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Biotecnologia, ética, inovação e legalidade

José Otero

Usualmente quando escutamos a palavras tecnologia nossa mente imediatamente nos transporta para um mundo onde as redes de telecomunicações são protagonistas, personagens secundários e até adereços. Poucas vezes nos focamos no impacto que possui o mundo digital em outras áreas da nossa existência. 

É por esse motivo que a conversa recentemente que tive com um bom colega e amigo, Andrew Currie, sobre o impacto da biotecnologia na sociedade serviu como um bom lembrete de que os avanços da Lei de Moore transcendem o mundo centrado no serviço de acesso. Seus princípios também foram importantes em tudo relacionado à hospedagem de dados e aos avanços nas análises que se alimentam desses mesmos dados.

Para facilitar a compreensão de uma história longa e complexa, vamos pensar na Lei de Moore e em como o aumento da capacidade de processamento que, juntamente com a hospedagem de dados mais barata, se traduz, no mundo da biologia em uma redução extraordinária na decodificação do DNA. Por exemplo, em 2001, alcançar a sequência de DNA custou US $ 100 milhões, uma década depois o custo foi reduzido para US $ 10.000 e já em 2019 foi reduzido para cerca de mil dólares.

As implicações dessa redução são extraordinárias se você pensar apenas no número de pessoas que podem contar com os recursos necessários para realizar experimentos de DNA em 2019 versus as poucas que tinham recursos e tecnologia para sequenciá-lo no início do século.

Uma vez explicado de forma simples, os custos de modificar geneticamente qualquer alimento ou buscar curas para várias doenças caíram consideravelmente. Isso resulta em uma série de impactos legais que também foram pouco estudados em profundidade, não receberam a importância necessária da sociedade ou são tão recentes que ainda não há material suficiente reunido para fazer um estudo exaustivo do impacto da biotecnologia.

Especialmente quando as questões discutidas têm a ver com propriedade intelectual e em alguns regulamentos de países, como nos EUA, existem precedentes que podem ser classificados como surpreendentes, porque o fato do DNA ser de uma pessoa, mas que o registra em seu nome é outro não é completamente legal. Uma legalidade que poderia ter repercussões não imaginadas.

Considerando que, graças à decodificação do DNA, é possível colocar atributos de uma espécie em outras espécies. Embora pareça incrível, é algo com o qual devemos estar familiarizados, graças às modificações que muitas empresas fizeram em muitos dos alimentos que consumimos. Essas modificações têm vários objetivos, desde os mais banais, como alterar a forma do produto, para que pareça mais apetitoso para os consumidores, passando pelas mudanças de sabor, para torná-los mais atraentes para o mercado. Tudo isso sem esquecer as mudanças que são feitas nas lavouras para que sejam mais produtivas.

Um dos objetivos da apresentação de Andrew Currie, que estudou nas universidades de Cambridge e Yale, foi destacar como os avanços que estamos vendo no mundo da biotecnologia forçam o questionamento do que poderia ser constituído como uso ético e o papel que os governos poderiam desempenhar na imposição de limites ou parâmetros em questões de propriedade intelectual ou o tipo de mudanças que podem ocorrer graças à manipulação do DNA.

Já não se limita a falar de uma tecnologia como o CRISPR-CAS9, que permite editar um genoma até a bioimpressão, onde, graças à manipulação do DNA, os órgãos humanos podem ser impressos com pouquíssimas chances de serem rejeitados quando implantados em pacientes com DNA semelhante. Isso exigiria apenas impressoras 3D que usem material orgânico. Não é ficção científica porque, apesar de não fazer parte das origens, a tecnologia de bioimpressão já existe e aguarda apenas sua eventual queda nos preços.

Como você pode ver, a apresentação serviu para lembrar aos participantes que não vivemos isolados no mundo, e que tudo o que temos ao redor está interconectado. Cada novidade no campo das tecnologias da informação e comunicação (TIC) tem repercussões diretas e indiretas em outras áreas que não são tão facilmente identificadas, como por exemplo, a biotecnologia.

Agora considere um mundo não muito distante, onde os ecossistemas 5G servem para acelerar a inovação em todos os segmentos verticais da economia. Quais realizações veremos em biotecnologia, mineração ou logística? Talvez verificando H.G. Wells e Isaac Asimov, podemos ter uma ideia melhor do futuro inevitável.

Fonte: Canaltech

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