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Boeing desiste de comprar parte da Embraer e empresas trocam acusações

Foto: Getty Images

Aquele que seria o maior negócio aeroespacial da história brasileira foi cancelado. No último sábado (25), a Boeing desistiu de comprar a área de avião civil da Embraer, pondo fim a um acordo que movimentaria R$ 23,5 bilhões e que começou a ser desenhado em 2017.

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O anúncio foi feito na manhã do último sábado pela empresa americana, que afirmou ter rescindido o contrato porque a fabricante brasileira não teria cumprido todas as suas obrigações contratuais para executar a separação da sua linha de aviões regionais. A brasileira, porém, rebateu.

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As empresas tinham até a meia-noite desta sexta-feira (24) para fechar o acordo em termos técnicos. Isso não ocorreu, com duas versões distintas para o caso.

"A Boeing trabalhou diligentemente nos últimos dois anos para concluir a transação com a Embraer. Há vários meses temos mantido negociações produtivas a respeito de condições do contrato que não foram atendidas, mas em última instância, essas negociações não foram bem-sucedidas", disse Marc Allen, presidente da Boeing para a parceria com a Embraer e operações.

Segundo ele, "é uma decepção profunda". Allen não detalhou quais seriam os itens não cumpridos pelos brasileiros.

No começo da tarde do mesmo sábado, a Embraer divulgou nota acusando a Boeing. "A Embraer acredita firmemente que a Boeing rescindiu indevidamente o MTA (Acordo Global da Operação) e fabricou falsas alegações", diz o texto.

O fez, segundo a nota, "como pretexto para tentar evitar seus compromissos de fechar a transação e pagar à Embraer o preço de compra de U$ 4,2 bilhões (R$ 23,5 bilhões na sexta)".

"A empresa acredita que a Boeing adotou um padrão sistemático de atraso e violações repetidas ao MTA, devido à falta de vontade em concluir a transação, sua condição financeira, ao 737 MAX e outros problemas comerciais e de reputação", afirma a Embraer, que disse ter cumprido todas as condições necessárias para o negócio.

Por fim, a fabricante brasileira afirma que irá tomar "todas as medidas cabíveis contra a Boeing pelos danos sofridos como resultado do cancelamento indevido e da violação do MTA".

O próprio CEO da empresa, Francisco Gomes Neto, gravou um vídeo dando essa versão dos fatos. "Vamos buscar compensação", disse, afirmando que "lamenta a decisão", mas que a Embraer já superou crises no passado. "Seguimos firmes e fortes", disse.

As dificuldades financeiras da Boeing devido à conjunção de uma crise interna, com a paralisação da produção do best-seller 737 MAX por problemas técnicos que geraram acidentes fatais; e a queda de demanda mundial pela pandemia do novo coronavírus; são fatores considerados centrais para o desfecho segundo pessoas envolvidas nas negociações.

Já a Embraer está sob impacto da Covid-19, com adiamentos de entregas e revisão de pedidos. Sua ação nos EUA custava R$ 109 em 31 de dezembro passado e, na última sexta-feira (24), fechou a R$ 32,50.

Além disso, a União Europeia também complicava o negócio, sendo que seu órgão regulador era o último que faltava aprovar a tratativa - deixou a decisão para 7 de agosto, no que era visto por brasileiros e americanos meramente como proteção à europeia Airbus.

Militares e sindicalistas comemoram

O cancelamento do acordo não foi considerado catastrófico por todo o governo federal. A cúpula militar, que nunca foi unânime sobre o acordo, avalia que a desistência é uma oportunidade para que o presidente Jair Bolsonaro adote mais cautela na atual política de privatizações.

Para o núcleo fardado do Palácio do Planalto, o setor de tecnologia aeroespacial é estratégico para a proteção do país. Por isso, o compartilhamento de tecnologia poderia fragilizar a defesa aérea.

Os militares ouvidos pela Folha de S.Paulo ponderam, no entanto, que a quebra do acordo em meio a uma crise econômica causada pelo novo coronavírus não é animador.

O cenário, para eles, demonstra que outras empresas brasileiras correm o risco de perder grande valor de mercado ao longo da pandemia. Para alguns militares, o não prosseguimento do acordo fortalece o discurso de parcela do governo sobre a necessidade de uma flexibilização do ajuste fiscal e de um aumento do investimento público enquanto perdurar o alastramento da doença.

Apesar do discurso de parcimônia com o plano de privatizações da ala liberal do governo, os militares não defendem a reestatização da empresa, vendida em 1994.

Neste sábado, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos aproveitou o negócio frustrado para emitir uma nota pedindo a reestatização da Embraer.

Segundo a entidade, a transação foi marcada "pelo desprezo aos interesses nacionais e dos trabalhadores brasileiros". "A Embraer é um patrimônio nacional estratégico para o país e não precisa de aliança com parceiros internacionais para sobreviver."

A história até aqui

O negócio entre Boeing e Embraer começou a ser costurado em 2017, quando a maior rival da fabricante americana, a europeia Boeing, comprou a linha de jatos regionais C-Series, da canadense Bombardier.

A empresa é a maior rival da Embraer, ocupando o segundo posto no mercado regional. Com a absorção da linha, renomeada A220, os europeus passaram a ter uma aeronave num nicho em que não trabalhavam, contando com a enorme capilaridade comercial para vendê-la mundo afora.

Isso alarmou a Boeing e também a Embraer, que passou a contemplar opções para aumentar a sua escala de venda. Os americanos também precisavam urgentemente renovar sua área de engenharia, que vinha apresentando deficiências e lentidão em projetos antes ainda da crise do 737 MAX.

A coincidência de interesses levou ao negócio, que foi fortemente enquadrado pelo governo brasileiro, detentor então de uma ação especial ("golden share") que lhe permitiria vetar qualquer tratativa. A ação era um resquício do processo de privatização da Embraer, em 1994.

Durante um ano, o Ministério da Defesa trabalhou com as duas empresas numa fórmula que contemplasse todos os envolvidos. Inicialmente, a Boeing queria comprar toda a Embraer, inclusive sua área militar e de aviação executiva.

Para evitar perder musculatura na decisão de projetos estratégicos, os militares acabaram favorecendo o desenho final. Nele, a Boeing levaria a área de aviação civil da Embraer formando uma empresa na qual teria 80% do controle, por US$ 4,2 bilhões (R$ 23,5 bilhões).

E a área militar da Embraer ficaria com a empresa nacional remanescente, assim como o setor de jatos executivos. Além disso, uma joint-venture seria formada, com controle de 51% dos brasileiros, para a venda do cargueiro militar C-390.

O acordo teve o beneplácito do Planalto sob Michel Temer (MDB) e foi ratificado por Jair Bolsonaro (sem partido) no começo de 2019.

O ano passado transcorreu tranquilamente, com a intrincada operação para desassociar parte das empresas, um processo chamado de "destrinchamento" internamente, sendo feito aos poucos. A Boeing o considerava praticamente pronto, mas havia questões em aberto.

A dupla crise enfrentada pela Boeing sacramentou as dificuldades. Os acidentes que levaram o modelo 737 MAX à paralisação de produção e à queda do presidente da empresa, após ser o avião com mais encomendas (5.000) da história da Boeing, criaram uma incerteza enorme sobre a capacidade de investimento da empresa.

Com faturamento anual pré-crise na casa dos US$ 100 bilhões (R$ 560 bilhões), a Boeing poderia absorver a área civil sem problemas, de todo modo. Mas a chegada da Covid-19, que interditou o setor aéreo mundial, reduziu sua janela de manobras.

Com Folhapress

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