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BC entra com US$ 1,5 bi para conter efeito de crise argentina sobre dólar no Brasil

ANAÏS FERNANDES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Banco Central decidiu atuar no câmbio para conter a disparada do dólar, que bateu R$ 4,21 nesta quinta-feira (30) após o peso argentino derreter e contaminar moedas emergentes.

A autoridade monetária anunciou às 13h20 (horário de Brasília) leilão adicional de até 30 mil contratos de swap cambial tradicional (equivalente à venda futura de dólares) no valor de US$ 1,5 bilhão.

Com a ação, o dólar desacelerou e fechou com alta de 0,63%, a R$ 4,145.

"As intervenções do BC visam prover liquidez e garantir o bom funcionamento do mercado cambial e, portanto, do regime de câmbio flutuante", informou a autoridade em nota, acrescentando que "a intensidade e a frequência das intervenções dependerão da dinâmica e das disfuncionalidades observadas no mercado."

O BC reiterou que sua atuação no mercado cambial é separada da política monetária, "não havendo, portanto, relação mecânica entre a política monetária e os choques recentes."

" O regime de câmbio flutuante é a primeira linha de defesa. Os instrumentos cambiais utilizados pelo BC permitem que o regime de câmbio flutuante possa amortecer os choques da melhor forma", acrescentou.

A última vez que o BC fez uma oferta adicional de swaps —numa atuação conjunta com o Tesouro Nacional— foi em junho deste ano, depois que a paralisação dos caminhoneiros levou a uma reprecificação dos ativos.

A decisão de outro Banco Central, o argentino de subir os juros em mais um dia de forte desvalorização da moeda local não surtiu o efeito esperado. O peso entra em espiral de queda de mais de 20%, contaminou emergentes e levou o dólar R$ 4,21 em um Brasil já fragilizado por incertezas eleitorais.

Com forte instabilidade, as negociações do Tesouro Direito chegaram a ser suspensas às 11h, mas estavam normalizadas por volta de 11h50.

Pela manhã, o peso argentino caia cerca de 15% após o presidente Mauricio Macri informar, na véspera, que estava pedindo um novo adiantamento ao FMI (Fundo Monetário Internacional), intensificando temores de uma interrupção dos pagamentos da dívida.

“Na última semana voltamos a ter novas expressões de falta de confiança dos mercados, especificamente sobre nossa capacidade de conseguir financiamento para 2019", disse Macri.

O governo já havia acertado um empréstimo de US$ 50 bilhões em meio à crise financeira que atravessa, comprometendo-se, em troca, a reduzir seu déficit fiscal a 1,3% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2019.

Em resposta à pressão cambial desta quinta, o BC argentino anunciou no fim da manhã um aumento na taxa de juros de 45% para 60%, pouco mais de duas semanas desde a última elevação, em 13 de agosto. Aumentou também em cinco pontos percentuais a taxa de compulsório que os bancos privados são obrigados a deixar na autoridade monetária.

O BC argentino explicou, em comunicado, que adotou as medidas "em resposta à conjuntura cambial atual e ante o risco de que implique em um impacto maior sobre a inflação doméstica".

Não adiantou. A moeda local intensificou suas perdas para 22%, com um dólar chegando a valer 41 pesos argentinos. Fechou em queda de 19%.

No exterior, 20 das 24 divisas emergentes se desvalorizavam em relação ao dólar, com destaque para a lira turca (-4,4%) e o rand sul-africano (-2,9%).

GANHO GERAL

O fortalecimento do dólar era favorecido ainda por dados fortes da economia americana divulgados nesta quinta.

Pela manhã, o Departamento de Comércio dos EUA informou que os gastos do consumidor, que respondem por mais de dois terços da atividade do país, subiram 0,4% em julho, indicando forte crescimento econômico no início do terceiro trimestre.

Com a demanda em elevação, os preços deram continuidade à tendência de alta. O núcleo do índice PCE, que inclui os componentes voláteis de alimentos e energia, avançou 0,2% em julho, contra alta de 0,1% em junho.

Isso elevou o aumento na base anual para 2% —meta do Federal Reserve (banco central americano) para a inflação neste ano. Essa é a terceira vez que o indicador atinge a marca.

O núcleo do PCE é a medida preferida do Fed para a inflação. Sinais de crescimento econômico e pressão inflacionária nos EUA elevam no mercado a expectativa de que a autoridade tenha que fazer um aperto monetário mais rápido.

Para este ano são previstas mais duas altas nos juros dos EUA, em setembro e dezembro. Taxas mais elevadas atraem para a maior economia do mundo fluxo de capital até então alocado em outros países, fortalecendo o dólar e impactando, sobretudo, emergentes.

Profissionais ressaltam que o quadro brasileiro é diferente do argentino ou turco, com as contas externas do Brasil mais saudáveis, mas explicam que investidores acabam promovendo ajustes generalizados em suas carteiras de emergentes quando há preocupação em alguma das praças em que aplicam.

"O ataque especulativo contra a moeda do nosso vizinho se deve ao fato que o combate a inflação não está surtindo efeito e que Buenos Aires não tem reservas internacionais em patamar relevante. [...] a única coisa que evita que isso atinja o real são as reservas domésticas e o saldo comercial", escreveu André Perfeito, economista-chefe da Spinelli.

O Ibovespa, índice que reúne as ações mais negociadas no Brasil, recuou com força 2,53%, para 76.404 pontos, em linha com o viés de maior aversão a risco no exterior. Bolsas americanas e europeias operam, em geral, no vermelho.

"Sem grande 'ajuda' do exterior, e ainda com dúvidas sobre as perspectivas políticas por aqui, o viés para os ativos locais, nesta sessão, é mais negativo", disse a corretora Guide Investimentos em relatório.

ELEIÇÕES

Internamente, o cenário eleitoral inspirava cautela nos investidores.

Analistas avaliavam que o desempenho de Geraldo Alckmin (PSDB), candidato preferido pelo mercado, em entrevista ao Jornal Nacional na noite passada não foi satisfatório.

"Geraldo Alckmin sofreu um bombardeio focado em corrupção nos primeiros 16 minutos de entrevista ao Jornal Nacional –nada bom ser tão vinculado ao tema que mais incomoda os brasileiros", escreveu a XP Investimentos.

Dois eventos também estão na mira do mercado para esta sexta-feira (31): o início da campanha eleitoral na TV —e a expectativa de que, com 44% do tempo na disputa, Alckmin consiga avançar nas pesquisas— e a possibilidade de julgamento pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) da participação de Lula (PT) na propaganda de rádio e televisão.