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Benito de Paula tem lançamento de inéditas no streaming e dois álbuns a caminho com vários artistas em torno de sua obra

·5 min de leitura

Benito Di Paula tinha motivos para chegar aos 80 anos — que completa hoje — descompromissado com presente e futuro. Já criou no passado enormes sucessos, como “Retalhos de cetim”, “Do jeito que a vida quer” e “Charlie Brown”. Em 2019, perdeu um filho, dor que se emendou com a reclusão forçada pela pandemia. Apesar de tudo, está em fase de renovação — quase à revelia de si próprio, é verdade.

Foi outro filho seu, o músico Rodrigo Vellozo, que conseguiu sacudir a vida do pai. Concebeu o álbum “O infalível zen”, assinado por ambos e que chega hoje às plataformas. São 12 músicas compostas por Benito, todas inéditas, quase todas recentes. Há parcerias com Romulo Fróes (codiretor artístico do álbum), Rodrigo Campos e Clima. Entre os arranjadores e instrumentistas estão Campos, Marcelo Cabral e Thiago França. Ou seja, é a turma de São Paulo que esteve, nos últimos anos, por trás de CDs marcantes de Elza Soares e Jards Macalé.

— Eu nem sei como o Rodrigo me convenceu. Chega um determinado momento da vida que você já fez o que tinha de fazer. Vou completar 80 anos, 50 de carreira. Não queria compor, fazer show — diz Benito, que, entretanto, festejará a data no palco do Vivo Rio, numa apresentação de dois pianos ao lado do filho.

Força da natureza

Rodrigo reconhece que, sobretudo a partir dos anos 1990, o pai enveredou por um caminho muito comercial. Passou a ser visto como alguém folclórico, com seu cabelo comprido pintado e suas roupas de cigano. Mas o filho considera seus discos da década de 1970 inovadores, nas composições e nas instrumentações.

— O sucesso foi tão grande que a persona ficou à frente do gênio criativo. A música sai com muita facilidade, é uma força da natureza — diz Rodrigo, de 39 anos.

Perguntado se é genial, Benito rechaça:

— Claro que não! Faço um trabalho simples, para o povo, sem preocupação de elaboração. Sou popular. Eu, Luiz Gonzaga, Ataulfo Alves, Zeca Pagodinho, Xande de Pilares. Já Chico Buarque e Caetano Veloso, dos quais eu sou fã, são a elite.

“O infalível zen” não foi pensado para o grande público. Os arranjos não são previsíveis, as letras trazem a morte como um dos temas principais, e Benito canta por vezes com voz soturna.

— A voz de 80 anos é uma das coisas mais bonitas do disco — afirma Romulo Fróes. — Eu, cavaquinhista [fã de Nelson Cavaquinho], acho linda essa voz cheia de arestas.

Durante a pandemia, Romulo e Rodrigo fizeram parcerias que resultaram no álbum “O mestre-sala da minha saudade”. Foi realizado pelo filho de Benito para enfrentar a dor da perda súbita de seu irmão, André, aos 36 anos. Parte das músicas que estão em “O infalível zen” tem esse travo.

Na entrevista, o único momento em que Benito guardou seu humor foi ao falar de André. E se resumiu a uma frase:

— Era uma pessoa muito importante. É uma pessoa muito importante.

O artista guerreou bastante na vida. Nascido em Nova Friburgo, mudou-se para o Rio e morou num barraco no Morro da Formiga. Depois, foi para Santos e São Paulo, a fim de ajudar sua mãe e os 14 irmãos. Ensinou violão para iniciantes, mas descobriu numa boate de Santos que o piano se imporia ao barulho da casa. Fez algo aparentemente impossível: transpôs para o piano os acordes do violão, embora a posição das mãos seja inversa.

— Eu olhava para as mãos do meu pai e me perguntava: como ele consegue fazer isso? Hoje, consigo imitar um pouco — conta Rodrigo, pianista formado pelo Conservatório Brasileiro de Música e que estudou na famosa faculdade de música de Berkeley, nos Estados Unidos.

— Vinicius de Moraes dizia que adorava minha batucada no piano — lembra Benito.

Batizado Uday Vellozo (irmão de Jorciney, Urneicy, Jorcelipe, Joaracy, Joacira...), virou Benito Di Paula porque um nome à italiana faria mais sucesso. Sua popularidade lhe rendeu problemas. Um deles foi ser tratado como parte de certo “samba joia”, classificação pejorativa que a imprensa deu a artistas como Luiz Ayrão e Agepê.

— Nos meus discos tem timbale, tumbadora. Aí vem surdo, cavaquinho. Uma mistura danada. Não sou sambista, sou sambeiro — diverte-se.

— Ele sempre caminhou sozinho, foi um lobo solitário. Por causa do sucesso, foi alvo de preconceito — diz o filho.

Outro problema foi ser tachado de alienado ou conivente com a ditadura. Apesar do que escreveu em “Proteção às borboletas” (“Tudo o que eu penso é liberdade/ Não quero ser maltratado nem exportado desse meu chão”), ficou marcado por “Tudo está no seu lugar”. O título foi entendido como elogio ao regime. Ele diz detestar política e políticos.

— Eu precisava trabalhar para comprar uma casa para a minha mãe. Se eu fosse me preocupar com outra coisa, não conseguia. Comprei duas casas para ela e pensei: “agora tudo está no seu lugar”. Os babacas achavam que era o país. Por que não me perguntaram?

De João Bosco a Criolo

Rodrigo está produzindo para o próximo ano um álbum em que artistas reinterpretam composições do pai. Entre outros, estão confirmados João Bosco, Roberta Sá, Criolo e Teresa Cristina. Ela vai cantar “Proteção às borboletas”.

— É uma canção que amo — diz Teresa. — Benito é recordação da infância, é encontro de família. Sempre que ouvia, eu estava feliz. É uma pessoa que admiro muito.

Zeca Baleiro gravará um álbum apenas com o repertório de Benito. Escolherá 14 músicas das 35 que já separou.

— Ele é um baita cantor, rei do suingue. E suas letras têm aquele tom de filosofia popular, sempre fluentes, deliciosas. Algumas abordagens poéticas são o máximo em termos de originalidade, como “Pare, olhe e viva”, em que ele reflete sobre a vida e a morte após ver um caminhão tombado na estrada.

Em live que realizou em março passado, Xande de Pilares ouviu de Caetano Veloso ser responsável pela recuperação da obra de Benito.

— Não tenho essa pretensão, mas, se tive um papel nisso, fico muito feliz. Vou continuar regravando coisas dele. Sei quase todo o repertório. Abraço a causa — diz o sambista carioca.

‘Rouba a cena’, diz Xande

Ele recorda que a gravadora não queria que Benito participasse do DVD “360°” (2012), do grupo Revelação, do qual Xande fazia parte. Ele insistiu e, como diz, o ídolo “roubou a cena”. No YouTube, a participação tem 34 milhões de visualizações.

Para Romulo, Benito tem “mágica que não é dada a qualquer um: ser extremamente comunicativo e inventivo”.

E destaca uma faixa de “O infalível zen”, que é “Meu retrato”, cuja letra diz: “Hoje sou feliz no meu presente/ O passado francamente/ Só me ensinou a viver”.

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