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Berço da cultura negra carioca, Pedra do Sal tem mural revitalizado por artistas

Julio Cesar Lyra*
·7 minuto de leitura

RIO — Frequentadores das tradicionais rodas de samba semanais da Pedra do Sal — suspensas devido à pandemia de Covid-19 — encontrarão o local de cara nova. Um dos muros do espaço foi revitalizado por um mural com cinco pinturas de artistas da cidade. Rostos antigos e marcantes da cultura nacional agora estampam o grande paredão acima da escadaria que leva ao Morro da Conceição.

Simbólicos para a resistência cultural representada pelo local, tombado em 1984, Pixinguinha, Tia Ciata, Heitor dos Prazeres e João da Baiana estão posicionados lado a lado, e foram retratados, respectivamente, pelos artistas Wagner Trancoso, Ipojucã de Jesus, Pedro Rodrigo Barbosa e Daniel Farias. O mural também conta com uma pintura do artista plástico Jaime dos Santos, que exibe diversas práticas culturais afro-brasileiras.

A iniciativa foi de Trancoso. O artista convidou os quatro colegas para se unirem a ele no projeto, que utilizou recursos próprios para ser realizado. Trancoso foi instigado quando soube, por um amigo, que a região estava repleta de pichações.

— Faço reuniões com ex-pichadores, para resgatá-los através da arte. Um deles é barraqueiro na Pedra do Sal, e comentou que a região estava devastada de pichações. Ele perguntou se eu não teria vontade de fazer uma pintura lá. Aceitei, com certeza, ainda mais sendo um lugar tão histórico. Esse projeto já estava na minha cabeça há muito tempo — contou Trancoso.

O trabalho de pintura teve início no mês de março. A conclusão veio na primeira semana de abril. Os quatro metros de altura do muro foram preenchidos após pesquisa realizada na região. Segundo Trancoso, os artistas se basearam em relatos e histórias sobre a importância das quatro figuras, especialmente para o samba.

Para o arte-educador Pedro Rodrigo Barbosa — ou Tingo, como é conhecido desde os anos 1980 —, que pintou Heitor dos Prazeres, o trabalho foi, acima de tudo, muito prazeroso. Formado em História, Pedro já admirava a obra de seu homenageado antes do projeto, o que deixou o artista ainda mais maravilhado com o convite.

— Gostamos de fazer e achamos que o local merece essa revitalização que conta um pouco da História. Quem não os conhecia vai passar a conhecer. Além de ser um ponto turístico, muitas pessoas vão lá para curtir. O saldo foi positivo para o grupo e para os moradores que nos ajudaram. Só agradecer — comentou.

No futuro, Pedro deseja que o grupo se expanda e produza novas obras. O educador acredita que “as cores e a arte”, assim como a música e o esporte, têm ação transformadora. Para ele, o sentimento que fica é de gratidão.

Mais que o valor cultural da obra, o projeto também desenvolveu uma relação fraterna entre os artistas. Ídolo de Pedro durante a juventude, Ipojucã de Jesus se tornou um amigo e foi responsável por retratar a única mulher homenageada. Ipo — como é conhecido —, contou que descendentes de Tia Ciata visitaram o projeto, aprovaram e se emocionaram. Para ele, a oportunidade é uma contribuição muito significativa para a cultura carioca e nacional.

— Quando pesquisei a Pedra do Sal, a primeira imagem que veio foi da Tia Ciata. Era uma foto histórica e a figura dela é muito emblemática. É uma rainha. Propus que fosse colocada no meio, pois ela apoiou muita gente. É a mãe do samba carioca. Uma figura riquíssima — contou Ipo.

Todo o projeto foi imaginado para que as identidades visuais de cada um dos criadores fossem exploradas. O preenchimento de figuras com ‘casinhas’, de Trancoso, e a técnica do estêncil, de Ipojucã, são exemplos da diversidade artística.

Envolvido com a arte há mais de 30 anos, Ipo fez parte da geração de artistas dos anos 1980. Segundo ele, “os primórdios do streetart no Rio”. Atualmente, trabalha com cenografia e pretende levar a imagem de Tia Ciata para outros espaços da cidade.

— A ideia do artista é deixar como um legado para as gerações, dar de presente o que ele tem de melhor para que as pessoas possam olhar e se inspirar. Muita gente não conhecia a figura de Tia Ciata. O estêncil pode ser guardado para usar em outros lugares, então, com o tempo, vou colocar Tia Ciata em outros ambientes — explicou.

O único painel em que não é retratada uma personalidade histórica tem autoria de Jaime dos Santos, o Jaime Arteiro. A intenção foi justamente quebrar o padrão da sequência de rostos e apresentar um misto cultural afro-brasileiro.

O artista plástico, que já conhecia a Pedra do Sal, contou que o projeto exigiu um mergulho na história do local. Morador da Baixada Fluminense, Jaime levou capoeira, atabaque, búzios e outros símbolos para o muro.

— Resolvi entrar nos elementos de descendência africana e criar um caldeirão que fosse, também, algo harmonioso com o resto do painel — contou Jaime Arteiro.

Cara nova, rostos antigos

A Pedra do Sal recebeu este nome devido à descarga da exportação de sal naquela região. Além disso, foi ponto de venda de negros escravizados, um dos fatores que a tornou um espaço de movimentação majoritariamente preta no decorrer da História.

Localizada no bairro da Saúde, em um território conhecido como Pequena África, a área é composta por uma composição de luta e resistência na preservação e manutenção de práticas da diáspora africana no Brasil.

Inserida em um contexto histórico escravista de criminalização das manifestações culturais-espirituais afro-brasileiras, como o candomblé, o samba e a capoeira — que têm raízes significativas na localidade —, a Pedra do Sal foi marcada pela presença notável de diversos personagens ativos nesse movimento. Quatro deles, agora, retratados nos murais.

Saiba quem foram Pixinguinha, Tia Ciata, Heitor dos Prazeres e João da Baiana:

Pixinguinha

Nascido em 23 de abril 1897, Alfredo da Rocha Viana Filho — o Pixinguinha — foi maestro, compositor e instrumentista consagrado no cenário musical brasileiro do século XX. Grande responsável pela popularização do choro, nasceu no bairro Piedade, e sua história também é atravessada pela região da Pedra do Sal, onde, segundo relatos, se reunia com figuras como Donga e João da Baiana — também retratado na arte do muro. Morreu em pleno carnaval de 1973, aos 75 anos.

Tia Ciata

Baiana do recôncavo, Hilária Batista de Almeida nasceu em 13 de janeiro de 1854. Veio para o Rio de Janeiro aos 22 anos, e aqui construiu sua família. Morou na região da Pedra do Sal e em outros locais da região central, como a Praça Onze. A quituteira ficou conhecida por abrigar e integrar o samba em tempos de perseguição policial. Foi iniciada para o orixá Oxum, no candomblé de Nação Ketu, tornando-se ilustre mãe de santo no Centro do Rio.

Heitor dos Prazeres

Heitor dos Prazeres foi um pintor e compositor nascido em setembro de 1898, no Rio de Janeiro. Frequentador das rodas de samba da Tia Ciata, o músico teve participação na fundação de diversas escolas de samba da cidade. Rodas de samba e favelas estavam presentes nas pinturas de Heitor, que retratava muito de sua realidade. O artista chegou a receber prêmios e homenagens pelas suas produções.

João da Baiana

Carioca nascido em 1887, João Machado Guedes foi compositor, pandeirista e pintor. Era filho de Tia Priciliana, que, assim como Tia Ciata e outras tantas “tias”, exercia representação simbólica na tradição cultural negra. João da Baiana abordou, em suas composições, muito sobre a espiritualidade afro-brasileira. Além disso, gravou com Pixinguinha e Clementina de Jesus. A base da Pedra do Sal recebe, atualmente, seu nome: Largo João da Baiana.

O espaço e a pandemia

Diversos registros de aglomeração foram identificados na Pedra do Sal, desde março de 2020, quando teve início a série de medidas restritivas de segurança para evitar o alastramento do vírus.

Em perfis nas redes sociais, o grupo da Roda de Samba da Pedra do Sal expressou que os eventos estão suspensos, e afirmou que os registros de aglomeração no local não tinham envolvimento com a roda de samba.

A Secretaria de Ordem Pública do município realizou operação para fiscalizar e evitar que não houvesse mais ocorrência de aglomeração no local, que já chegou a reunir mais de 300 pessoas durante a pandemia.

* Estagiário sob supervisão de Leila Youssef