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BC não considera riscos da alta de juros na nova crise da Covid e divide economistas

LARISSA GARCIA E FÁBIO PUPO
·6 minuto de leitura
***ARQUIVO***SÃO PAULO: Cédulas de real, moeda oficial brasileira. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO: Cédulas de real, moeda oficial brasileira. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central surpreendeu o mercado ao elevar a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual, a 2,75% ao ano, patamar considerado agressivo por alguns especialistas.

O comunicado da decisão, divulgado na quarta-feira (17), minimizou o risco do agravamento recente da pandemia de Covid-19 na atividade econômica e dividiu analistas.

Antes da reunião, era praticamente consenso no mercado que o BC elevaria os juros em 0,5 ponto percentual.

O Copom afirmou que indicadores recentes como a divulgação do PIB (Produto Interno Bruto) do quarto trimestre "continuaram indicando recuperação consistente da economia".

O texto reconhece que o cenário analisado pela autoridade monetária ainda não reflete o avanço recente da pandemia e menciona incertezas sobre o crescimento no primeiro e no segundo trimestres.

A avaliação dividiu analistas consultados pela Folha. Parte enxergou como exagerada a alta de 0,75 ponto percentual diante da iminente queda da atividade com as novas medidas de restrição. Outros economistas, no entanto, consideraram a decisão adequada em meio à escalada de preços.

O economista-chefe da consultoria Análise Econômica, André Galhardo, ressalta que o BC não considerou o encerramento do auxílio emergencial e justificou a decisão em dados de atividade econômica anteriores ao agravamento da pandemia.

"Fazer essa leitura olhando para trás é problemático. No comunicado não levaram em consideração o encerramento do auxílio emergencial e que a pandemia ficou muito pior especialmente a partir do fim de fevereiro. Essas questões deveriam ser melhor exploradas no texto", considera.

Para ele, o comunicado foi contraditório ao dizer que o choque de preços é temporário e ao mesmo tempo aumentar em 0,75 ponto percentual a taxa Selic, patamar que considerou superior ao necessário, como resposta à inflação.

"Não faz muito sentido. Em outra análise, parece estranho o BC usar uma política monetária menos expansionista [aumentar juros] para controlar uma inflação cuja principal contribuinte é a taxa de câmbio. Não é suficiente para frear a desvalorização do Real, mas é muito elevada na questão fiscal, que o próprio BC menciona como preocupante. Quando aumenta a Selic, a dívida pública é elevada e, por consequência, aumenta o prêmio de risco", avalia.

José Francisco Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, mantém sua posição expressa logo após a divulgação do Copom de que a decisão foi um erro. "[O comunicado] desconsiderou a atividade econômica em queda, a piora da pandemia e o fim do auxílio emergencial. O ritmo sinalizado não é compatível com a realidade da economia", disse.

Já Maurício Oreng, economista do Santander, avaliou que a magnitude da alta foi adequada. "O BC está avaliando a atividade e vê recuperação e redução da ociosidade. Esses são fatores que reforçam a visão do BC de que um estímulo extraordinariamente elevado [juros muito baixos] já não são mais necessários", analisa.

Para o analista, o BC considerou que a vacinação deverá avançar e poderá mitigar o risco de novas medidas de restrição, embora a análise não esteja no texto. "O comunicado trouxe uma preocupação com o agravamento da pandemia e diz que traz um risco, mas o foco da preocupação é a inflação", diz.

Oreng destaca que o objetivo do BC é o que os economistas chamam de "ancorar as expectativas". O Copom dá o recado ao mercado de que não será conivente com a escalada de preços e assim evita que as expectativas subam ainda mais.

"A medida evita que as pressões de preço sejam persistentes lá na frente", completa.

Na visão do analista e sócio da gestora 051 Capital, Rossano Oltramari, o BC percebeu que estava perdendo a ancoragem das expectativas de inflação e reagiu. "Foi um recado importante de que está vigilante à aceleração de preços", diz.

O especialista avalia que o BC também mirou no câmbio para tentar controlar a inflação. "O Copom deixou a atividade em segundo plano, porque nessa reunião era mais importante dar o recado ao câmbio e à inflação", pondera.

O economista e sócio da assessoria de investimentos BRA, João Beck, diz que o BC reconheceu que o agravamento da pandemia pode contribuir com o arrefecimento da atividade, levando a uma inflação menor, mas cita que a trajetória fiscal neutraliza esse efeito aumentando o risco. "Isso exige taxas mais altas para atrair recursos ao pais", pontua.

"É importante notar a diferença de sinalização inversa que foi dada pelo Fed [banco central americano]. Por lá, uma mensagem de mais leniência com inflação e manutenção de taxa de juros levou a taxa de juros de longo prazo a subir", afirma.

"Por aqui, um arrocho maior no curto prazo e a sinalização da alta de mesma magnitude na próxima reunião provocou uma leve queda nas taxa de juros de longo prazo hoje", diz.

Os analistas do Itaú Unibanco afirmam que o Copom se mostrou mais preocupado com riscos para a inflação no curto prazo ao mencionar fatores como a pandemia e os consequentes riscos fiscais.

A análise é que, por um lado, a Covid-19 pode atrasar a recuperação; por outro, a liberação de despesas anticrise ou a falta de reformas podem pressionar ainda mais os preços para cima.

"O comunicado trouxe um ajuste na descrição do balanço de riscos para a inflação, de certa forma colocando um foco maior sobre o curto prazo, mencionando que o agravamento da pandemia pode atrasar o processo de recuperação econômica, produzindo trajetória de inflação abaixo do esperado", afirma relatório assinado pelo economista-chefe do Itaú Unibanco, Mário Mesquita.

"Do lado dos riscos de alta para o cenário de inflação, o Copom seguiu afirmando que um prolongamento das políticas fiscais de resposta à pandemia ou frustrações com a agenda de reformas podem elevar os prêmios de risco, e que o risco fiscal elevado segue gerando assimetria de alta", afirma.

Analistas internacionais destacam que a decisão do Copom visa conter as expectativas de inflação, mas ressaltam que a medida traz risco para o crescimento econômico do país em um momento de pandemia.

Samar Maziad, vice-presidente da agência de classificação de risco Moody's, afirmou que a decisão do Copom traz credibilidade ao BC ao dar resposta às pressões inflacionárias de curto prazo.

"Esperamos que o movimento se mostre eficaz para ancorar as expectativas de inflação e apoiar a credibilidade do BC, um elemento-chave de apoio à força institucional do Brasil", disse em comunicado.

Mesmo assim, ela ressalta que a decisão cria riscos ao crescimento econômico em meio ao avanço da Covid-19. "Em um contexto de agravamento da pandemia e devido ao ritmo lento da vacinação, taxas de juros mais altas adicionam riscos negativos às perspectivas de crescimento econômico para o resto do ano", afirmou.

O BofA (Bank of America Merril Lynch) considerou a elevação do Copom mais alta que o esperado, mas destaca a menção do comitê a pressões de alta da política fiscal, que gera riscos elevados e continua a criar riscos.

Os economistas David Beker e Ana Madeira, do BofA, destacam a menção pelo Copom ao aumento da inflação atual e esperada devido ao aumento dos valores das commodities, que pressionam preços domésticos como os do petróleo.

E comentam que o Copom vê o aumento dos casos de Covid representar um risco de baixa para a inflação, já que o cenário pode atrasar a recuperação econômica.