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Bolsa cai mais de 7% e tem pior semana desde março

JÚLIA MOURA
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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL - 09-05-2015 - BM & F Bovespa Bolsa de Valores de São Paulo. (Foto: Diego Padgurschi /Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL - 09-05-2015 - BM & F Bovespa Bolsa de Valores de São Paulo. (Foto: Diego Padgurschi /Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Bolsa de Valores brasileira teve a pior semana desde março, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou pandemia de coronavírus, acumulando queda de 7,22% até esta sexta-feira (29). O período foi marcado por recordes de novos casos de coronavírus na Europa e nos Estados Unidos incerteza quanto às eleições americanas.

Além disso, as ações das big techs tiveram fortes quedas após divulgação dos números do terceiro trimestre, derrubando os índices de Wall Street na sessão. O índice Dow Jones também teve a pior semana, e mês, desde março.

Em outubro, o Ibovespa acumulou leve queda de 0,7%, após recuo de 4,8% em setembro e de 3,4% em agosto. Entre abril e julho, a Bolsa subiu 40,94% em recuperação ao pior trimestre da história no começo do ano, quando tombou 36,86%.

No pregão desta sexta, caiu 2,72%, a 93.952 pontos, menor patamar desde 29 de setembro.

"Um novo pico do Covid-19 neste final de outubro pegou o mercado de surpresa e deve trazer bastante volatilidade pois coloca em xeque a perspectiva de crescimento do ano que vem que já não estava tão forte por conta do primeiro lockdown", diz Rafael Ribeiro, analista de ações da Clear Corretora.

Segundo Ribeiro, a nova onda de coronavírus pode colocar em xeque a expectativa de recuperação em “V” da economia global. "[Em novembro] números decepcionantes de atividade econômica pelo mundo, em especial varejo, serão suficientes para derrubar o mercado, da mesma forma que irão abrir espaço para novos pacotes de estímulos monetários.”

Já o dólar se valorizou 2,15% em outubro, mês marcado pelo risco fiscal, com incertezas sobre o orçamento de 2021 e receio ao descumprimento do teto de gastos. Nesta semana, a moeda americana subiu 1,92%.

No pregão desta sexta, o câmbio chegou a R$ 5,81, maior patamar desde maio —mês em que chegou a R$ 5,90— mas cedeu 0,45%, fechando a R$ 5,7390, após intervenção do Banco Central, a segunda na semana, com venda de US$ 787 milhões (R$ 4,5 bilhões) à vista. O turismo está a R$ 5,887.

Também colaborou para a volatilidade nos mercados de câmbio, a formação da Ptax (taxa de câmbio calculada pelo BC) de fim de mês nesta sexta, bem como a véspera de um fim de semana prolongado pelo feriado do Dia de Finados na segunda (2). As negociações no mercado local retornam justamente no dia da eleição presidencial nos Estados Unidos, na terça (3).

Apesar de pesquisas apontarem o democrata Joe Biden como favorito, a reeleição do presidente republicano Donald Trump não é descartada, assim como agentes financeiros temem um desfecho judicial no caso de um resultado muito apertado.

Segundo analistas, o risco do resultado da eleição ser contestado eleva o risco em torno do pleito eleitoral, o que leva investidores a se desfazerem de ativos arriscados, como ações, para mais seguros, como títulos do Tesouro americano e dólar, contribuindo para a queda de Wall Street.

"Caso Biden e os democratas levem a Casa Branca e ambas as casas do legislativo, investidores podem esperar uma mudança relevante em termos de política econômica. Por mais que a pretensão de elevar impostos corporativos se apresente como um risco latente para a valorização dos ativos, existem outros pontos do plano econômico do candidato democrata que criam interessantes oportunidades de investimento. Nesta frente, destacamos impactos relevantes sobre o setor de infraestrutura e energia", escreveu a equipe da Guide Investimentos em relatório a clientes.

No pano de fundo, estão expectativas sobre mais estímulos fiscais para a maior economia do mundo, que ainda não vieram, na visão de muitos no mercado, em razão da disputa. Há semanas, democratas e republicanos discutem a aprovação de cerca de US$ 2 trilhões de alívio (R$ 11,48 trilhões).

Nesta sexta, S&P 500 caiu 1,21%, Dow Jones recuou 0,59% e Nasdaq, 2,45%.

A Bolsa de tecnologia teve uma queda mais acentuada pela forte queda das big techs após resultados do terceiro trimestre.

Apple e Facebook caíram 5,6% e 6,3%, respectivamente. Amazon cedeu 5,45%. Netflix teve queda de 6,5% e Microsoft, de 2,3%. Spotify derreteu 9% e o Twitter, 20,7% —a rede social teve menos usuários monetizáveis do que Wall Street esperava no terceiro trimestre, embora tenha superado as expectativas para a receita.

Em geral, os resultados vieram acima das expectativas do mercado, mas investidores aproveitaram a forte alta no setor nos últimos meses para embolsar ganhos antes das eleições e à medida que os casos de Covid-19 voltam a saltar.

De acordo com Ruy Alves, gestor da Kinea, plataforma de gestão de investimentos ligada ao Itaú, investidores esperaram os balanços das big techs para realizar ajustes nas carteiras antes das eleições americanas, reduzindo a exposição a risco.

“O posicionamento do mercado estava quase todo em ações dessas empresas. [A queda] é um movimento técnico de mercado para reduzir o risco dos portfólios pré-eleições”, diz Alves.

A exceção do movimento em Wall Street foi a Alphabet, dona Google, que subiu 3,8% na sessão. "O mercado estava menos posicionado nessas ações", afirma o gestor.

Na semana, o VIX, índice que mede a volatilidade do mercado com base no S&P 500 —conhecido como "índice de medo" pelo mercado—, acumulou alta de 38% na semana, alcançando 38 pontos, maior valor desde 11 de junho, quando as ações americanas derreteram com alta nos casos de Covid-19.

Já o Petróleo acumulou forte queda na semana. O barril do Brent (mais negociado) se desvalorizou 9,8% até esta sexta, a US$ 37,94 (R$ 217,7), menor valor desde 19 de maio.

Na Europa, a alta histórica de 12,7% do PIB (Produto Interno Bruto) da zona do euro no terceiro trimestre levou o índice Stoxx 600, que reúne as ações das maiores empresas da região, a subir 0,3% nesta sexta. Na semana, porém, perdeu mais de 5%.

Na Bolsa brasileira, o destaque foi a B2W, que caiu 8,97%, após reportar um prejuízo menor no terceiro trimestre.A Lojas Americanas, que tem o conrole da B2W, caiu 5,91%. Segundo analistas, o movimento reflete uma realização de lucros, já que os dados vieram de acordo com as estimativas.

A queda das varejistas derrubou o setor, que liderou as perdas do Ibovespa na sessão. Hering cedeu 6,80% e Via Varejo 5,97%. Na véspera, a dona da Casas Bahia anunciou a compra da startup especializada em comércio eletrônico para o varejo i9XP, buscando acelerar a entrada de novos vendedores em seu marketplace.