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Beto Freitas foi pai precoce, filho presente e marido errático

MATHEUS MOREIRA
·4 minuto de leitura

PORTO ALEGRE , RS (FOLHAPRESS) - No sepultamento do corpo de João Alberto Silveira Freitas, 40, o Beto Freitas ou Nego Freitas, assassinado por seguranças em um Carrefour de Porto Alegre, vozes de amigos e familiares entoavam a canção "A Alma Abatida", o Salmo 193 da Harpa Híbrida. A música foi escolhida por seu pai, o pastor João Batista Rodrigues Freitas, 65, e fala sobre como buscar conforto em Deus: "Terás em breve as dores findas/ No dia alegre da Sua vinda/ Se Cristo tarda, espera ainda/ Mais um pouquinho e O verás." Beto era o segundo filho de um casal dedicado à família. Após a morte da mãe, há cerca de três anos, Beto se aproximou ainda mais do pai, aposentado e pastor há cerca de quatro anos. "Eu acordava e ligava para ele todo dia. A gente se falava duas vezes por dia e nos víamos sempre", conta. Nascido em 1980, Beto foi uma criança que gostava de estudar. Quando quebrou o fêmur, aos sete anos, passou seis meses sem poder ir à escola. "Mesmo assim passou de ano, sabia?", disse Batista. O aposentado recebeu a reportagem em sua casa no bairro dos Farrapos, na zona norte de Porto Alegre, trajando uma camiseta preta com os dizeres "Vidas Negras Importam" e um violão para canhotos na mão. "Precisava tocar, isso aqui me distrai", diz ao apontar para o instrumento. O filho do pastor cresceu sob olhos atentos. A mãe, Berenice Silveiras Freitas, não gostava que Beto e sua irmã brincassem sozinhos na rua. "Quando fez 18 anos não dava mais para segurar, né? Ele ia para os bailinhos. Acho que foi assim que conheceu a mãe dos três filhos mais novos", conta Batista. Pai jovem, a primeira filha de Beto, Thaís Freitas, nasceu quando ele tinha entre 17 e 18 anos. Ele e a mãe de Thaís, Rita de Cássia do Amaral, 40, namoravam desde a época do colégio, mas nunca chegaram a oficializar um relacionamento ou morar juntos. Ao tornar-se pai, Beto foi matriculado por Batista em um curso de mecânica de máquinas pesadas e depois em outro curso de mecânica de automóveis, o que permitiu que Beto trabalhasse em oficinas por um tempo. Beto também trabalhou com serviços gerais, com foco em jardinagem, e em uma empresa terceirizada dos Correios. A segunda esposa de Beto, Marilene Santos Manuel, 40, com quem teve três filhos, rendeu-lhe o relacionamento mais duradouro. Foram quase 20 anos juntos. No fim, no entanto, as brigas do casal eram constantes e culminaram em violência doméstica. Beto foi preso duas vezes, enquadrado na Lei Maria da Penha, por agredir a companheira. Passou seis meses preso e, quando saiu, não podia mais se aproximar dela devido a uma medida restritiva. "Foi quando ele foi morar com a Milena", explica Batista. Devido ao casamento, Beto não participou tanto da vida de Thaís. A jovem contou à reportagem que via o pai quando passava um tempo com a avó paterna. "Ele passava na casa da minha avó para me dar um oi quando eu estava lá". A relação entre pai e filha ganhou um pouco mais de proximidade após o nascimento da filha de Thaís, a única neta de Beto. "Ele buscava ela para passar um tempo com ele", diz. A paixão de Beto Freitas era o futebol. Gremista quando novo, ele trocou de time e passou a torcer pelo Esporte Clube São José, time da Série C do Campeonato Brasileiro. Beto passou a fazer parte da torcida organizada do time, Os Farrapos. Foi graças ao pai que Beto descobriu o amor pelo futebol. Ainda criança, jogava bola num pequeno campo de grama que, ao chover, tornava-se um mar de lama. Foi neste campo, na zona norte da cidade, que ele quebrou o fêmur no dia em que estreava o seu tênis Kichute, o único modelo pelo qual o pai podia pagar. As lembranças do filho emocionaram João Batista, que durante a entrevista pegou o violão e interpretou o Salmo 193, o mesmo entoado no cortejo fúnebre horas antes no cemitério São João, onde foi velado com a aliança do casamento que estava marcado para acontecer em dezembro. A morte de Beto chocou o país. Segundo seu pai, não há dúvidas de que se trata de um caso de racismo. Nego Beto morreu a apenas algumas horas do dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, data marcada pela luta por direitos e equidade racial entre negros e brancos. De acordo com o Atlas da Violência, feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2018, 43.890 negros foram assassinados no Brasil, o equivalente a 120 pessoas por dia ou 5 por hora. Na prática, a cada 12 minutos uma pessoa negra foi assassinada naquele ano.