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Bolsa brasileira tem pior semana desde crise econômica de 2008

JÚLIA MOURA
**ARQUIVO** SÃO PAULO, SP, 03.07.2019: Movimentação na Bolsa de Valores em São Paulo. (Foto: Cris Faga/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mesmo com a forte recuperação do Ibovespa nesta sexta-feira (13), a Bolsa brasileira registrou a pior semana desde a crise financeira de 2008. Desde segunda (9), o índice se desvalorizou 15,63% e terminou cotado a 82.677 pontos, o menor patamar desde as eleições de 2018, que elegeram Jair Bolsonaro presidente.

A semana, marcada pela aversão a risco frente aos impactos econômicos do coronavírus, também foi uma das mais voláteis da história. Nesta sexta, o Ibovespa chegou a subir 15,4% na abertura e operar perto da estabilidade por volta das 12h30.

O índice, contudo, voltou a ganhou força à tarde e fechou em alta de 13,91%. Na véspera, ele despencou 14,8% depois de dois circuit breakers -paralisação das negociações em quedas acentuadas, na pior queda diária desde 1998, ano marcado pela crise russa.

"As pessoas aproveitaram para comprar coisas barata logo cedo, mas muita gente embolsou ganhos. Quem vai querer terminar o pregão posicionado hoje sem saber o que acontece sábado ou domingo? Melhor dormir tranquilo", afirma Henrique Esteter, analista da Guide. ​

Analistas apontam que a mínima do índice nesta sexta se deve à notícia da Fox News de que Boslonaro teria testado positivo para o coronavírus. A informação foi negada pelo presidente.

"Estamos enfrentando três fatores: a crise econômica, com dados e economia fracos, uma crise política, com conflitos entre o Congresso e equipe econômica atual e agora o coronavírus e a interrupção de atividades. Somamos a isso o clima de aversão global e temos o câmbio estressado", diz Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos.

Na última semana, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), trocaram provocações acerca da responsabilidade sobre medidas para amenizar os efeitos econômicos do coronavírus. Segundo Guedes, no pior dos cenários, a economia brasileira pode crescer apenas 1% em 2020 devido a doença.

Na quarta, o Congresso impôs derrota ao governo Bolsonaro ao derrubar veto do presidente Bolsonaro e ampliar o número de famílias atendidas pelo BPC (Benefício de Prestação Continuada), pago a quem está em situação de extrema pobreza.

A medida aumenta o gasto do governo em R$ 20 bilhões por ano e coloca em xeque a sustentabilidade o teto de gastos, considerado essencial pelo mercado financeiro para deter a trajetória de endividamento do governo.

Nesta sexta, o dólar subiu 1,02%, a R$ 4,8280, novo recorde nominal (sem contar a inflação). Na máxima do dia, a moeda foi a R$ 4,879. O dólar turismo está a R$ 5 na venda. Em casas de câmbio, é vendido acima desse patamar.

Na sessão, o Banco Central (BC) vendeu R$ 2 bilhões em leilão de linha -venda com compromisso de recompra.

Na semana, em que a cotação do dólar comercial superou os R$ 5 pela primeira vez na história, a moeda americana acumula alta de 4%. Essa é a maior valorização semanal desde novembro de 2019, quando Lula saiu da prisão em Curitiba, e Estados Unidos e China estavam em conflito pela guerra comercial entre os países. ​

Nos últimos dias, o dólar e o Ibovespa também acompanharam movimentos globais. Com uma maior confiança na economia americana, o dólar ganhou força ante a maior parte das divisas globais, como o euro e a libra.

Nesta sexta, o presidente americano, Donald Trump, declarou estado de emergência nos EUA, o que libera até US$ 50 bilhões em gastos. Ele também anunciou testes gratuitos para o coronavírus, que vão funcionar como um "drive thru", em que a pessoa não precisa sair do seu carro para que uma amostra seja recolhida.

Mais cedo, a presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, disse que a casa iria aprovar medidas contra a crise do coronavírus, independente das negociações com o governo de Trump. Além do teste gratuito, democratas querem licença médica paga e maiores benefícios para os desempregados.

As medidas deixaram investidores mais confiantes. O rendimento do título do Tesouro americano disparou para 0,989% ao ano, maior patamar desde 4 de março. Dow Jones subiu 9,36%, S&P 500, 9,29% e Nasdaq, 9,35%.

Na Europa, o índice Stoxx 600, que reúne as maiores companhias da região, subiu 1,4%. Londres teve alta de 2,46%, Paris, 1,83% e Frankfurt, 0,77%.

O petróleo também se recuperou. O barril do tipo Brent subiu 4,43%, a US$ 34,69. A matéria-prima foi um catalisador das perdas desta semana depois que a tentativa da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) de reduzir a produção e, assim, causar o aumento do preço do óleo, foi frustrada pela Rússia.

Em resposta, a Arábia Saudita afirmou que aumentaria a oferta do combustível e reduziria o preço, o que fez a cotação desabar a níveis de 2016.

Com o cenário negativo, a Petrobras perdeu R$ 102,6 bilhões em valor de mercado na semana, a maior desvalorização da Bolsa brasileira, segundo dados da Economatica. No ano a queda é de R$ 202,9 bilhões.

A empresa agora está no mesmo patamar de junho de 2018, antes da corrida eleitoral. Nesta sexta, as ações preferenciais (mais negociadas) da companhia tiveram alta de 20%, a R$ 15,12. No dia anterior, haviam desabado 20,5%.

Também na quinta, Estados Unidos e Europa tiveram a maior queda diária desde a Segunda-Feira Negra, em 1987, quando o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, desabou 22,61%. A desvalorização veio depois que Trump proibiu a entrada nos EUA de estrangeiros que tenham passado na Europa nos últimos 14 dias.

A queda, contudo, foi amenizada pela injeção de US$ 1,5 trilhão em liquidez no mercado anunciada pelo Fed, banco central americano.

Um rendimento maior do Tesouro é sinal de menor aversão a risco do mercado. Enquanto investidores estão mais confiantes e compram ações, muitos resgatam investimentos nesses títulos, que são mais seguros. O movimento faz o rendimento destes títulos subir.

Com menor aversão a risco, o mercado voltou a precificar corte na Selic na próxima reunião do Copom. Segundo a curva de contratos de juros futuros, a redução deve ser de 0,25 ponto percentual, o que levaria a Selic para 4% ao ano.

O risco-país brasileiro medido pelo CDS (Credit Defautl Swap) de cinco anos, medida acompanhada pelo mercado financeiro para avaliar a capacidade de um país honrar suas dívidas, caiu 16,5%, a 258 pontos, maior patamar desde outubro de 2018, período marcado pelas eleições presidenciais.

Na véspera, ele saltou 42%, a segunda maior alta diária da história do índice, que surgiu em 2001.

No exterior, o CDS do Chile caiu 6,5% e o da Argentina, 37%, enquanto o da Turquia subiu 8,5%.