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Biden confia no apoio de ex-republicanos para se impor em estados-chave

Elodie CUZIN
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Ex-secretário de Estado americano Colin Powell, durante sua intervenção na Convenção Democrata, em 18 de agosto de 2020
Ex-secretário de Estado americano Colin Powell, durante sua intervenção na Convenção Democrata, em 18 de agosto de 2020

Em seu esforço para ganhar os votos dos indecisos, um grupo que pode inclinar a eleição presidencial contra Donald Trump, o democrata Joe Biden não mede esforços para espalhar uma de suas armas mais poderosas: o apoio de muitos de seus ex-adversários republicanos.

Com ações como agendar discursos republicanos incondicionais no horário nobre durante a Convenção Nacional Democrata e dar as boas-vindas ao endosso de centenas de ex-colaboradores de George W. Bush, John McCain e Mitt Romney, o candidato mostra suas credenciais bipartidárias.

Mas será que isso vai funcionar?

Kari Walker, uma moradora de Wisconsin de 50 anos que apoia os candidatos republicanos há duas décadas, planeja votar no democrata em 3 de novembro.

Há duas semanas, Walker disse à AFP que não se via votando em Trump, "um presidente pior do que ela poderia imaginar". Agora, depois de ver a posição de ex-funcionários republicanos de alto escalão do governo, tem certeza de seu voto.

"Achei convincente o apoio dos republicanos incondicionais", disse Walker, que dirige, ao lado do marido, uma taverna na pequena cidade de Reedsburg, localizada em um condado que apoiou Trump em 2016, depois de votar duas vezes no democrata Barack Obama.

Walker é exatamente o tipo de eleitor que a campanha do ex-vice-presidente espera atrair com o apoio do ilustre grupo de republicanos.

Enquanto Biden continua liderando as pesquisas em todo país, o presidente Trump reduziu a brecha em certos estados-chave, aqueles que regularmente "oscilam" entre republicanos e democratas e podem, portanto, decidir as eleições.

O republicano tem cortejado abertamente os democratas, alertando para a "anarquia" que uma Presidência de Biden poderá trazer e que causaria - segundo ele - a "destruição" dos subúrbios, em sua maioria habitados por brancos. 

A Convenção do Partido Republicano apresentou alguns ex-democratas presentes para destacar a aproximação de Trump com esses estados cruciais.

- "Incapacidade para defender os valores americanos" -

Trump tem, no entanto, menos apoio do outro partido do que Biden, que tem trabalhado para persuadir os eleitores decepcionados, até mesmo enojados, com o estilo e a gestão Trump, particularmente em face da pandemia da covid-19.

"Esta não é uma decisão fácil para os republicanos tomarem", escreveram ex-funcionários de McCain, o falecido senador republicano e candidato à Presidência de 2008 que tinha uma relação de desprezo mútuo com Trump.

"Dada a falta de liderança do presidente em exercício, seus esforços para agravar, em vez de eliminar, as divisões entre os americanos e sua incapacidade de defender os valores americanos, acreditamos que a eleição do ex-vice-presidente Biden é claramente do interesse nacional", escreveram eles em uma carta aberta.

Ex-funcionários de W. Bush adotaram uma postura similar.

"A avalanche de insultos e de vulgaridades que testemunhamos nos últimos anos deve parar", disseram eles.

"Perdemos nossa bússola moral", completam. 

Glenn Kessler, um repórter do jornal "The Washington Post", manifestou sua surpresa diante dessas mensagens.

"Conheço pessoalmente várias dessas pessoas e como são profundamente conservadoras em muitas questões", tuitou.

"Nunca imaginei que endossariam publicamente um democrata à Presidência", afirmou.

Vários grupos republicanos anti-Trump, incluindo o Lincoln Project, anunciaram seu apoio a Biden.

- Mais tempo que Alexandria Ocasio-Cortez -

Desde que a convenção democrata começou em 17 de agosto, a campanha de persuasão ganhou uma nova intensidade.

John Kasich, ex-governador republicano do estado-pêndulo de Ohio, falou na primeira noite. No dia seguinte, Colin Powell, ex-secretário de Estado do presidente republicano George W. Bush e defensor da guerra do Iraque, teve seu momento na convenção.

Ambos tiveram muito mais tempo para falar do que um dos mais proeminentes membros progressistas do Congresso, a jovem representante nova-iorquina Alexandria Ocasio-Cortez. A decisão foi considerada ofensiva para muitos membros da mais à esquerda do partido. 

E, na última segunda-feira, dia de abertura da convenção republicana, a equipe de Biden anunciou o apoio de cerca de 20 ex-congressistas republicanos.

Este grupo é "emblemático dos muitos ex-eleitores republicanos concentrados em áreas residenciais ricas, em crescimento e altamente educadas, que deixaram o Partido Republicano na era Trump", disse Kyle Kondik, analista político da Universidade da Virgínia.

Elo advertiu, porém: "Dito isso, não sei se esses endossos de fato realmente removem novos eleitores do lado de Trump".

elc/iba/bbk/st/dga/lda/tt