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BC revisa previsão do PIB em 2020 de zero para queda de 6,4%

Anaïs Fernandes

A alteração da projeção está associada, sobretudo, ao avanço e à duração da pandemia no país, com a consequente adoção, a partir da segunda quinzena de março, de medidas de isolamento social O Banco Central (BC) revisou sua projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de estabilidade para queda de 6,4% neste ano, de acordo com Relatório de Inflação divulgado nesta quinta-feira.

Segundo o BC, a alteração da projeção está associada, sobretudo, ao avanço e à duração da pandemia no país, com a consequente adoção, a partir da segunda quinzena de março, de medidas de isolamento social. A magnitude desses dois fatores tem superado significativamente o que se esperava desde o último relatório, afirmou a autoridade monetária.

A estimativa anual considera que o recuo no segundo trimestre será o maior observado desde 1996, início do atual Sistema de Contas Nacionais Trimestrais. "Espera-se que tal contração seja seguida de recuperação gradual nos dois últimos trimestres do ano, repercutindo diminuição paulatina e heterogênea do distanciamento social e de seus efeitos econômicos", diz o relatório.

No lado da oferta, o crescimento esperado para a agropecuária foi reduzido de 2,9% para 1,2%, refletindo menores expansões nos levantamentos para a safra de grãos e, principalmente, na estimativa para o desempenho da pecuária, conforme as demandas interna e externa por proteínas são impactadas pela pandemia.

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A previsão para o setor industrial foi alterada de queda de 0,5% para baixa de 8,5%. A projeção para o desempenho da indústria de transformação passou de recuo de 1,3% para decréscimo de 12,8%, "motivada pela maior retração na demanda final, principalmente por bens de consumo duráveis e de capital, além da redução na oferta resultante das medidas de distanciamento social", disse o BC. A variação estimada para a indústria extrativa recuou de 2,4% para estabilidade, ante expectativa de menor demanda por minério de ferro e petróleo, em cenário de maior desaceleração mundial.

A construção, por sua vez, deve apresentar retração de 6,7%, ante recuo de 0,5% projetado em março, "repercutindo comportamento de maior cautela das famílias e dos empresários do setor, além de diminuição no ritmo de algumas obras pela necessidade de adoção de protocolos especiais para prevenir contágio pelo novo coronavírus".

Para o setor de serviços, a queda estimada é de 5,3% em 2020, sendo que no relatório de março a projeção era de estabilidade. O BC destaca as revisões em setores mais afetados por medidas de restrição de mobilidade: o comércio, de recuo de 0,7% para declínio de 10,8%; transporte, armazenagem e correio, de baixa de 1,2% para decréscimo de 13,4%; e outros serviços (que engloba atividades como alojamento, alimentação fora de casa e atividades artísticas), de baixa de 1,1% para recuo de 9,4%. "Segmentos como administração pública e aluguéis, com significativa representação no setor terciário, tendem a ser menos impactados", afirma.

Com relação aos componentes domésticos da demanda agregada, a autoridade monetária diz esperar "contração expressiva do consumo das famílias, apesar da magnitude das medidas governamentais de transferência de renda". Em relação ao último relatório, a projeção foi revista de crescimento de 0,8% para queda de 7,4% em virtude dos impactos maiores da pandemia sobre o comportamento dos consumidores e a evolução da massa de rendimentos do trabalho, bem como dos efeitos decorrentes das medidas de distanciamento social e de restrições à mobilidade, diz o relatório.

A perspectiva de efeitos mais pronunciados da pandemia sobre a atividade e incertezas elevadas em relação ao processo de retomada devem ocasionar postergação de decisões de investimentos, segundo o relatório. Por isso, a previsão para o desempenho da formação bruta de capital fixo (FBCF) piorou, de recuo de 1,1% para baixa de 13,8%.

A projeção para o consumo do governo permaneceu inalterada (0,2%) - o BC nota que aumentos de transferências de renda governamentais não constituem, no âmbito das contas nacionais, consumo do governo. "Apesar da estimativa de significativa perda de receitas, o governo deve preservar gastos essenciais em momento de crise."

No âmbito comércio com o mundo, as exportações e as importações devem ceder neste ano 8,1% e 11,1%, respectivamente, ante projeções anteriores de avanço de 0,9% e 0,6%, nesta ordem. "A redução na projeção para exportações resulta da expectativa de menor demanda externa, especialmente por bens manufaturados, em virtude de reavaliação da atividade econômica global. Já a diminuição na estimativa para as importações reflete a redução nas projeções de crescimento da atividade doméstica, em especial da indústria de transformação e da FBCF, com o consequente decréscimo nas aquisições de insumos e de máquinas e equipamentos, bem como a perspectiva de redução do consumo das famílias", disse o BC.

Investimentos

A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), medida do que o país investe em máquinas, equipamentos, construção civil e inovação, parece ter começado uma recuperação no fim de maio e no começo de junho. A afirmação consta do RTI.

"Indicadores de mais alta frequência sinalizam trajetória de recuperação da FBCF em maio e início de junho, especialmente na construção", disse o Banco Central. "O consumo de energia no mercado livre aponta recuperação da indústria de cimento ao longo desses dois meses e certa acomodação na indústria de máquinas e equipamentos em meados de maio, após recuperação em relação ao vale de abril." Já as vendas no varejo de materiais de construção "corroboram a recuperação do setor".

O varejo em geral, por sua vez, parece ter começado a se recuperar em maio, ainda que siga em níveis muito baixos. "Indicadores coincidentes, que recuaram acentuadamente em março e abril, sugerem início de recuperação em maio, embora continuem em patamares muito deprimidos", disse o BC, destacando que a pandemia "trouxe impactos distintos entre os segmentos do comércio".

Cenário externo

O cenário externo "continua complexo e apresenta nível extraordinário de incerteza, tanto para as economias avançadas quanto para as emergentes", avalia o BC. "Sinais iniciais de recuperação da atividade econômica são incipientes e diferentes entre países e entre regiões de um mesmo país durante a fase de reabertura", apontou.

Para a autoridade monetária, uma recuperação sustentada depende de fatores com "incertezas significativas". São eles: controle da pandemia durante o processo de reabertura; efetividade das medidas de suporte para garantir solvência de firmas e consumidores; capacidade de readaptação das atividades para atender às novas diretrizes sanitárias vigentes, recuperar a produtividade, replanejar fatores de produção e operar com excesso de incerteza sobre condições de demanda; perspectivas para o desenvolvimento e aplicação de vacina em larga escala e evolução da medicina nas opções de tratamento da doença; persistência do comportamento precaucional de consumidores; levantamento das restrições globais para o fluxo de pessoas e reestabelecimento das cadeias globais de produção.

"O processo de normalização ainda está encoberto por incertezas e sujeito a descontinuidades na recuperação econômica, uma vez que ainda existem riscos de outras ondas de contaminação", disse. Segundo o BC, as incertezas sobre uma segunda onda da pandemia e "possíveis efeitos persistentes sobre o produto potencial das economias" são ambos "riscos importantes".

"Por outro lado, as medidas de política econômica adotadas podem revelar efeitos catalisadores de um processo de recuperação sustentada nos próximos meses", afirmou.

Recentemente, na avaliação da autoridade monetária, o apetite ao risco de emergentes teve recuperação. Mas o cenário externo para esse grupo continua com chance alta de apresentar "volatilidade de preços de ativos e retração do apetite ao risco", enquanto estiverem presentes "condições excepcionais de incerteza".