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Boeing ofendeu pilotos que pediram por mais treinamento com o 737 Max

Felipe Demartini

Documentos internos da Boeing mostram que seus representantes insultaram pilotos da Lion Air que solicitaram por treinamento adicional antes de voarem com o 737 Max. A companhia aérea foi uma das envolvidas nos acidentes com a aeronave entre o final de 2018 e o começo do ano passado, que levaram a uma suspensão de todos os voos com os modelos, inclusive por empresas brasileiras.

As ofensas aparecem em documentos internos fornecidos pela própria Boeing à Administração Federal de Aviação, órgão do governo dos EUA que é um dos tantos reguladores envolvidos nas investigações sobre o 737 Max. E entre os papeis, está o pedido da Lion Air por um simulador, para que possam entender melhor as novas tecnologias do modelo. “Provavelmente por causa da própria estupidez deles”, afirma um funcionário da fabricante não identificado, em uma troca interna de e-mails.

Na troca de mensagens, ainda, o mesmo funcionário afirma que o pedido gerou uma situação complicada na empresa, que ele agora tentava resolver, antes de chamar os responsáveis da Lion Air de "idiotas". Outro representante, também não identificado, responde com palavras de baixo calão e afirma que uma das empresas-irmãs da Lion Air já estaria voando com o 737 Max, indicando, mais uma vez, a ideia de que não havia necessidade de treinamento adicional.

A data da comunicação também é desconhecida, mas ocorreu antes do acidente com o voo 610 da Lion Air, que ia de Jacarta para Pangkal Pinang, ambas cidades da Indonésia, e caiu 13 minutos após a decolagem, matando todos os 181 passageiros e oito tripulantes. Entre as causas do acidente aéreo, estaria uma falha de manutenção nos sensores, que forneceu dados errados a um sistema que impede a perda de sustentação, o chamado MCAS.

Os relatórios finais do acidente, entretanto, consideraram a falha humana, especificamente da tripulação, em seguir os procedimentos corretos em caso de emergência. Existiram problemas, por exemplo, no controle manual do avião e na comunicação sobre os problemas à torre de comando, enquanto checagens que deveriam estar memorizadas demoraram para serem realizadas pelos pilotos. Ainda assim, e desde março do ano passado, os novos modelos da fabricante permanecem em solo, em um temor que se somou com a queda de uma segunda aeronave, da Ethiopian Airlines, que também passou por problemas semelhantes e resultou na morte de 157 pessoas, entre passageiros e pessoal de bordo.

Antes dos acidentes e da consequente suspensão dos voos com o modelo, a Boeing divulgava o 737 Max como uma aeronave muito mais avançada que as da concorrência e com motores maiores, e que ainda exigiria treinamento mínimo para ser pilotada. Esse, inclusive, era um dos principais pontos de venda para a fabricante, já que resultaria em grande economia de custos para as companhias aéreas.

Em declaração, o vice-presidente executivo da Boeing, Greg Smith, afirmou que as afirmações feitas no relatório não representam a cuitura da empresa e taxou o tom e a linguagem usados de inapropriados. Já para o diretor do Comitê de Transporte e Infraestrutura do governo dos EUA, Peter DeFazio, os e-mails demonstram tentativas da fabricante de escaparem de questionamentos de seus clientes e do público, mesmo diante de preocupações com a segurança.

Operações do 737 Max foram suspensas em março após dois acidentes e algumas centenas de vítimas; Boeing trabalha em nova certificação e retorno da aeronave ao serviço (Imagem: Divulgação/Boeing)

Para ele, a troca de e-mails demonstra os erros decisórios tomados pela Boeing e que levaram aos acidentes com o 737 Max. Na visão de DeFazio, citando a própria investigação oficial dos EUA, foram encontrados diferentes indícios de que a empresa colocou a redução de custos e os processos de fabricação acima dos procedimentos de segurança, com direito a um “esforço coordenado” para ocultar informações pertinentes dos reguladores e compradores da aeronave. O regulador completa afirmando que enquanto os insultos são fruto da atitude de funcionários isolados, o comportamento era generalizado.

Um possível retorno

Em um evento realizado em dezembro, a Boeing anunciou que treinamentos específicos serão dados aos pilotos do 737 Max, de forma que eles entendam as minúcias do novo software de sustentação da aeronave. Além disso, a fabricante trabalha com uma recertificação do avião e afirma que, em quase duas mil horas de voo em testes, o modelo se provou mais seguro do que as antigas versões.

Além disso, a companhia anunciou mudanças no software, que usará comparações entre dois sensores para ativar o sistema de controle de sustentação e terá novas medidas de redundância e desativação em caso de problemas. A ideia da Boeing, claro, é garantir transparência nas informações e um retorno da aeronave ao serviço com segurança, algo que, entretanto, ainda não tem previsão para acontecer.


Fonte: Canaltech

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