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Bolsa cai e dólar sobe com gasto fora do teto e falas de Lula

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.01.2019 - Still de mãos segurando cédulas de dólar. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.01.2019 - Still de mãos segurando cédulas de dólar. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Bolsa de Valores brasileira diminuía suas perdas no início da tarde desta quinta-feira (17), depois de ter caído acentuadamente durante toda a manhã, em resposta à proposta do novo governo de furar o teto de gastos para pagar o Bolsa Família e às declarações do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a reação dos mercados.

Indicador de referência da Bolsa, o Ibovespa caía 1,48% às 12h40, recuando aos 108.606 pontos. Mais cedo, chegou a ceder mais de 2%, quando mergulhou à mínima de 107.245 pontos.

Já o dólar comercial à vista subia 1,33%, cotado a R$ 5,4530 na venda. A alta da moeda americana também era suavizada em relação à abertura do mercado de câmbio, quando disparou mais de 2% e atingiu o pico de R$ 5,53.

Em fala durante encontro com ONGs nesta quinta, Lula defendeu furar o teto de gastos como uma "responsabilidade social", para conseguir financiar programas sociais. Na COP27, conferência do clima da ONU que ocorre em Sharm el-Sheikh, no Egito, ele participou de uma reunião com a sociedade civil brasileira.

"Se eu falar isso vai cair a Bolsa, vai aumentar o dólar? Paciência", disse Lula, completando que a flutuação dos índices não acontece "por causa das pessoas sérias, mas por conta dos especuladores que ficam especulando todo santo dia".

A redução da desvalorização das ações e da moeda nacional coincidia com a abertura do mercado americano, apesar do cenário também desfavorável no exterior provocado pelo temor de recessão mundial.

Na quarta-feira (16), o índice Ibovespa tombou 2,58%, aos 110.243 pontos, depois de ter mergulhado mais de 3% ao longo do dia. O dólar comercial à vista avançou 1,52%, valendo R$ 5,3840 na venda. O mercado de juros futuros também apresentou forte alta. A taxa DI (depósitos interbancários) para 2024 passou dos 14% ao ano.

O mercado financeiro doméstico foi pressionado ao longo do dia por rumores sobre o nome do futuro ministro da Fazenda e pela espera por uma definição quanto às despesas que ficarão fora do teto de gastos em 2023.

À noite, após o fechamento do mercado, o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), apresentou a minuta da PEC (proposta de emenda à Constituição) da Transição, que propõe retirar o programa Bolsa Família do teto de forma permanente e abre caminho para honrar promessas de campanha do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A medida é considerada necessária para evitar um apagão social no ano que vem, já que a proposta de Orçamento enviada em agosto pelo governo Jair Bolsonaro (PL) assegura apenas um valor médio de R$ 405,21 para os beneficiários, além de impor cortes severos nas verbas para a habitação e no Farmácia Popular.

Analistas explicam que, ao abrir mais brechas para ampliar gastos sem uma limitação como a imposta pelo teto de gastos, o governo gera condições para que a inflação ganhe fôlego devido ao aumento de dinheiro público circulando no mercado.

Para controlar essa pressão inflacionária, o Banco Central pode retomar as elevações da taxa de juros do país, hoje em 13,75% ao ano. Juros altos tendem a esfriar o mercado de ações, pois investidores se voltam para os ganhos oferecidos pela renda fixa. Isso reduz a capacidade das empresas financiarem seus projetos, prejudicando a geração de emprego.

Além disso, o descontrole dos gastos públicos pode dificultar a execução do plano financeiro traçado pelo governo. É o chamado risco fiscal. Investir no país fica mais arriscado e investidores levam seus dólares para fora, tornando a moeda americana mais cara por aqui. Esse processo gera inflação e requer juros ainda mais altos.

Em momentos de incertezas sobre os rumos da economia, investidores também avaliam que retorno dos títulos do governo precisa ser mais altos para compensar o risco, o que exerce ainda mais pressão no mercado de juros.

"Os juros sobem com a ideia de que o Brasil pode ter um problema fiscal devido à intenção do governo de aumentar os gastos", comentou Piter Carvalho, economista-chefe da Valor Investimentos. "Já que o país quer gastar mais, o investidor cobra um prêmio maior."

Pelo segundo dia seguido, os principais mercados de ações mundiais negociavam com quedas moderadas, o que também criava uma tendência desfavorável para a Bolsa brasileira, cuja metade do montante movimentado vem de investidores estrangeiros.

Parâmetro para a Bolsa de Nova York, o índice S&P 500 caía 1,12% nesta quinta-feira (17). Na véspera, o mercado americano abandonou o otimismo provocado nos últimos dias pela narrativa de que os juros no país poderiam subir menos nos próximos meses após a inflação ter perdido força em outubro.

Autoridades do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), porém, passaram a reafirmar que o aperto ao crédito para frear a inflação será mantido.

Paralelamente, sinais de que a alta dos juros já provoca sinais de recessão voltaram a chamar a atenção. Entre esses sinais está o balanço trimestral com resultados abaixo do esperado da varejista Target.

"Dados da gigante varejista americana Target também preocuparam investidores, demonstrando um mercado desafiador para o varejo e aumentando a preocupação de uma recessão no país", comentou Antonio Sanches, analista de investimentos da Rico.

O banco JP Morgan também apontou em relatório que os Estados Unidos caminham para uma leve recessão, segundo a agência Bloomberg.

A desaceleração da economia tende a reduzir a demanda por energia e isso afetava o preço de referência do petróleo. O barril do Brent perdia 1,22%, cotado a US$ 91,73. Na Bolsa brasileira, as ações mais negociadas da petrolífera Petrobras perdiam 1,07%.