Mercado fechado

Bolsa cai 2% e dólar salta com gasto fora do teto e falas de Lula

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.01.2019 - Still de mão segurando cédulas de dólar. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.01.2019 - Still de mão segurando cédulas de dólar. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Bolsa de Valores brasileira abriu em forte queda nesta quinta-feira (17), retomando o movimento de baixa da véspera, e o dólar continuava a avançar contra real. A movimentação é uma resposta à proposta do novo governo de furar o teto de gastos para pagar Bolsa Família e às declarações do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a reação dos mercados.

Indicador de referência da Bolsa, o Ibovespa caía 2,06% às 10h15, recuando aos 107.969 pontos. O dólar comercial à vista subia 1,70%, cotado a R$ 5,4760 na venda. Mais cedo, na abertura do mercado de câmbio, a moeda americana havia disparado mais de 2%, com a cotação atingindo R$ 5,53.

Em fala durante encontro com ONGs nesta quinta, Lula defendeu furar o teto de gastos como uma "responsabilidade social", para conseguir financiar programas sociais. Na COP27, conferência do clima da ONU que ocorre em Sharm el-Sheikh, no Egito, ele participou de uma reunião com a sociedade civil brasileira.

"Se eu falar isso vai cair a Bolsa, vai aumentar o dólar? Paciência", disse Lula, completando que a flutuação dos índices não acontece "por causa das pessoas sérias, mas por conta dos especuladores que ficam especulando todo santo dia".

Na quarta-feira (16), o índice Ibovespa tombou 2,58%, aos 110.243 pontos, depois de ter mergulhado mais de 3% ao longo do dia. O dólar comercial à vista avançou 1,52%, valendo R$ 5,3840 na venda. O mercado de juros futuros também apresentou forte alta. A taxa DI (depósitos interbancários) para 2024 passou dos 14% ao ano.

O mercado financeiro doméstico foi pressionado ao longo do dia por rumores sobre o nome do futuro ministro da Fazenda e pela espera por uma definição quanto às despesas que ficarão fora do teto de gastos em 2023.

À noite, após o fechamento do mercado, o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), apresentou a minuta da PEC (proposta de emenda à Constituição) da Transição, que propõe retirar o programa Bolsa Família do teto de forma permanente e abre caminho para honrar promessas de campanha do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A medida é considerada necessária para evitar um apagão social no ano que vem, já que a proposta de Orçamento enviada em agosto pelo governo Jair Bolsonaro (PL) assegura apenas um valor médio de R$ 405,21 para os beneficiários, além de impor cortes severos nas verbas para a habitação e no Farmácia Popular.

Analistas explicam que, ao abrir mais brechas para ampliar gastos sem uma limitação como a imposta pelo teto de gastos, o governo gera condições para que a inflação ganhe fôlego devido ao aumento de dinheiro público circulando no mercado.

Para controlar essa pressão inflacionária, o Banco Central pode retomar as elevações da taxa de juros do país, hoje em 13,75% ao ano. Juros altos tendem a esfriar o mercado de ações, pois investidores se voltam para os ganhos oferecidos pela renda fixa. Isso reduz a capacidade das empresas financiarem seus projetos, prejudicando a geração de emprego.

Além disso, o descontrole dos gastos públicos pode dificultar a execução do plano financeiro traçado pelo governo. É o chamado risco fiscal. Investir no país fica mais arriscado e investidores levam seus dólares para fora, tornando a moeda americana mais cara por aqui. Esse processo gera inflação e requer juros ainda mais altos.

Em momentos de incertezas sobre os rumos da economia, investidores também avaliam que retorno dos títulos do governo precisa ser mais altos para compensar o risco, o que exerce ainda mais pressão no mercado de juros.

"Os juros sobem com a ideia de que o Brasil pode ter um problema fiscal devido à intenção do governo de aumentar os gastos", comentou Piter Carvalho, economista-chefe da Valor Investimentos. "Já que o país quer gastar mais, o investidor cobra um prêmio maior."

"O mercado segue precificando risco fiscal com forte alta nos juros futuros e penalizando ativos de risco com desvalorização de quase todas as ações do índice Bovespa", comentou Leandro De Checchi , analista da Clear Corretora.

"Ao colocar gastos com benefícios sociais fora do teto, a PEC cria uma imprevisibilidade sobre a política fiscal e, com o fiscal em dúvida, a gente vê imediatamente a curva de juros estressar", disse Nicolas Farto, chefe de renda variável da Renova Invest.

Rumores sobre o nome do futuro ministro da Fazenda também influenciaram os preços dos ativos após a agência Reuters ter noticiado que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad era o favorito de Lula no momento.

Especulava-se no mercado que o nome de Haddad poderia até mesmo ser anunciado nesta quarta-feira, segundo Alexsandro Nishimura, sócio da BRA BS, o que não se confirmou.

O mercado doméstico também teve o seu desempenho prejudicado pela baixa no exterior, onde investidores da Bolsa de Nova York venderam ações para receber os lucros obtidos nos últimos dias. O S&P 500, parâmetro do mercado americano, caiu 0,83%.

Entre os principais motivos para o recuo em Wall Street esteve o balanço trimestral com resultados abaixo do esperado da varejista Target. Financistas entenderam os resultados abaixo do esperado como um sinal de recessão.

"Dados da gigante varejista americana Target também preocuparam investidores, demonstrando um mercado desafiador para o varejo e aumentando a preocupação de uma recessão no país", comentou Antonio Sanches, analista de investimentos da Rico.