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Boca de urna indica empate entre social-democratas e conservadores na Alemanha

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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 20.08.2015 - Angela Merkel, que deixará o cargo de chanceler alemã. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 20.08.2015 - Angela Merkel, que deixará o cargo de chanceler alemã. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

HASSLOCH, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Os primeiros resultados de boca de urna da eleição alemã deste domingo (26) confirmam o cenário acirrado que as últimas pesquisas vinham indicando: um empate técnico entre os sociais-democratas (SPD) liderados por Olaf Scholz e os conservadores (CDU) de Armin Laschet --este apoiado pela atual primeira-ministra, Angela Merkel.

O levantamento do instituto ZDF indica a SPD ligeiramente à frente, com 26% dos votos, seguida pela CDU com 24%. Na pesquisa da ARD, o resultado é de 25% para cada partido. Em ambas, os Verdes estão em terceiro lugar (com 14,5% e 15%, respectivamente), seguidos pela FDP.

O cenário não permite prever quem pode se tornar o sucessor de Merkel, mas indica o início de complexas negociações, que começam agora, para a formação de um governo. O novo primeiro-ministro vai chefiar o governo da economia mais poderosa da Europa, cujo PIB em 2020 se aproxima de US$ 4 trilhões (R$ 21 tri, pelo câmbio atual) e representa 28% da zona do euro.

A Alemanha é também a quarta maior economia do mundo, em termos absolutos, ou a quinta pelos cálculos do Banco Mundial que relativizam o poder de compra, para permitir comparações (PPP). É a maior exportadora da Europa e a terceira maior do mundo.

O novo premiê tentará manter a grande influência política que a Alemanha costuma ter, e Angela Merkel tinha, na União Europeia.

Cientistas políticos e especialistas em pesquisas eleitorais apontaram que essa foi a eleição mais imprevisível desde o pós-Segunda Guerra Mundial.

Foi a primeira vez em 75 anos que um premiê no cargo não se lançou à reeleição - Merkel, que deixa o governo aclamada pelos alemães, anunciou em 2018 que não disputaria a quinta eleição neste ano.

Os principais candidatos eram nomes novos no cenário político, e o número de indecisos a dez dias da votação era recorde: 4 em cada 10 eleitores alemães diziam ainda não saber quem receberia seu voto neste domingo (26). Quatro anos atrás, os indecisos eram 35% e, em 2013, 24%.

Foi também a eleição com maior oscilação nas intenções de voto nas semanas finais da campanha. A União (CDU-CSU), de Merkel, começou o ano com 36% dos eleitores, mas despencou para 24% após a escolha de Armin Laschet como seu candidato.

Os conservadores foram superados pelos Verdes nesse momento, em abril, mas tropeços da candidata ambientalista, Annalena Baerbock, reverteram as posições. No final de julho, porém, a União voltou a ser ultrapassada, dessa vez pelo SPD, partido social-democrata do qual faz parte Olaf Scholz.

Num intervalo de cinco meses, os Verdes perderam dez pontos percentuais, murchando de 26% para 16% das intenções de voto.

O combate à crise do clima e questões internas como salário mínimo, habitação e segurança dominaram as campanhas, numa eleição em que Scholz e Laschet disputaram entre si o chapéu de sucessor mais parecido com Angela Merkel.

Scholz chegou a posar para fotos repetindo o gesto de mãos em forma de losango, uma marca da primeira-ministra, enquanto a União o acusava de apropriação indébita da herança da líder conservadora.

Uma característica desta eleição foi que a xenofobia e islamofobia não dominaram a campanha, como aconteceu em 2017. Até mesmo no debate da TV do qual participou a candidata da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD), Alice Weidel, a palavra imigração só foi mencionada uma vez.

O partido xenófobo também adotou uma retórica de campanha mais moderada neste ano, na avaliação do cientista político Michael Hansen, professor da Universidade de Winsconsin.

Sua campanha eleitoral incluiu tópicos sociais, como liberdade, problemas das áreas rurais, energia verde, empregos, Covid-19, aposentadoria, igualdade de gênero e trabalho autônomo, relatou Hansen, em análise para blog da London School of Economics.

O resultado da votação deste domingo não encerra a temporada de dúvidas: os eleitores alemães não elegem diretamente o premiê, mas, sim, deputados. Isso quer dizer que o partido com mais votos não necessariamente indicará o próximo chefe de governo, se não for capaz de obter o apoio da maioria dos eleitos.

Não há nenhuma regra na Constituição sobre como os governos são formados e o presidente não precisa dar a nenhum partido um mandato para tentar construir uma aliança. Cabe às próprias siglas negociar seus acordos, e as diferentes conversas podem ser feitas simultaneamente.

Não há nenhuma lei dizendo que o maior partido fica à frente do governo. Será primeiro-ministro quem tiver a maioria dos votos dos deputados.

Em 1976, por exemplo, a União tinha o primeiro lugar por uma margem confortável, com Helmut Kohl como candidato a premiê, mas foi Helmut Schmidt (SPD) que continuou no cargo ao renovar a coalizão com o FDP.

As negociações neste ano eram vistas como mais difíceis, por causa da perspectiva de que fossem necessários três partidos para obter a maioria, e não apenas dois, o que amplia o leque de combinações possíveis.

Se um candidato a chanceler não obtiver a maioria necessária dentro de três votos, o presidente deve decidir nomear o chanceler de um governo minoritário ou dissolver o Bundestag, desencadeando uma nova eleição.

O sistema alemão favorece o pluralismo de partidos e, com exceção da eleição federal de 1957, em que a União obteve o governo sozinho. Foram sete coalizões e oito chanceleres desde 1949, em combinações nas quais os conservadores se inclinaram tanto à centro-esquerda, com o social-democrata SPD , quanto à direita, com o liberal FDP.

O SPD, único outro partido a liderar um governo alemão, também experimentou coligações com a centro-direita conservadora e com os Verdes, mais próximos da centro-esquerda.

Em seus quatro mandatos, Merkel governou três vezes ao lado dos sociais-democratas, na chamada Grande Coalizão (GroKo), e uma vez com o FDP.

Apesar da indefinição sobre o governo, a maioria dos analistas acredita que, seja quem for o premiê e a coligação, sua posição deve ser semelhante à de Angela Merkel, pragmática e ao centro do espectro político.

O apuro pelo qual o democratas-cristão passaram, porém, mostra que a direita tradicional dominante na Europa pode estar em crise, segundo Tim Bale e Cristóbal Rovira Kaltwasser, autores do recém-lançado "Riding the Populist Wave: Europe's Mainstream Right in Crisis" (em tradução livre, "surfando a onda do populismo: a crise da direita hegemônica europeia).

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