Mercado fechado

Bolsa está barata, mas não é hora de comprar, diz analista

JÚLIA MOURA
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL, 28.06.2018 - Investidores no saguão da B3 (Bolsa de valores). (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A máxima de aproveitar a queda do Ibovespa para comprar ações baratas foi deixada de lado nas últimas semanas por analistas do mercado com a piora nas estimativas do impacto econômico da pandemia do coronavírus.

Sem conseguir vislumbrar o tamanho da crise e, muito menos, o fim dela, especialistas apontam que ações se tornam ainda mais arriscadas.

"Parece que está tudo barato, assumindo que é uma crise passageira. O problema é que temos uma dúvida muito grande sobre o que vai acontecer", diz Fernando Siqueira, gestor da Infinity Asset.

No momento, o mercado segue outra máxima: "é bom comprar barato, mas não é bom comprar na baixa". Especialistas recomendam a compra só quando análise técnica apontar tendência de alta. E a cada nova análise, piora o cenário futuro. "O investidor tem que ficar cauteloso e não tomar risco agora", diz Erminio Lucci, presidente da corretora BGC Liquidez.

As previsões para o PIB brasileiro são revisadas para baixo e já apontam uma recessão tão ruim quanto a de 2015-2016.

"Em 2015, se esperava uma recuperação rápida que nunca aconteceu. Por isso que, agora, o prêmio está grande. O risco é grande", diz Siqueira. Prêmio é o lucro futuro esperado na compra da ação, considerando que ela se valorize.

O alto risco do mercado levou muitas ações a mínimas históricas e, caso o cenário se reverta, elas têm um potencial de lucro muito alto.

Para avaliar o preço de uma ação, investidores levam em conta diversos fatores intrínsecos a cada empresa e setor, como resultados, governança, concorrência e o cenário macroeconômico em uma análise fundamentalista, ou seja, dos fundamentos da empresa.

Um dos mecanismos mais usados é a relação preço/lucro. Ele mostra quantos anos seriam necessários para o investimento em determinada ação se pagar pela distribuição anual de lucros da empresa, via dividendos, bônus ou juro sobre capital próprio.

No cálculo, divide-se o preço do papel pelo lucro projetado pelo mercado (P/L). Quanto menor o P/L, mais barato o papel.

"Avaliar está difícil porque, hoje, a projeção futura de lucro é incerta. O PL do Ibovespa está em 9. Em 2008, ele chegou perto de 7. Se nos recuperarmos esse ano, está tudo barato. Se levarmos mais tempo, ainda não está", diz Siqueira.

Na mesma lógica, se calcula o P/VP, ou seja, o preço da ação dividido pelo valor patrimonial por papel. Ele indica o quanto o investidor ganharia caso o patrimônio líquido da empresa fosse distribuído entre acionistas, como em casos de falência. Quanto menor o P/VP, mais barato a ação.

"Geralmente, o P/VP é maior que 1, mas, agora, esse cálculo de muitas empresas está abaixo. O valor patrimonial pode cair com o tempo e elas podem não conseguir vender seus ativos nesse momento de crise", explica Eduardo Belotti, presidente da Real Valor.

É o caso da Petrobras, com P/PV de 0,6 e P/L de 5. Apesar de estar relativamente barata pela métrica, a estatal esbarra em outro critério, o endividamento. Ao fim de 2019, a dívida líquida da Petrobras era de US$ 78,8 bilhões (R$ 420 bilhões), dez vezes superior ao lucro líquido recorde do mesmo ano.

"Se empresa está barata e está muito endividada, a dívida corrói o lucro", diz Belotti.

Também é preciso avaliar o caixa da empresa e ponderar se há necessidade de contrair dívidas para sobreviver à crise.

"O ideal é o investidor ficar de fora do mercado. Se não conseguir, uma boa são empresas de utilidade pública, como saúde e bens de consumo essenciais, coisas que as pessoa consomem com ou sem crise", diz Lucci, da BGC.

ALERTA DEMOROU

Apesar do mercado financeiro global reagir ao coronavírus desde janeiro, o sinal de alerta para pequenos investidores no Brasil veio apenas entre fevereiro e março.

A princípio, a leitura de gestoras, corretoras e casas de análise era que o risco da doença consistia na desaceleração da economia chinesa, com impactos na economia global, mas que tudo rapidamente voltaria ao normal após incentivos de Pequim.

O cenário mudou com a disseminação pela Europa e a paralisação do norte da Itália, e as Bolsas despencaram. Pipocaram recomendações de compra de ações para aproveitar a liquidação dos papéis.

O faturamento de corretoras e gestoras provém da quantidade de investidores e das taxas de corretagem cobradas em cada transação de compra e venda de ações. Cotistas de fundos pagam taxa de administração e de performance --em média, de 2% e de 20% ao ano, respectivamente.

No dia 10 de março, Henrique Bredda, sócio fundador e gestor dos fundos Black da Alaska Asset Managment, disse em seu Twitter que o coronavírus "ficará na história como uma das maiores histerias coletivas". Antes, havia tuitado que "é muito interessante ver que o coronavírus, mais leve que uma gripe do influenza, esteja causando tanto medo".

Após os fundos Black da Alaska acumularem rentabilidade negativa de 70% neste ano, investidores questionaram Bredda no Twitter, que apagou as postagens.

O gestor então explicou a estratégia dos fundos desde o fim de 2015: além de ações, apostavam na queda do dólar e da Selic. A operação, que deixou de ser vantajosa em 2020 com a Selic a 3,75% ao ano e alta dos juros futuros e do dólar, foi encerrada em 18 de março. Agora, os fundos estão comprados apenas em ações.

"2020 nos trouxe uma lição que ficará para sempre: essa estratégia, por mais que faça todo o sentido, pode machucar no caso de 5, 6 circuit breakers [paralisação temporária da Bolsa após fortes quedas] e isso não pode acontecer, não na magnitude que foi", escreveu Bredda no dia 19. Procurado, não se manifestou.

A Guide também demorou para avaliar o impacto do vírus, reconheceu o analista Henrique Esteter.

"Passamos um alerta aos clientes quando o Ibovespa chegou nos 102 mil pontos [27.fev]. Contudo, quando analisamos hoje, vemos que foi até positiva a data, já que foi no primeiro quarto da queda".

No dia 9 de março, o Ibovespa entrou em terreno baixista após queda de mais de 20% em relação ao pico recente.

"Recomendamos cautela para nossos clientes em tempos de alta volatilidade. Quem tem coragem de dormir comprado sem saber o desenvolvimento das coisas nos próximos dias? Estamos no escuro agora", diz Esteter.

A Verde Asset Management, uma das mais respeitadas e bem-sucedidas gestoras do Brasil, presidida por Luis Stuhlberger, disse que subestimou a crise do coronavírus.

"Cometemos um erro importante: começamos a comprar [ações] muito cedo", disse a gestora em carta a investidores no dia 20 de março.

Em janeiro, Stuhlberger afirmou que havia uma bolha no mercado acionário brasileiro.

A declaração de Stuhlberger causou polêmica no mercado; a maioria discordou que houvesse bolha, ainda que alertaram para a dificuldade de vê-la antes que estourasse.

"Existe uma bolha na Bolsa. Os órfãos do CDI estão diversificando tudo o que aparece. Isso é muito bom para economia brasileira, mas o mercado está praticamente forçando o Banco Central a cortar mais a taxa quando, na minha opinião, deveria ter parado no 4,75% para depois não ter que subir de novo", disse Stuhlberger à época.

A queda da Selic, a taxa básica de juros, que embasa o CDI, foi um dos movimentos que fez o número de investidores na Bolsa mais que dobrar, superando os 2 milhões. Atualmente a Selic está em 3,75%.

Para Roberto Dumas Damas, professor do Insper, o mercado se deixou levar pela euforia de seguidos recordes dos índice acionários, apesar da desaceleração da economia.

"A bolha era clara, mas ninguém previu que o coronavírus seria uma agulha tão forte", afirmou Damas.

Em 28 de fevereiro, por exemplo --dois dias após a primeira confirmação de um caso de Covid-19 no Brasil--, a XP Inc. projetava 140 mil pontos para o Ibovespa neste ano e afirmou que a estimativa só mudaria se a expectativa de lucro das empresas fosse afetada por um crescimento menor da economia. Na semana seguinte, reduziu a previsão para 132 mil pontos e passou a ver alta de 1,8% no PIB brasileiro, contra 2,3% antes.

Só em 8 de março recomendou aos seus clientes, via email, cautela devido a "uma possível desaceleração econômica" por causa do coronavírus.

No dia 27 de março, a XP reduziu mais uma vez sua expectativa para o PIB de 2020, para retração de 1,9% e, no dia 29, abaixou a previsão do Ibovespa para 94 mil pontos.

Em nota, a XP Inc. afirmou que desde os primeiros casos do novo coronavírus na China seus analistas se dedicam a entender a dimensão da crise, que chamou de "sem precedentes" e que "pegou todo o mundo de surpresa por sua dimensão e velocidade".

"Todo o mundo já entendeu a gravidade da crise. De tempos em tempos, temos crises, mas quem investe no longo prazo tende a se dar bem. Obviamente, essa crise vai passar" disse o fundador e presidente da XP, Guilherme Benchimol, em uma transmissão ao vivo pela internet no dia 1º de abril.

Ele lembrou que, na crise de 2008, a XP dobrou a base de clientes à época com a campanha "Como transformar crise em oportunidade".

"Espero que aconteça o mesmo", disse Benchimol.