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Bolsa reduz taxas para que corretoras atraiam investidores para ações

ISABELA BOLZANI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A B3 (Bolsa de Valores brasileira) anunciou nesta quinta-feira (2) a redução da tarifas cobradas para investimentos no mercado de ações e de balcão, em uma iniciativa que tem por objetivo atrair mais investidores para o mercado financeiro.

Dentre as principais mudanças estão a isenção do custo fixo de manutenção da conta (que atualmente está em R$ 110 ao ano para investidores locais) e a isenção da tarifa de custódia para os investidores com menos de R$ 20 mil, situação que beneficiaria 65% dos investidores com conta.

Segundo a Bolsa, se as novas tarifas estivessem valendo, ela teria tido receita R$ 250 milhões menor no ano passado.

Essas taxas, na prática, já não são cobradas de investidores, mas pagas pelas corretoras à B3. Segundo o presidente da Bolsa, Gilson Finkelsztain, a medida deve ajudar corretoras a atrair mais investidores.

"Isso elimina as restrições orçamentárias de corretoras e pode ser um estímulo significativo para a atração de clientes. Além disso, as mudanças também impactam investidores institucionais e pessoas jurídicas", disse em teleconferência para detalhar a redução de taxas.

No último ano, o número de investidores na B3 mais que dobrou. Em dezembro de 2018, a Bolsa tinha 813 mil investidores e fechou 2019 com 1,7 milhão. 

Além disso, outras medidas como a diminuição automática de tarifas conforme o aumento do volume investido, a equalização de taxas entre os diferentes investidores, o estímulo a operações de empréstimos de ativos e uma tabela específica para grandes day traders (que fazem a negociação ativos ao longo do dia), também estão entre as alterações.

Em dezembro, Finkelsztain já havia sinalizado que a companhia estudava formas de desonerar as taxas impostas às corretoras para atrair pessoas físicas ao mercado de capitais. Além do cenário macroeconômico mais positivo e propício para a Bolsa de Valores, o movimento também vem em um momento de esforços conjuntos entre a própria B3 e a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para fomentar uma maior competição no segmento. 

Segundo o presidente da B3, ainda que essas mudanças impliquem em uma redução de receita no curto prazo para a companhia, o aumento da base de investidores mitigaria esses efeitos no médio e longo prazo.

"Esse aumento virá de diversas frentes mas, principalmente, de três: do maior volume de pessoas físicas que começarão a operar no mercado acionário, do maior volume que fundos locais continuarão a ter na captação para multimercados e de ações e também do maior volume que esperamos capturar de investidores estrangeiros", disse.

Para ele, o momento mais favorável ao mercado de capitais diante da agenda de reformas do governo e do cenário de inflação sob controle e juros na mínima histórica tem sido os catalisadores do setor. O Ibovespa, o principal índice de ações do Brasil, se valorizou 32% em 2019.

"O nosso objetivo não é maximizar a receita de curto prazo da companhia, mas fortalecer o mercado de capitais no médio e longo prazo, dando abertura para a possibilidade de mais investidores entrarem. Estamos fazendo isso agora porque a B3 é uma empresa cuja receita aumenta em função do maior volume de negócios e não proporcionalmente as custos", afirma.

Ainda de acordo com o executivo, as alterações serão implementadas ao longo de 2020, mas a expectativa é de que até o final do primeiro semestre, ao menos todas as mudanças voltadas para pessoas físicas já estejam em vigor.

"Ainda precisamos finalizar as adaptações no sistema da B3, mas a ideia é que esse cronograma seja antecipado assim que tivermos o 'ok' dos participantes do mercado", completa Finkelsztain.

Concorrência Sobre a maior competição no mercado, Finkelsztain afirmou que já considera a B3 uma empresa "muito competitiva" e que tem trabalhado, junto ao regulador, para equalizar a regulação e permitir uma "real competição" entre a companhia e as Bolsas estrangeiras.

"Temos tentado atacar o tema de exportação de mercado. Esse é o nosso maior empecilho e entendemos que, para isso, não pode ter uma arbitragem regulatória. É isso que precisamos preservar para sermos tão competitivos quanto lá fora", disse.

As discussões em torno da concorrência com o exterior ganharam força quando a XP optou por abrir capital na Nasdaq, Bolsa de tecnologia dos Estados Unidos.

No mesmo dia em que a XP começou a ser negociada na Nasdaq, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) colocou em consulta pública um edital que estuda ampliar o acesso de investidores estrangeiros a Bolsas estrangeiras. A ideia é possibilitar que qualquer investidor, e não apenas o qualificado (que detém mais de R$ 1 milhão em aplicações financeiras) possa comprar BDRs (recibos de ações estrangeiras negociadas no Brasil).

A expectativa é de que a medida abra espaço também para a regulamentação de uma dupla listagem -a qual permitiria que companhias que optaram por abrir capital em outro país pudessem também fazer IPO no Brasil.

"Já temos concorrência em mercados do mundo inteiro e fizemos um trabalho minucioso para que o modelo de tarifação esteja mais adequado ao que acreditamos ser a perspectiva de crescimento. O foco não é na concorrência, mas no cliente", completou Finkelzstain.