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'Berlim' ilustra a ascensão do obscurantismo para se tornar quadrinho clássico

MATHEUS LOPES QUIRINO
·5 minuto de leitura

(FOLHAPRESS) - Quando todos os caminhos levam a Berlim, em algum momento, mesmo que imperceptível, as personagens de Jason Lutes vão se encontrar. Um olhar furtivo, arisco, ou um simples aceno num cruzamento para nunca mais se ver. E o leitor acompanha, pelas ruas, vielas, casarões, cortiços, pela burocracia do Parlamento, cabarés, Redação de jornal. Um susto ou riso abafado, numa cafeteria do centro intelectual, que num instante estará no olho do furacão, enquanto gangues nazistas e grupos comunistas duelam por seus ideais, a República de Weimar é sacudida. "Berlim" é um trabalho monumental. Realizado ao longo de 24 anos pelo cartunista Jason Lutes, o livro é uma unanimidade aclamada pela crítica por seu trabalho de pesquisa, ao mesmo tempo em que o lirismo contorna as personagens dos três livros reunidos no volume da edição brasileira, até então inédita em português. Em meados de 1920 a estudante Marthe Müller, pequena burguesa vinda de Colônia, pretende estudar belas artes em Berlim. Seu primeiro contato com a alma da cidade é ainda no vagão do expresso. Um encontro marcado pelo destino, se ele existir, com o jornalista Kurt Severing, do Die Weltbühne, que muito tem a ver com a clássica passagem de "Os Destinos do Sr. Norris", de Christopher Isherwood, ocorrida também num vagão, lembrada no filme biográfico do escritor que retratou a República de Weimar, "Christopher and His Kind", lançado há dez anos pela BBC. Daquela primeira conversa, Kurt e Marthe vão ter idas e vindas. Eles se apaixonam, ela se rebela contra as belas artes e toda a pomposidade do círculo que cerca a elite intelectual dos jovens libertários de Berlim. Fica por conta, desenhando, resolve pôr a mão na massa, mas falha. Ela flana e vai para cama com Kurt, estabelecendo uma relação de confiança e aprendizado. Marthe, na medida em que desbrava Berlim, se incorpora ao espírito das vanguardas da cidade, louvando a vida mundana e o hedonismo sem, entretanto, escolher alguma escola estética. Ela abomina a teoria, tanto na pintura, quanto na vida. Para a jovem que cresceu às margens do Reno, numa família abastada, o submundo de Berlim é um baque instantâneo. Levada pelos amigos do liceu em que estudava, ela se impressiona com as mulheres nos cabarés, fica deslumbrada, segue o caminho dos jovens. Com o primeiro volume da série publicado há exatos 20 anos nos Estados Unidos, "Berlim" finalmente ganhou edição brasileira pela editora Veneta, com projeto gráfico da Casa Rex e tradução de Alexandre Boide. Conforme o livro engrena, o extremismo e os vermes do fascismo eclodem pelas ruas e praças da cidade, em comícios antissemitas, com simpatizantes do partido nazista se chocando com os comunistas. Kurt Severing, repórter especial do Die Weltbühne, é constantemente cobrado a assumir uma posição. Intelectual, por vezes solitário, ele analisa a conjuntura política com pessimismo, desde a debandada do rei Luís 3º da Baviera, em 1918, à burocracia do Parlamento que, em 1928, começou a mitigar liberdades de expressão, sendo o editor do jornal, por exemplo, processado e preso por divulgar um escândalo do Estado que desrespeitara o Tratado de Versalhes. A imprensa está no centro de "Berlim", com Kurt processando o ruído das passeatas, os germes do fascismo que passou a perseguir cidadãos comuns a intelectuais, e o debate teórico dentro das Redações. Perde as esperanças, principalmente quando Marthe sai de cena para namorar Anna, uma personagem cross-dresser, com quem viverá aventuras. Enquanto os protagonistas enfrentam suas cruzadas pessoais, personagens secundários têm voz ativa e dão substância a um panorama completo de várias realidades sociais. Um deles é o pequeno David, judeu filho de um rude ortodoxo, que passa a vender jornais ligados ao Partido Comunista para ganhar uns trocados. Um menino doce e inteligente, David é fã do mágico húngaro Harry Houdini, escapista que ganhou fama mundial ao desafiar a polícia da Europa em seus shows. Assim como o ilusionista, que destrancava cadeados complicadíssimos, o menino também tem esse dom --uma proeza útil para as circunstâncias. Quando ele é apanhado pelo pai, se aproxima de Sílvia, órfã trazida por um mendigo à família de judeus, que tem raiva do mundo desde que sua mãe foi morta em uma passeata pela liberdade da classe trabalhadora. A pulsão libertária alavanca a novela gráfica. Sem estar na linha de frente, o jornalista observa o cerco apertar cada vez que presencia as tropas da Sturmabteilung nazistas marcharem pela praça Potsdamer, livres e desimpedidos. Das manifestações violentas, com provocações espúrias que envolviam antissemitismo e ódio, o grupo dos camisas pardas batia, mas também levava dos bolcheviques, que, em Berlim, perdem uma especial integrante. Essa revolta pulsante nas ruas é o estopim para o processo arrastado da queda da República de Weimar. Políticos depostos, opositores mortos, a polícia secreta da SS invadindo lares à luz do dia são alguns dos fragmentos que Lutes escolheu para dimensionar a catástrofe que estava por vir. Ao retratar os sintomas de um regime despótico e perigoso, Lutes, ao ser publicado no Brasil de Jair Bolsonaro, abre uma caixa de Pandora na cabeça do leitor. Ao destrinchar a manipulação em massa de Adolf Hitler, Lutes, se espraia pela crônica cotidiana, pelas pequenas histórias costuradas em cima de um pano de fundo tempestuoso. Jogando luz sobre os protagonistas (um jornalista, uma estudante de desenho, um transexual, uma menina abandonada e um mendigo), ele crava uma narrativa com certo ineditismo para o século passado, quando foi construída. A cidade vira palco de guerra civil e os jornais e revistas lançam manifestos nas prorrogações da tomada de poder de Hitler. Culpado por ficar "em cima do muro", Kurt, envolto em suas próprias trevas, não sai da cama. Seu emaranhado de complicações pessoais é uma narrativa à parte, mesmo ele estando mais consciente do que nunca. Seus pares, nem tanto. Enquanto isso, na high society, Margarethe, ex de Kurt, é a materialização da dama libertina que vai apoiar o Führer, o regime, o partido, embora se embale nos rumos da noite berlinense, levando, inclusive, Marthe a uma festa secreta. A hipocrisia da sociedade alemã que apoiava Hitler à luz do dia, à noite frequentando cabarés, é uma das críticas do quadrinista à patrulha de costumes do regime. Lutes tem ótimo repertório, que, inclusive, ganha um índice remissivo. De Brecht a Isherwood, na literatura, sem esquecer do antológico "Berlin Alexanderplatz", do cineasta Rainer Werner Fassbinder. Requintes como a topografia da cidade, reprodução facsimilar do diário AJZ complementam a verossimilhança de um relato que poderia ser fantástico, mas é um desdobramento da história contemporânea. * BERLIM Preço: R$ 140 (592 págs.) Autor: Jason Lutes Editora: Veneta Tradução: Alexandre Boide