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Bolsa cai com coronavírus e dado de atividade; dólar cede com leilão do BC

Ana Carolina Neira, Marcelo Osakabe, Lucas Hirata e Victor Rezende

Investidores acompanham notícias sobre o vírus e avaliam tanto o resultado do IBC-Br como a atuação da autoridade monetária brasileira no câmbio O Ibovespa tem um dia de queda no último pregão da semana, com um recuo um pouco mais acentuado na última hora. O clima de aversão ao risco acontece após a percepção de que a economia brasileira perdeu força no fim de 2019, além do nível de alerta em torno do coronavírus. A escalada recente do dólar também preocupa os agentes, que começam a incluir em suas projeções novas reduções na Selic.

Às 13h23, o Ibovespa cedia 0,97%, aos 114.535 pontos. Já o volume financeiro está apenas um pouco acima da média para o horário, somando R$ 5,3 bilhões.

Os investidores seguem acompanhando as informações sobre a epidemia do coronavírus, com novos números de mortos e infectados na China. Trata-se da segunda maior economia do mundo e, caso a doença continue avançando significativamente, um Produto Interno Bruto (PIB) local mais fraco tem potencial para afetar diversas outras economias ao redor do mundo, inclusive o Brasil, um importante parceiro comercial dos chineses. Isso explica porque a busca por proteção é maior, anda mais dado o contexto de uma economia que ainda não cresce internamente.

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Isso ficou ainda mais evidente nesta manhã, após a divulgação de que o IBC-Br, conhecido como a 'prévia' do PIB, recuou 0,27% em dezembro de 2019, na comparação dessazonalizada com o mês anterior. Em 2019 completo, IBC-Br cresceu 0,89%.

Esses números ganham especial importância após uma sequência de indicadores piores que o esperado nos últimos meses, indicando que a economia brasileira não está crescendo no ritmo desejado, trazendo à tona novas discussões sobre a necessidade de cortes adicionais na Selic. Além disso, especialmente na bolsa, o impacto tende a ser maior nas ações mais ligadas ao ciclo doméstico, que passaram por forte valorização nos últimos meses diante das perspectivas de um crescimento econômico que ainda não se mostrou sólido.

"Isso acaba trazendo uma visão mais negativa sobre a nossa economia, com o investidor ficando cada vez mais frustrado e vendo que, no longo prazo, o PIB pode não vir tão bom quanto esperado", diz Luana Nunes, analista da Toro Investimentos.

Os maiores pontos de pressão deste pregão vem justamente das ações de maior peso e liquidez dentro do índice, como Bradesco (-1,27% a ON e -1,14% a PN), units do Santander (-1,36%), Itaú Unibanco PN (-0,96%), Petrobras (-0,81% a ON e -0,37% a PN) e Vale ON (-1,52%). Estas três últimas também são os ativos mais negociados de todo o mercado à vista.

Também se destacam entre as baixas as units do BTG Pactual (-5,65%), Rumo ON (-5,92%) e Usiminas PNA (-4,44%), todas elas refletindo resultados trimestrais mais fracos e também passando por ajustes de preço.

Câmbio

O dólar mantém a trajetória de baixa no pregão desta sexta-feira, reagindo ao novo leilão de swap cambial do Banco Central (BC) e também um ambiente no exterior mais tranquilo. Por volta das 13h30, a moeda americana cedia 0,51%, aos R$ 4,3116.

O comportamento é uma continuação do pregão da véspera, quando o dólar chegou a tocar R$ 4,38, mas a cotação foi rapidamente derrubada após o BC realizar um leilão extraordinário de swap cambial. Assim como na quinta-feira, a autoridade monetária vendeu integralmente o lote de 20 mil contratos de swap cambial.

Para analistas do Citi, o leilão do BC de hoje é uma resposta ao mercado, que teria “testado a determinação” da autoridade monetária ao tentar levar a moeda americana a um fechamento estável ontem, apesar da intervenção. “No mínimo, o real não é mais um hedge óbvio para risco em outros ativos emergentes”, diz o banco em relatório.

A mensagem de que o BC está atento à escalada recente do dólar contribui para uma estabilização da cotação no Brasil, que sobe há seis semanas consecutivas. Segundo o BNP Paribas, apenas em quatro ocasiões, desde 2007, o dólar engatou uma sequência parecida. Caso encerre o dia neste patamar, a moeda americana terá acumulado queda de 0,20% na semana.

“O dólar tenta agora se acomodar em um novo patamar, que imaginamos ser algo perto de R$ 4,30”, diz Jefferson Lima, responsável pela mesa de câmbio e juros da CM Capital.

De acordo com fontes do mercado, o desempenho recente real, que tem ficado abaixo dos demais emergentes há algum tempo, justifica a intervenção do BC. “Não tira a primazia do mercado em determinar a taxa de câmbio, mas ajuda a suavizar um movimento de volatilidade”, explica uma fonte, que vê a intervenção em momentos de estresse ou de falta de liquidez como adequada.

O real é hoje a moeda de melhor desempenho do dia, seguida de perto rand sul-africano, contra o qual o dólar cede 0,48%. Lá fora, a maior parte dos pares emergentes se valoriza, repercutindo um certo alívio após o número de casos registrados na China desacelerar em relação ao dia anterior.

A divulgação do IBC-Br de dezembro acabou gerando pouca reação de mercado. “O resultado é consistente com a queda mensal da produção industrial de dezembro e a forte contração das vendas no varejo. Olhando adiante, no entanto, esperamos crescimento decente nos próximos três a seis meses, em linha com os indicadores antecedentes, que se mantém relativamente saudáveis”, diz a Pantheon Macro em relatório.

Juros

O entendimento de que a taxa básica de juros deve continuar em níveis baixos por um período prolongado voltou a guiar a curva a termo de juros futuros nesta sexta-feira. O encontro trimestral de economistas com diretores do Banco Central serviu para apoiar essa ideia no momento em que dados de inflação continuam a surpreender para baixo e em que a atividade resiste a se mostrar mais firme.

Não por acaso, por volta de 13h30, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022, caía de 4,83% no ajuste anterior para a mínima histórica de 4,74%, enquanto a do DI para janeiro de 2023 recuava de 5,41% para 5,30%. No mesmo horário, a taxa do contrato para janeiro de 2021 cedia de 4,26% para 4,235% e a do DI para janeiro de 2025 passava de 6,08% para 5,99%.

De acordo com interlocutores ouvidos pelo Valor, economistas discutiram o nível de ociosidade da economia em reunião trimestral com o BC. “Os economistas tentaram entender melhor a dicotomia trazida pelo Copom na ata sobre o hiato não estar tão aberto”, disse um dos analistas presentes. A visão predominante foi a de que o nível de ociosidade continua amplo no país. Outro tópico abordado foi a interrupção do ciclo de flexibilização na semana passada, quando o BC levou a Selic a 4,25%.

A avaliação da equipe de macroeconomia do Santander, liderada por Ana Paula Vescovi, é a de que o juro básico deve permanecer inalterado até o segundo trimestre de 2021, quando um ciclo de normalização teria início. Com a recuperação da economia, “o próximo movimento do BC no juro - quando ocorrer - será de alta”. A recuperação um pouco mais lenta do que o projetado anteriormente pelo banco, contudo, fez o Santander revisar a Selic no fim de 2021 de 6% para 5,5%.

Predomina, portanto, a visão de taxas de juros em níveis baixos e por um período prolongado. “É fato que a dinâmica da inflação permanece benigna no curto prazo, enquanto o ímpeto da economia não é tão forte quanto a bateria de dados de setembro e outubro nos fez acreditar”, diz o economista-chefe do Barclays para Brasil, Roberto Secemski. Assim, o banco britânico não mais espera que a normalização do juro básico ocorra ainda este ano e vê a Selic em 4,25% ao menos até o início de 2021.

Na Sicredi Asset, porém, a visão é de que, apesar do BC ter fechado a porta para um novo corte da taxa em março, ainda há espaço para medidas adicionais de estímulo. “Os dados estão vindo muito fracos e o IBC-Br mostrou isso. Tanto no comunicado quanto na ata, o BC reiterou que vai ficar de olho nas expectativas de inflação para 2021, mas já no Boletim Focus a concentração de apostas em um nível de IPCA abaixo de 3,75% aumentou. Isso vai acabar pressionando a curva para novos cortes ainda este ano”, afirma Danilo Alencar, operador de renda fixa na gestora.