na equipe de transição de Lula

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os principais indicadores financeiros refletiam a redução das tensões entre investidores na tarde desta terça-feira (8) após a divulgação de alguns dos nomes que participarão da transição de governo.

A equipe do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contará com a senadora Simone Tebet (MDB-MS) e os economistas Persio Arida e André Lara Resende, entre outros nomes. Financistas cobravam da nova gestão nomes técnicos e mais alinhados ao mercado.

No mercado de câmbio do Brasil, o dólar comercial à vista fechou em queda 0,44%, cotado a R$ 5,15. Na Bolsa de Valores, às 17h10, o índice de ações Ibovespa subia 0,74%, aos 116.204 pontos.

As ações preferenciais da Petrobras abandonavam a zona negativa e subiam 0,51%. Entre os papéis mais negociados da Bolsa brasileira, os ativos da estatal passaram a sofrer forte desvalorização após a eleição de Lula.

Na equipe de transição, o setor que tratará de economia deve ter quatro nomes principais. Além de Persio e André Lara, o economista Guilherme Mello, professor da Unicamp e ligado ao PT, também fará parte da equipe. O quarto integrante é Nelson Barbosa, que foi ministro da Fazenda e do Planejamento no governo de Dilma Rousseff.

Com isso, há uma divisão da área entre dois economistas com histórico liberal (Arida e Resende) e dois representantes diretos do partido (Barbosa e Mello), que defendem a flexibilização do teto de gastos para atender demandas sociais.

Persio Arida chegou a ser citado entre os nomes considerados para assumir a economia. Ele é próximo de Alckmin, vice-presidente eleito e coordenador da transição.

O economista é um dos pais do Plano Real —medida que acabou com o cenário de hiperinflação nos anos 90, na transição dos governos Itamar Franco (1992-1994) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002)— e declarou voto em Lula no segundo turno.

Na hora seguinte após o jornal Folha de S.Paulo ter antecipado os nomes de Arida e Resende, por volta das 12h30, o Ibovespa atingiu as pontuações máximas do dia, acima dos 117 mil pontos.

O mercado de ações doméstico, porém, devolveu parte dos ganhos diante da apresentação dos demais nomes da equipe e também com a volatilidade provocada no exterior pelas eleições para o Congresso dos Estados Unidos.

Em Nova York, o índice S&P 500, referência da Bolsa americana, subia 0,52% já perto do encerramento da sessão. Mais cedo, porém, chegou a subir mais de 1%.

Investidores aguardavam o resultado das eleições de meio de mandato contando com a possibilidade de retomada do controle do Legislativo pelo Partido Republicano que, em teoria, pode limitar planos do presidente democrata Joe Biden quanto a políticas mais expansionistas, ou seja, que aumentam os gastos públicos.

"Isso tende a tornar o corpo eleitoral muito menos eficaz em termos de implementação de grandes mudanças e forçar a agenda política muito mais para o centro", disse Charles Diebel, chefe de renda fixa da Mediolanum International Funds, ao The Wall Street Journal.

Para a economista especialista em câmbio Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest, a cotação do dólar também refletiu o ambiente externo, já que a divisa americana caiu frente a outras moedas, mas ela destacou que as atenções estão majoritariamente voltadas para a definição dos nomes que conduzirão a política econômica na gestão Lula.

"O principal ponto para o mercado de câmbio nos próximos dias deverá ser a definição da equipe ministerial do próximo governo", disse Quartaroli.

Felipe Cima, operador de renda variável da Manchester Investimentos, considera que há no exterior condições favoráveis neste momento para colocar "a Bolsa para cima e o dólar para baixo", mas a divulgação e as especulações sobre nomes com baixo conceito em relação ao mercado têm gerado cautela.

"Depois da eleição do Lula, que era o candidato menos querido pelo mercado, parece que continuamos em uma tendência de que, se a gente não estragar muito, podem vir recursos para cá", disse.

Ele citou como negativa a perspectiva de inclusão do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega na transição, conforme adiantou o vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB) nesta tarde.

Cima destacou, porém, que a desconfiança pode ser amenizada caso o novo governo apresente um "waiver", que nesse contexto significa licença para gastar acima do teto de gastos, de R$ 170 bilhões, abaixo dos R$ 200 bilhões inicialmente estimados.

Na segunda-feira (7), o índice Ibovespa fechou em queda de 2,38%, aos 115.342 pontos. O principal destaque negativo foi a queda de 4,06% das ações preferenciais da Petrobras, as mais negociadas da Bolsa. O dólar comercial à vista avançou 2,41%, cotado a R$ 5,1730, na venda.

O mercado financeiro se volta para possíveis nomes da equipe econômica do presidente eleito atento a sobre como o novo governo encontrará espaço no Orçamento para cumprir promessas de campanha que aumentam os gastos públicos.

Analistas atribuíram a queda do mercado desta segunda a rumores de que a cúpula petista estaria pressionando a nomeação do ex-prefeito Fernando Haddad para comandar a economia, além de uma entrevista do ex-ministro Henrique Meirelles dizendo que não é candidato ao cargo.

"Houve ontem essa discussão sobre a possibilidade do Haddad ficar na economia e também teve a questão do Meirelles dizendo que não é candidato à Fazenda", comentou Felipe Steiman, gerente de desenvolvimento de negócios da B&T Câmbio. "O mercado não gostou."

Participantes do mercado consideraram que declarações de Meirelles em entrevista à Jovem Pan News soaram como uma confirmação de que o ex-ministro pode ter ficado de fora da disputa. "Se eu sou candidato a ministro da fazenda? Não, não sou candidato a ministro", disse Meirelles.

Assim como já havia dito à reportagem, porém, Meirelles não fechou as portas para um convite de Lula. "Evidentemente que eu sempre sigo preparado para o serviço público e qualquer convite eu analiso quando ocorre", disse o ex-ministro.

No centro das preocupações dos investidores está o risco fiscal, ou seja, a possibilidade de que o novo governo faça uma opção por expandir em excesso os gastos públicos e que isso resulte em endividamento e ameaça à execução do Orçamento no futuro.

Independentemente do nome a ser escolhido, a expectativa do mercado é por um nome com perfil técnico. "O mercado não vê com bons olhos um político no cargo", disse Marcelo Oliveira, cofundador da Quantzed. "Além disso, muitos acreditam que Haddad não tem boa interlocução com o Congresso."