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Bolha de ações de Eike beneficia grandes investidores

NICOLA PAMPLONA
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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF: O empresário Eike Batista durante depoimento na CPI do BNDES, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF: O empresário Eike Batista durante depoimento na CPI do BNDES, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Dois acionistas relevantes da empresa de construção naval OSX se aproveitaram da bolha no preço das ações das empresas de Eike Batista em outubro para se desfazer de suas participações. Um deles, o fundo Florença Teórica, já foi gerido pelo presidente do conselho de administração da companhia.

A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) abriu processo administrativo para apurar a valorização atípica dos papéis após questionamentos da Abradin (Associação Brasileira de Investidores), que acusa "prática não equitativa" nas negociações.

A bolha envolveu ações da MMX e da OSX, duas das três empresas que permanecem sob o controle de Eike. Cotadas a menos de R$ 2 no início do mês, as ações da MMX chegaram a bater R$ 36 no dia 13 de outubro e fecharam o último pregão daquele mês a R$ 11,43.

A OSX foi levada junto, passando da casa dos R$ 4,60 no início do mês para um pico de R$ 21 também no dia 13. Na sexta (30), os papéis da companhia fecharam o pregão cotados a R$ 12,10.

Em comunicado enviado à CVM no dia 28 de outubro, a OSX informa que o fundo Florença Teórica vendeu todas as 214 mil ações que tinha da empresa, volume equivalente a uma participação de 6,8%. A valorização das ações da empresa levou o fundo a uma rentabilidade de cerca de 400% em outubro

O Florença Teórica já foi administrado por Rogério Alves de Freitas, que preside o conselho da OSX e até 2017 era sócio da Teórica Investimentos. Em 2017, ele deixou a corretora e passou a trabalhar na 1618 investimentos, até assumir o cargo atual, já em 2020.

Antes, outro sócio relevante da OSX, o investidor Roberto Lombardi de Barros, também movimentou grandes volumes de ações da empresa. No dia 14, quando as cotações estavam no pico, vendeu 114 mil ações. No dia 21, já com preços mais baixos, comprou 264 mil ações, chegando a uma fatia de 8,4% da companhia.

"Há poucas dúvidas de que houve prática não equitativa", diz o presidente da Abradin, Aurélio Valporto. "O presidente do conselho da OSX vendeu absolutamente todas as ações que detinha através do fundo Teórica, é evidente que fez isso porque sabia que elas não valiam aquele preço, ao passo que os compradores, na maioria pequenos investidores recém chegados ao mercado criam que estavam baratas."

Ele ressalta que, embora os indícios apontem nesse sentido, não pode afirmar que houve manipulação de mercado ou uso de informação privilegiada. "No mínimo aproveitaram a oportunidade para vender as ações para os menos informados", afirma.

Procurado, Freitas não respondeu até a publicação desta reportagem. A Folha não conseguiu contato com Lombardi.

A valorização das ações começou depois que a mineradora MMX informou, em fato relevante, que estava buscando na Justiça recuperar o direito de exploração de minas de minério de ferro em Corumbá (MS). A empresa está em recuperação judicial e disse que o negócio poderia garantir o pagamento de sua dívida e sua sobrevivência.

A corrida gerou um efeito manada, com investidores buscando também os papéis da OSX, que disse à CVM não ver razão para a variação atípica nas cotações. A Abradin recebeu diversas reclamações de pequenos investidores que apostaram na alta e se deram mal.

"Tive um prejuízo de R$ 10 mil. Isso não volta nunca mais", lamenta o economista Marcus Vinícius Riciotto, de Goiânia, um dos investidores que contataram Abradin e CVM reclamando perdas. "Agora, eu e mais uma manada de gente vamos sair fora da bolsa. Eu pensei que era uma coisa séria, mas não é".

Ricciotto começou a investir em ações em setembro. Primeiro montou uma carteira mais conservadora, com ações de construtoras e outros negócios ligados ao ramo imobiliário. Após alerta de um amigo sobre o potencial de valorização, decidiu apostar em MMX e OSX. O amigo perdeu R$ 15 mil, diz ele.

"Não sabia que as empresas eram do Eike. Fiquei sabendo depois que a bomba estourou", conta o investidor. "A gente não é leigo. Fomos induzidos ao erro por falta de informação e desigualdade. As oportunidades são para alguns, não são para todos", reclama, criticando a atuação da CVM no caso.

Valporto acusa a CVM e a B3 de omissão no episódio e questiona se foram cumpridas normas que determinam a realização de leilões em casos de grande variação nas cotações. "Esse golpe mina, mais uma vez, a credibilidade do mercado e custará muito mais para a economia do que o prejuízo de todos os investidores", diz.

Afastado da gestão das companhias, Eike já foi condenado tanto pela CVM e quanto pela Justiça por manipulação de mercado. Ele também foi condenado por pagamento de propina ao governo Sérgio Cabral, no Rio e, nesta quarta (4), teve acordo de delação premiada homologado pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

A CVM diz que não comenta casos específicos e que "acompanha e analisa informações e movimentações envolvendo o mercado de valores mobiliários, tomando as medidas cabíveis, sempre que necessário". Questionada sobre as apurações das ações de Eike, apenas confirmou a abertura do processo.