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Bolsa cai e dólar sobe com movimento de correção moderada após rali recente

Marcelle Gutierrez, Victor Rezende e Marcelo Osakabe

Movimentos acompanham clima nos mercados globais Após sete pregões consecutivos de alta, o Ibovespa passa hoje por um movimento de realização de lucros, em linha com outros índices acionários no exterior.

Foram sete pregões consecutivos de alta, dos 86.949 pontos em 28 de maio para 97.644 em 8 de junho, uma alta de 12,3%.

Nesta sessão, às 13h42, o Ibovespa exibia perdas de 0,90%, aos 96.766 pontos. Na mínima do dia, porém, a queda foi ainda superior, de 2,31%, aos 95.386 pontos. “É um ajuste antes dos 100 mil pontos”, diz um profissional do mercado.

No exterior, o movimento é semelhante após o rali. Em Nova York, o Dow Jones cai 0,99%, o S&P 500 tem baixa de 0,79% e o principal ETF de mercados emergentes, o EEM, cede 1,11%. Por lá, o ajuste ocorre na véspera da decisão do Federal Reserve (Fed), que será divulgada amanhã.

Entre os latino-americanos, o S&P/BMV IPC, do México recuava 2,27% no mesmo horário, o Colcap, da Colômbia operava em baixa de 2,43% e o Inter 10, do Chile (-1,47%).

O rali visto nas bolsas da América Latina e, principalmente no Brasil, ocorreu diante da maior propensão ao risco por parte dos investidores, já dispostos a deixar para trás a deterioração econômica deste ano e focar nas estimativas para 2021, segundo o Bank of America (BofA). Os estímulos fiscais e monetários também justificam o rali global.

Em relatório divulgado hoje, o banco revisou a projeção do Ibovespa para 2020 de 76 mil para 100 mil pontos, da bolsa do México (Mexbol) de 30 mil para 40 mil pontos, e do índice MSCI LatAm, um dos principais referenciais para o mercado de ações na América Latina, de 1,700 mil pontos para 2,100 mil pontos.

“Os preços começaram a melhorar muito antes dos fundamentos e sinais recentes de recuperação em todo o mundo reacenderam esse desempenho, como a enorme surpresa positiva no relatório de emprego dos EUA, demanda de consumo, indicadores de atividade melhorando na China e mais flexibilização fiscal na Alemanha e no Japão”, comentaram.

Na América Latina, as economias do Brasil e México devem ter contração do PIB de 7,7% e 10%, respectivamente, e com deterioração fiscal, mas o movimento favorável ao risco elevou o preço das ações. “A melhoria global do cenário também favorece crescimento dos lucros para este e próximo ano no Brasil, uma vez que bens de consumo (principalmente exportadoras) e commodities têm as melhores perspectivas de ganhos dentro do Ibovespa.”

As ações ligadas às commodities tiveram recuperação nas últimas semanas, com a retomada dos preços do petróleo e minério de ferro. Hoje, o movimento também é de realização nestes papéis.

Petrobras ON cai 2,40% e a PN recua 2,53%. Em um mês, entretanto, a alta é de 16,52% e 18,78%, respectivamente. O contrato para agosto do petróleo Brent, preço de referência da Petrobras, recua 0,27% hoje, mas ainda acima dos US$ 40 o barril, a US$ 40,68.

Já Vale ON exibe leve queda de 0,02%, às 12h43, após recuar 1,20% na mínima do dia de R$ 54,12. Em um mês, o papel sobe 12,06%.

Dólar

No mercado de câmbio, a tradicional cautela antes das decisões de juros do Federal Reserve leva a um dia de realização de lucros para moedas emergentes e outros ativos de risco, que viveram forte rali nos últimos dias. No Brasil, esse cenário também afetou o real, que voltou a se aproximar dos R$ 4,90.

Por volta das 13h44 a moeda americana era negociada em alta de 0,79%, a R$ 4,8923, após tocar máxima intraday de R$ 4,9373.

"O apetite por risco visto nos últimos dias dá uma pausa hoje aparentemente influenciado pela boa e velha realização de lucros. Não há novidades para justificar a virada", dizem analistas do Brown Brothers Harriman. "Este rali poderoso visto nos mercados acionários ao mesmo tempo em que o noticiário econômico continua bastante negativo continua a confundir muitos observadores."

A sensação de que o breque pode ser apenas pontual e que o encontro do Fed pode ser apenas pretexto é intensificada pelo fato de que pouco se espera do BC americano em termos de novidade. "Não esperamos nenhum novo anúncio por parte do Fed, ainda que o tom do comunicado certamente se mantenha do lado "dove" (favorável a estímulos)", dizem analistas do TD Securities. "Adicionalmente, a atualização das projeções econômicas provavelmente irá mostrar a inflação se afastando ainda mais da meta de 2%, o que pode manter o juro básico perto de zero pelo menos até o fim de 2022."

Ainda assim, a pausa do rali se refletiu sobre o risco-país. O spread do contrato de 5 anos do Credit Default Swap operava aos 228 pontos no início desta tarde, de acordo com dados compilados pela IHS Markit. Ontem, ele encerrou o dia em 206 pontos.

Embora reconheça que as moedas emergentes tenham tido grande recuperação desde o pico da crise, o Morgan Stanley nota que seu indicador de sentimento de risco ainda chegou ao ponto que sinalizaria "clara complacência". Por outro lado, dizem analistas do banco americano em nota, "acreditamos que o recente rali merece uma abordagem mais cautelosa. Ainda assim, o universo das divisas emergentes de continuar recebendo apoio de um dólar mais fraco, dado que o Fed deve manter amplos estímulos até que os dados tragam melhora consistente."

Nesse ambiente, o Morgan Stanley vê espaço técnico para o dólar recuar até os R$ 4,75 no Brasil. No entanto, "dado que os fatores indiosincráticos continuam longe de apresentar melhora, nós evitamos adotar uma postura mais otimista do que permite o cenário global para a tomada de risco."

Valor

Embora os analistas esperem pouco por parte do BC americano além de uma mensagem otimista, analistas do Commerzbank notam que o modo "excessivamente otimista" dos mercados globais de moedas pode fazer o evento catalisar uma moderação desse apetite, em particular se as novas projeções econômicas da autoridade monetária americana forem conservadores. "Algumas divisas já voltaram a ser negociadas nos patamares pré-crise, talvez até abaixo, como o caso da coroa sueca. Até que os dados econômicos mostrem real recuperação da pandemia, novos ganhos são pouco justificáveis, em nossa opinião."

No mercado de juros, os agentes digerem comentários feitos há pouco pelo diretor de Política Econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, em webinar promovido pelo Credit Suisse. Para ele, em momentos como o atual, de grande choque na economia, os benefícios de fazer mudanças mais bruscas na taxa de juros compensam mais do que os riscos de uma postura mais conservadora. Além disso, ele se mostrou comprometido com a meta de inflação de 2021 e disse que a quedas nas projeções de inflação do mercado tem um peso grande na modelagem de estimativas do BC.

Com os comentários do dirigente, as taxas futuras de juros abandonaram a alta mais forte observada pela manhã ao longo da curva a termo. Há pouco, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 passava de 2,19% no ajuste de ontem para 2,205%; a do DI para janeiro de 2022 se mantinha inalterada em 3,12%; a do DI para janeiro de 2023 caía de 4,22% para 4,21%; e a do DI para janeiro de 2025 se mantinha estável em 5,77%.