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BC corrige rota para Selic e mercado reage com disparada do juro, rali do dólar e queda da bolsa

Sede do Banco Central em Brasília

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - Os mercados financeiros no Brasil tiveram uma terça-feira amarga, liderando as perdas entre pares globais em meio a um alto nível de volatilidade, num profundo ajuste após falas consideradas duras de duas autoridades do Banco Central colocarem em xeque a perspectiva de fim do ciclo de aperto monetário.

As taxas de DI com vencimentos dentro do horizonte relevante da política monetária chegaram a disparar quase 40 pontos-base, ritmo que se tivesse sido mantido representaria a maior alta desde outubro de 2021. O dólar escalou acima de 5,25 reais na máxima, deixando o real na piora posição entre rivais no mercado mundial de moedas. A cotação terminou no maior valor em um mês.

No mercado de ações, o Ibovespa sofreu a maior queda desde junho, de mais de 2%, no pior desempenho entre pares ocidentais. As ações de consumo discricionário, mais vulneráveis ao encarecimento do crédito, despencaram mais de 4%.

A expressiva correção de preço ocorreu ainda em meio a um humor instável no exterior, ainda por temores de altas de juros que sufoquem as economias. Mas a piora nos ativos domésticos foi mais visível, numa reversão clara do comportamento mais benigno de algumas semanas atrás patrocinado, em parte, pela perspectiva de que os juros por aqui parariam de subir.

Os comentários de mercado logo depois do último comunicado de política monetária do BC, no começo de agosto, foram de que o Brasil ficaria mais atrativo a partir de então, uma vez que as taxas de juros tenderiam a ir na direção de queda, o que elevaria os retornos via carrego dos papéis de renda fixa.

O maior apelo da dívida brasileira chamaria, assim, fluxo internacional, aumentando a liquidez em moeda estrangeira e exercendo pressão de baixa sobre o dólar.

O impacto da ideia de encerramento da alta de juros também havia impulsionado as ações na bolsa brasileira, uma vez que o desconto a valor presente pararia de aumentar com a estabilidade do juro --podendo cair quando o BC iniciasse o ciclo de queda da Selic, que algumas casas previam já para o primeiro semestre de 2023.

"Mas o BC indicou agora que o processo de queda da Selic pode não acontecer como o mercado precifica", disse Filipe Villegas, estrategista da Genial Investimentos, para quem o presidente do BC, Roberto Campos Neto, tentou passar na véspera mensagem "bastante" alinhada à que vem sendo emitida por colegas dos principais bancos centrais globais.

Na noite de segunda-feira, Campos Neto disse que o Banco Central não pensa em queda de juros neste momento, mas em convergir a inflação às metas, ressaltando que situação inspira cuidados e que a batalha contra a alta de preços no país não está ganha.

Nesta manhã, o diretor de Política Monetária do Bacen, Bruno Serra, foi ainda mais explícito e disse que o banco discutirá um possível ajuste residual na taxa básica de juros neste mês, acrescentando que o processo de controle inflacionário no Brasil ainda é bem incipiente.

Ambos adotaram tônicas consideradas mais "hawkish", jargão da comunidade financeira para explicar abordagem mais inclinada à contração da política monetária, implicando restrição de liquidez.

"O objetivo do BC com esses eventos ontem e hoje parece ser muito mais conter certa expectativa do mercado com relação ao ciclo de relaxamento monetário no próximo ano", disse Sérgio Goldenstein, chefe da área de estratégia da corretora Renascença.

Ele explica que, com a limitação do fechamento da curva de juros, há o efeito de se segurar a queda do juro real (descontada a inflação), o que poderia, assim, reforçar a ancoragem das expectativas de inflação.

"Ainda considero mais provável que o BC não faça nada na reunião de setembro. A ideia, me parece, é mais segurar a curva, tirar os cortes embutidos para o próximo ano, do que sinalizar ajuste de 25 pontos-base neste mês", completou o ex-chefe do Departamento de Operações de Mercado Aberto (Demab) do Bacen.

O spread entre os vencimentos de DI janeiro 2027 e janeiro 2024 cedeu 10 pontos-base, aprofundando a inversão da curva para -1,475 ponto percentual, igualando a taxa mais negativa em pelo menos um ano (período comparável). A curva invertida é um sintoma clássico de momentos de forte aperto monetário.

As declarações "hawkish" referendam expectativa da Rio Bravo de alta da Selic a 14% neste mês, disse Luca Mercadante, economista da gestora de recursos, que vê como "plausível" adiamento do início da queda do juro para o fim do segundo trimestre de 2023.

"A inflação de serviços ainda está pressionada, o mercado de trabalho está muito forte, houve a surpresa (positiva) com o PIB... Além disso, (há) o impulso fiscal maior no segundo semestre, por causa do aumento de gastos com serviços sociais", disse Mercadante, enumerando fatores de cautela do lado dos preços.

Segundo opções digitais da B3, a probabilidade de manutenção do juro básico em 13,75% ao ano no próximo dia 21 caiu de 81% na véspera para 66% no fim da tarde desta terça. Ao mesmo tempo, a chance de elevação de 0,25 ponto percentual, para 14%, pulou de 15% para 30%.

De toda forma, a Rio Bravo segue oficialmente vendo começo do ciclo de queda do juro ao fim do primeiro trimestre de 2023. Reconhece, contudo, probabilidade de início no fim do semestre, mirando efeitos da política monetária nas expectativas de inflação para 2024.

A taxa de depósito interfinanceiro (DI) de um dia na curva da B3 --uma medida anualizada do juro negociado entre instituições financeiras-- sobe até junho de 2023 e começa a cair em julho. Na segunda-feira, o pico de taxa na curva era alcançado em março. Em outras palavras, o mercado está postergando o início do ciclo de queda da Selic.

O forte ajuste no mercado de DI veio acompanhado de turbinado volume de negócios. Um total de 4,720 milhões de contratos de DI trocaram de mãos, 85% acima da média diária de um mês.

PREJUÍZOS

Na renda fixa, disse Maria Cândida Naegele, sócia e assessora de investimentos da HCI Invest, investidores que compraram há mais tempo produtos atrelados ao IPCA podem sofrer prejuízos maiores, já que o tom mais duro do BC pode fortalecer o processo de convergência da inflação à meta. "Muita gente esperava sair (da posição) com ágio, mas isso pode demorar mais para ocorrer."

Naegele vê, com as indicações mais recentes das autoridades do Bacen, chances importantes de aumento de 0,25 ponto percentual na taxa Selic daqui a duas semanas.

"Eu esperava, por tudo que se lia do BC, o fim do ciclo agora e início da queda por volta do terceiro trimestre de 2023. Mas pode ser que isso não aconteça, que fique mais para o fim do ano que vem."

Os títulos públicos prefixados com vencimento igual ou superior a um ano caminharam nesta terça para a maior queda diária desde março.

O índice IRF-M 1+, da Anbima --que acompanha a preços de mercado LTN e NTN-F trocadas no mercado secundário-- tinha queda de 0,5830% nesta terça. Mantido esse ritmo, terá sido o maior recuo desde o de 0,6102% do último dia 7 de março.

A maior demonstração do BC de preocupação com a inflação e a sinalização de busca de convergência da alta dos preços à meta pesou sobre os títulos com rentabilidade atrelada ao IPCA --referência para o regime de metas.

O IMA-B 5+ --que acompanha NTN-B com vencimento a partir de cinco anos-- cedia 0,8012% na tarde desta terça-feira, até então maior baixa diária desde 16 de agosto (-0,882%).

(Por José de Castro; edição de Isabel Versiani e Luana Maria Benedito)