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Biden eleito: 6 pontos-chave do plano do democrata para a economia dos EUA

Cecilia Barría - Da BBC News Mundo
·8 minuto de leitura
Joe Biden
"Você não pode lidar com uma crise econômica antes de derrotar a pandemia", disse Biden durante seu primeiro discurso como presidente eleito em Delaware, seu reduto eleitoral

Em meio à pior crise econômica desde a 2ª Guerra Mundial e uma pandemia galopante, o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, propôs durante sua campanha "salvar" a economia do país.

Mas, disse ele durante seu primeiro discurso como presidente eleito em Delaware, seu reduto eleitoral, "você não pode lidar com uma crise econômica antes de derrotar a pandemia".

É por isso que seu programa econômico propõe medidas de aplicação imediata para enfrentar a emergência de saúde e um plano voltado para a geração de empregos e investimentos fiscais na indústria nacional, no desenvolvimento tecnológico e nas energias renováveis.

Mas como pagar por tudo isso? O plano de Biden é lançar mão de uma reforma que aumente os impostos sobre as grandes empresas e pessoas físicas de alta renda, com o objetivo de aumentar a arrecadação.

Mas, por enquanto, não está definido se Biden governará com um Senado de maioria democrata ou republicana, algo que será conhecido após o 2º turno de 5 de janeiro no Estado da Geórgia.

E isso é fundamental porque vai depender do apoio do Senado a profundidade dessas reformas econômicas e se elas poderão avançar rapidamente ou ficarão parcialmente paralisadas.

Filas de desempregados nos EUA
Aprovação de medidas propostas por Biden dependerá de composição do Senado

Em uma economia mergulhada no buraco negro da pandemia — que encerrou o maior ciclo expansionista da história do país — e com desemprego de 6,9%, o cenário futuro é sombrio.

De Wall Street, muitos dos grandes investidores esperam que, se os republicanos finalmente conseguirem controlar o Senado, não haverá grandes mudanças nas questões tributárias ou um aumento acentuado nas regulamentações que afetem as grandes corporações.

Essa batalha política ainda está pendente, mas o que fica claro é que o país vive uma recessão e, embora no terceiro trimestre o Produto Interno Bruto (PIB, soma de riquezas de um país) tenha se recuperado, ainda está 3,5% abaixo do nível pré-crise.

Sob o lema "Buy American" (Compre produtos feitos nos EUA, em tradução livre), Biden busca proteger a indústria nacional para gerar novos empregos.

Mas seus oponentes acreditam que suas medidas produzirão exatamente o efeito oposto.

Joe Biden visita fábrica
Sob seu lema "Buy American", Biden se propõe a proteger indústria nacional para criar novos empregos

"O plano de Biden eliminaria cerca de 5 milhões de empregos na próxima década", escreveu Nikki Haley, ex-embaixadora do governo Donald Trump na ONU.

"Ao aumentar os impostos e os encargos regulatórios para os criadores de empregos, as empresas de todos os tamanhos terão mais dificuldade para se expandir ou se manter no mercado."

Isso, é claro, não é um consenso. Em relatório de 14 de outubro, o Fundo Monetário Internacional defendeu que a taxação dos mais ricos seria justamente o caminho apropriado para os países retomarem seu crescimento após o tombo provocado pela pandemia.

Em um país profundamente polarizado, onde a construção de acordos exigirá um grande esforço negociador e muita vontade política, apresentamos 6 pontos-chave do plano econômico de Joe Bidenpara os EUA:

1 . Um novo pacote de estímulo

Biden se propõe a obter a aprovação de um novo pacote de estímulo fiscal que permita conceder auxílio financeiro a famílias e empresas, além de estender o seguro-desemprego.

Pessoas fazendo filas para alimentos
Biden buscará aprovação do Congresso para novo pacote de estímulo fiscal que permita ajuda financeira a famílias e empresas

Mas o caminho não é fácil.

O atual Congresso não aprova novas medidas de socorro pelos efeitos da pandemia desde março, quando destinou US$ 3 trilhões a um pacote fiscal que incluía a entrega de um cheque de US$ 1,2 mil aos cidadãos e o pagamento de US$ 600 por semana para os desempregados, montante que foi reduzido à metade em agosto.

O problema atual é que a maior parte dessa ajuda acabou e as partes não conseguiram concordar em estender o pacot.

2 . Geração de empregos impulsionando indústria nacional

Um papel central no plano de Biden é a geração de 5 milhões de empregos, promovendo o desenvolvimento da indústria nacional.

Sua proposta é estimular a compra de produtos fabricados nos Estados Unidos. E para isso, promoveu o conceito de "Buy American", que inclui que todas as compras feitas pelo governo e seus contratantes sejam de produtos americanos.

Loja com aviso de fechamento
Um dos objetivos do programa econômico de Biden é geração de 5 milhões de empregos

A ideia faz parte de um plano mais amplo denominado "Rebuild Better", que envolve um investimento fiscal de US$ 400 bilhões na compra de bens e serviços nacionais e um investimento adicional de US$ 300 bilhões em pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Esses recursos seriam destinados principalmente ao desenvolvimento de energias limpas, biotecnologia, telecomunicações e inteligência artificial.

Por se tratar de investimentos gigantescos, alguns economistas duvidam que só possam ser financiados com aumento de impostos e projetam que, para cumprir a meta, o Estado teria de aumentar seu endividamento.

3 . Aumento da previdência e do salário mínimo

Uma meta prioritária de seu programa é aumentar o salário mínimo nacional de US$ 7,25 para US$ 15 por hora até 2026.

"Há pessoas que ganham seis, sete, oito dólares por hora", disse Biden durante o último debate.

Manifestantes protestando por aumento de salário mínimo
Biden propôs aumentar salário mínimo nacional de US$ 7,25 para US$ 15 por hora até 2026

"Eles merecem um mínimo de US$ 15. O que está abaixo desse nível deixa você abaixo do nível de pobreza", acrescentou.

Os opositores da iniciativa argumentam que, com esse aumento salarial, muitas empresas terão de fechar as portas porque não poderão arcar com esse aumento de custos.

Outras medidas visam ampliar os benefícios da Previdência Social para maiores de 78 anos, pessoas de baixa renda e viúvos.

Além disso, propõe um aumento de US$ 200 no cheque que os beneficiários recebem atualmente.

4. Arrocho fiscal

Biden propôs durante sua campanha um aumento de impostos sobre as empresas, voltando aos 28% que existiam antes de o governo Trump baixá-los para 21% em 2017.

Esse corte de impostos de Trump "permitiu o maior corte de impostos para as multinacionais sem nunca exigir que elas investissem nos EUA ou contratassem trabalhadores domésticos", disse Biden.

Seu plano propõe evitar o aumento da carga tributária para quem ganha menos de US$ 400 mil por ano, com a ideia de "proteger a classe média" e os de baixa renda.

Dólares
Biden propõe aumentar impostos corporativos de 21% para 28% e imposto de renda das pessoas mais ricas

Biden também propôs tributar ganhos de capital e um aumento do imposto de renda de 37% para 39,6%, para aqueles que ganham mais de US$ 1 milhão por ano.

Essas medidas fazem parte de uma reforma que visa arrecadar cerca de US$ 4 bilhões.

No entanto, alguns economistas estimam que a proposta de Biden levantaria apenas cerca de US$ 3,4 bilhões em 10 anos, enquanto o custo de seus planos poderia ultrapassar US$ 5 bilhões, estimativa apoiada por estudos publicados por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia e outras instituições.

5. Guerra comercial com a China

Depois que o governo Donald Trump iniciou uma longa disputa comercial com a China que envolveu o aumento das tarifas entre os dois países, Biden não disse até agora que deseja reverter essa relação.

Pelo contrário, o site de sua campanha observa que o democrata "tomará medidas agressivas" para garantir que as medidas estabelecidas contra a China sejam executadas.

Donald Trump e Xi Jinping
Até o momento, Biden não deu detalhes de como será sua relação com a China, depois que Donald Trump iniciou uma guerra comercial com a potência asiática

A ideia é continuar lutando contra o que os EUA consideram concorrência desleal e manipulação cambial, entre outros "abusos" da potência asiática, embora não se conheçam mais detalhes sobre o plano.

E embora em algum momento ele tenha sugerido que eliminaria as tarifas impostas por Trump, fontes em sua campanha indicaram que ele as reavaliará, de acordo com o jornal americano The Washington Post.

Sobre a estratégia, o que ele disse é que vai se coordenar com os países aliados para enfrentar a China, em vez de fazer isso de forma unilateral.

6 . Reduzir o custo da saúde ao consumidor

Biden disse que um de seus objetivos como presidente é garantir que nenhum americano que adquira seguro saúde pague mais de 8,5% de sua renda anual com assistência médica.

Isso poderia representar uma economia de milhares de dólares para as pessoas, mas também poderia aumentar a parcela que os empregadores pagam por esse seguro.

No caso daqueles que não podem pagar seguro saúde privado, ele propôs reduzir a idade de elegibilidade de 60 para 65 para pessoas que entrarem no programa de saúde Medicare, acrescentando que incluirá cobertura de serviços odontológicos, oftalmológicos e auditivos no programa.

Profissional de saúde com maca
Presidente eleito quer garantir que nenhum americano que adquira seguro saúde pague mais de 8,5% de sua renda anual com assistência médica

Biden também quer reduzir o custo dos medicamentos prescritos para os beneficiários do Medicare, por exemplo permitindo que o governo negocie esses preços, algo que atualmente é proibido por lei.

E também propõe a eliminação da regra que estabelece que a maioria dos preços dos medicamentos suba mais rápido do que a inflação.

O plano econômico de Biden baseia-se no uso da política fiscal para estimular o crescimento, proteger a indústria nacional e "reconstruir a classe média" com um aumento de impostos que, em tese, só afetará os mais ricos.

O grande desafio é que a aplicação dessas medidas não dependerá apenas da composição política do Congresso, mas também da evolução da pandemia, fator de incerteza que pesa na reconstrução econômica global e no destino da maior economia do mundo.

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