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Biohackers marginalizados usam tecnologia para criar uma medicina igualitária

Rafael Rodrigues da Silva

Uma conferência biohacker voltada não para o visual, mas para a quebra de paradigmas da saúde. Essa foi a Please Try This at Home (PTTAH), um evento que aconteceu na cidade de Pittsburgh (EUA) em setembro, mas que só chegou ao conhecimento do público não-especializado com uma reportagem publicada pela Vice na última semana.

Ao invés de mostrarem suas últimas modificações corporais envolvendo LEDs e implantes para o armazenamento de arquivos, os biohackers que participaram do evento tinham apenas uma preocupação: tornar obsoletas as burocracias da biomedicina que fazem com que os pacientes muitas vezes sejam tratados como “coisas”.

Composto em sua maioria por Anarcotransumanistas, Xenofeministas e Ciborgues Queer, a Please Try This at Home significou que, durante uma semana, essas pessoas colocaram suas mentes para trabalhar em conjunto para tentar imaginar um sistema de saúde melhor do que o atual, que em diversos momentos existe apenas para ferir os corpos de pessoas que já estão marginalizadas pela sociedade.

Entre as ideias inovadoras apresentadas no evento estiveram a disseminação de uma nova forma para que pessoas trans obtivessem o estrogênio necessário para a transição de seus corpos, de uma forma que esse hormôio fosse sintetizado por outras pessoas trans, permitindo que aqueles que terminaram suas transições pudessem retroalimentar o sistema e ajudar outras pessoas que estão estão passando por este processo. Entendeu?

Abaixo, os participantes e organizadores explicam um pouco sobre o que rola no evento (ative as legendas).

Outra ideia levantada por um dos líderes do evento era um passo a passo explicando como ele conseguiu levar para casa um órgão que foi retirado de seu corpo durante uma cirurgia, dentro daqueles globos de neve. Ainda que num primeiro momento a ideia possa parecer estranha, o simbolismo dela é poderoso: já que muitas vezes essas pessoas marginalizadas pela sociedade não são tratadas como pessoas, mas sim como sacos ambulantes de órgãos descartáveis, a ideia de ter — literalmente — o controle sobre o que é feito com cada pedaço de seu corpo é algo por si só disruptivo.

Colocando o “punk” em Cyberpunk

Apesar de conferências de biohackers não serem algo novo, mesmo essas convenções sobre “quebra de paradigmas” se mostram incapazes de quebrar algumas barreiras sociais, e na maioria das vezes são compostas quase em sua totalidade por gente branca, de classe média e sem nenhum tipo de deficiência, que passam horas discutindo sobre implantes magnéticos em uma sala que não tem sequer um acesso para cadeira de rodas.

O objetivo da PTTAH é justamente fazer algo diferente disso: um evento com ênfase na acessibilidade e na inclusão, para que até mesmo pessoas que nunca foram em nenhum evento de biohacking possam se sentir confortáveis em participar. Outra diferença é que os responsáveis pelos assuntos que serão discutidos não são os organizadores do evento, mas sim os próprios participantes, o que garante uma maior diversidade entre os temas.

O motivo principal para o evento é achar uma alternativa ao sistema de saúde a que essas pessoas estão sujeitas. É uma realidade aceita por todos que o sistema de saúde dos Estados Unidos é extremamente falho (tanto que nas últimas três eleições presidenciais a reforma do sistema de saúde americano foi um dos principais tópicos de campanha), e é ainda mais falho para as pessoas que já são marginalizadas pela sociedade, como negros, transgêneros e pessoas com qualquer tipo de deficiência. É esse sentimento de desconfiança com o status quo da medicina que faz com que muitas vezes as pessoas trans criem comunidades autônomas auto-centradas, pois há um sentimento disseminado de que eles não devem confiar em ninguém que não pertença ao grupo.

E é esse sentimento de desconfiança que também está por trás da criação da PTTAH. Em seu segundo ano de existência, o evento tenta focar em discutir o tipo de mudança que essas pessoas querem ver no mundo, numa tentativa de se criar comunidades auto-centradas que também possam fornecer as necessidades médicas dessas pessoas, além de se discutir a importância de se efetuar discussões sobre o sistema de saúde fora dos meios acadêmicos e dos hospitais.

Mais do que uma “inovação pela inovação” dos eventos tradicionais de biohacking, a inovação buscada aqui é a da necessidade de sobrevivência: afinal, de que adianta discutir sobre implantes magnéticos que transformam o seu braço em uma espécie de HD externo se pessoas estão morrendo porque não possuem dinheiro suficiente para comprar a insulina que é vendida a preços exorbitantes? E, quando pessoas que são marginalizadas podem se sentir a vontade para discutir temas sobre os quais elas normalmente são excluídas da conversa, esse historicamente é o primeiro passo para o surgimento daquele tipo de inovação que revoluciona o mundo.

Fonte: Canaltech

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