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Barradas por teto de vidro, mulheres deixam mesas de câmbio

Charlotte Ryan

(Bloomberg) -- Camilla Sutton avançou na carreira e se tornou chefe global de câmbio no Scotiabank, em Toronto. Ao longo do caminho, Sutton algumas vezes foi questionada por viajar tendo filhos pequenos em casa. Em outras, confundida com uma profissional sem experiência. E houve o dia em que era a única mulher em uma reunião do alto escalão - mais uma vez.

Como muitas outras mulheres no mercado de câmbio, com US$ 6,6 trilhões em transações por dia, Sutton acabou saindo do setor. Ela agora trabalha para uma empresa que visa melhorar a diversidade de gênero.

“Mulheres muito experientes no setor serão as únicas na mesa em todas as mesas”, disse Sutton. “É muito cansativo e exaustivo para mulheres que estão nos altos escalões do setor enfrentarem continuamente as microagressões cotidianas.”

Para algumas profissionais, é pior do que isso. Chau Pham, ex-vice-presidente do Morgan Stanley em vendas de divisas nos EUA, disse em janeiro que foi demitida sem explicação 22 dias após retornar da licença-maternidade. Stacey Macken, que trabalhava como corretora, venceu uma ação trabalhista em setembro contra o BNP Paribas, em Londres, depois de ter se queixado de que ganhava menos do que colegas do sexo masculino. Em uma ocasião, encontrou um chapéu de bruxa em sua mesa.

Mas também é a rotina diária que desgasta as mulheres. Seja o fato de serem interrompidas constantemente nas reuniões, os salários mais baixos ou trabalhar sem modelos femininos, operadoras atuais e já fora do mercado dizem que o setor continua sendo um lugar difícil para as mulheres.

Os bancos dizem que estão tentando contratar e promover mulheres, e vários apontaram programas e objetivos específicos. Mas os escalões mais altos da gerência não mostram isso. Nenhum dos dez maiores bancos de investimento possui uma mulher no comando de transações globais de câmbio, de acordo com informações fornecidas pelos bancos.

Sutton e Catherine Flax, ex-chefe de câmbio e commodities do BNP Paribas nas Américas, estavam entre as mulheres destacadas em uma reportagem da Bloomberg há três anos sobre a ascensão de operadoras de câmbio. As duas deixaram o setor.

Outra que deixou o mercado de câmbio: Meg Browne, que trabalhou no setor por 30 anos. Começou como operadora no Federal Reserve Bank de Nova York e depois trabalhou no HSBC Holdings e na Brown Brothers Harriman & Co. em vendas e pesquisa. Certa vez, ela acompanhou colegas a um clube de strip-tease na década de 1990 “porque eu não sabia outra maneira de me relacionar com meus chefes”.

“Minha preocupação é que as coisas não mudem”, disse. “Está apenas mais escondido.” Browne agora trabalha no setor sem fins lucrativos.

Os bancos dizem que estão empenhados em contratar mais mulheres. O JPMorgan Chase criou vários programas internos destinados a atrair e reter talentos femininos, como uma iniciativa que reúne profissionais do sexo masculino, chamados “aliados”, para discutir como reter e promover mulheres. A empresa tinha uma cochefe de operações de câmbio até março.

O Goldman Sachs tem uma meta de que as mulheres representem 50% de seus analistas juniores e instalou cinco creches em escritórios em todo o mundo, que abrem no início das negociações.

O Bank of America tem uma mulher no comando do trading global de opções G10 FX. Uma porta-voz do banco disse que a gerência da empresa é composta por mais de 54% de mulheres e/ou pessoas negras.

--Com a colaboração de John Ainger, Paul Sillitoe e Jeremy Diamond.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórter da matéria original: Charlotte Ryan London, cryan147@bloomberg.net

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