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BC entrega números inéditos puxados por medidas artificiais criadas na pandemia

LARISSA GARCIA
·5 minuto de leitura
*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF,  01.10.2020 - O presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 01.10.2020 - O presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - No ano em que a pandemia devastou economias e mudou a dinâmica de consumo pelo mundo, o Banco Central brasileiro entregou o que sempre perseguiu: inflação na meta, taxa de juros no menor patamar da história, mercado de crédito em crescimento e inadimplência no menor nível.

Seria o cenário perfeito, não fossem os efeitos disso daqui para a frente. Parte dos números extraordinários da autoridade monetária foi fruto da baixa atividade econômica e de medidas emergenciais de combate à pandemia.

"O governo intuiu que uma taxa de juros baixa iria estimular investimentos dos empresários em suas próprias empresas na medida em que eles não teriam opções melhores para empregar seu capital. Além disso, o grande temor no começo deste ano era com a deflação", afirma o economista Paulo Feldmann, professor da USP.

Ao começar 2021 sem o decreto de calamidade que permitiu que o governo gastasse além do teto, o BC terá de lidar com provável efeito rebote na economia.

Na mais recente reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), o BC decidiu manter os juros (Selic) a 2% ao ano, no menor nível da história.

Ao mesmo tempo, a inflação medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), considerado o índice oficial, encerrou novembro em 4,31% em 12 meses deve fechar o ano perto disso, dentro da meta fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), de 4%, mas com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.

Os números foram alcançados sob o custo de uma atividade econômica extremamente deprimida pela pandemia. Antes da crise, em fevereiro, o BC havia indicado que a taxa ficaria em 4,25% ao ano nas reuniões seguintes, depois de cinco reduções seguidas.

Com a deterioração do cenário econômico e com a necessidade de estímulo monetário (juros mais baixos para incentivar o consumo), foi retomado o ciclo de queda da Selic.

A crise também teve efeito deflacionário, especialmente nos meses mais agudos --em abril e maio, o IPCA foi negativo. A necessidade de distanciamento social fez as pessoas consumir menos, o que derrubou o índice. Isso também permitiu o corte de juros.

Nos últimos meses, no entanto, a inflação voltou a subir, pressionada por alimentos e combustíveis. Segundo o BC, o auxílio emergencial, aliado ao aumento do consumo de comida dentro de casa, gerou parte dessa pressão.

Na avaliação da autarquia, o choque é temporário e deve desacelerar no próximo ano.

"O que vemos hoje no Brasil são dados de países ricos, da zona do euro, mas em um país empobrecido. É preciso pensar em soluções para aumentar a taxa de crescimento da atividade. A discussão de juros reais negativos, por exemplo, já vemos há muito tempo em economias desenvolvidas", afirma Eduardo Velho, economista-chefe da JF Trust Investimentos.

Ele concorda que a inflação dos últimos meses é temporária. "A inflação estrutural no Brasil está mais baixa. A partir do início do ano não teremos aceleração de alimentos, com o fim do auxílio, e teremos menor pressão do câmbio", diz.

Para ele, o cenário traçado para 2021 não será tão ruim. "Temos um ambiente externo favorável às economias emergentes e é possível que tenhamos fluxo de investimentos."

Feldmann, da USP, discorda de que os preços vão desacelerar. "O maior problema do país hoje é a inflação. Alguns índices, como os da FGV, em que alimentos têm maior peso, tiveram alta perto de 20%. É isso que pesa no bolso", opina.

O mercado vem aumentando as estimativas tanto para a inflação quanto para a Selic de 2021, que agora estão em 3,37% e 3% ao ano, respectivamente, segundo o boletim Focus do BC. Há um mês, as previsões eram de 3,22% (inflação) e 2,75% ao ano (Selic).

A autoridade monetária anunciou, na reunião do Copom do dia 9, que deve abandonar em breve o compromisso de não subir juros, instrumento adicional de política monetária chamado "forward guidance" -- prescrição futura.

Além disso, embora o câmbio tenha dado trégua no último mês, a previsão do mercado é que o dólar ainda fique acima dos R$ 5 em 2021. Segundo a mais recente previsão da autoridade monetária, a atividade econômica deve crescer 3,8%, mas ainda não voltará aos níveis anteriores à crise.

Na avaliação de José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV/Ibre e ex-diretor do BC, o repique de contaminações pode atrasar a recuperação da economia. "Essa é a principal geração de incertezas hoje, é paralisante. Com isso, o mercado de trabalho é muito afetado."

O economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, não descarta recessão no primeiro trimestre do próximo ano.

"A percepção é que a virada do ano vai ser ruim por causa do fim dos estímulos. Podemos ter contração no primeiro trimestre, depende do cenário de pandemia, que inclui vacinação. O viés de atividade é para baixo", diz.

O BC projeta que o mercado de crédito fechará 2020 com crescimento acima de 15%, puxado pelas linhas emergenciais do governo para micro e pequenas empresas, como o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), e estima crescimento de 7,8% para o próximo ano.

"Com baixa atividade, é difícil ver o mercado de crédito se expandindo", afirma Senna.

O auxílio emergencial e o adiamento das parcelas de empréstimos contraídos antes da pandemia, concedido pelos maiores bancos, evitaram os calotes, e a inadimplência chegou ao seu menor nível, com 2,4% em novembro.

O BC, porém, estima que esse índice possa chegar a 4% no próximo trimestre. O pico, em maio de 2017, foi de 4,04%. Com o fim do auxílio e o retorno das parcelas, além da desaceleração no mercado de trabalho, os consumidores podem ter dificuldades para honrar seus compromissos.

A autoridade monetária também terá que traçar planos para lidar com o rombo nas contas públicas e com a dívida, que cresceu muito em decorrência dos gastos com a pandemia. Embora a autarquia não seja responsável pela política fiscal do país, o desequilíbrio traz danos econômicos e afeta a política monetária.

Para Senna, o maior desafio será o quadro fiscal.

"Considero importante a manutenção do teto de gastos, mas isso não é tudo. O problema é que essa é a única âncora fiscal. Qualquer passo em falso é fatal, como sinais concretos de que as reformas não serão feitas."