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Banco Mundial prevê maior proporção de países com queda de PIB per capita em 150 anos

Fabio Graner

Segundo estimativas do organismo multilateral, economia global terá queda de 5,2% neste ano A crise gerada pelo novo coronavírus trará a maior proporção de economias com queda de Produto Interno Bruto (PIB) per capita em um século e meio (desde 1870), projeta o Banco Mundial no relatório Global Economic Prospects, divulgado nesta segunda-feira. Segundo estimativas do organismo multilateral, a economia global terá uma contração de 5,2% neste ano.

No conjunto das economias avançadas, a queda esperada é de 7%. Já nos países emergentes e em desenvolvimento, o recuo deve ser da ordem de 2,5%, o primeiro desse grupo em 60 anos, quando a série começou a ser levantada.

Em termos per capita, ou seja, considerando o crescimento populacional, as quedas são ainda mais dramáticas: 6,2% para a economia mundial, 7,3% para as avançadas e 3,6% para as emergentes.

Índia em quarentena

Valor

O documento destaca que o impacto é maior nos países onde a pandemia foi mais intensa e também nas economias mais ligadas ao comércio internacional, turismo e financiamento externo.

O texto aponta ainda que o impacto econômico também deve ser de longo prazo, por conta da incerteza em torno do investimento e da destruição de capital humano com o elevado desemprego. Além disso, o relatório aponta para um aumento enorme da pobreza, atingindo milhões de pessoas.

“Trata-se de uma perspectiva profundamente desanimadora, com a probabilidade de a crise causar cicatrizes duradouras e impor grandes desafios globais”, disse a vice-presidente de Crescimento Equitativo, Finanças e Instituições do Grupo Banco Mundial, Ceyla Pazarbasioglu, de acordo com nota à imprensa divulgada pela instituição.

“Nossa primeira ordem do dia é fazer face à emergência global de saúde e econômica. Além disso, a comunidade global deve unir-se para encontrar maneiras de reconstruir a recuperação mais robusta possível para evitar que mais pessoas caiam na pobreza e no desemprego”, afirmou.

O relatório aponta que a queda pode ser ainda maior neste ano, a depender da evolução da pandemia e das ações para combatê-la. Para 2021, o cenário é de recuperação, mas em ritmo inferior à queda deste ano. A estimativa para a economia mundial em 2021 é de alta de 4,2%, sendo 3,9% de expansão nos países avançados e 4,6% nos emergentes e em desenvolvimento.

“No entanto, as perspectivas são extremamente incertas, com o predomínio de riscos no sentido descendente, incluindo a possibilidade de uma pandemia mais prolongada, instabilidade financeira e retração do comércio global e cadeias de suprimento. Um cenário mais negativo poderia acarretar uma redução da economia global em até 8% neste ano, seguida de uma recuperação lenta em 2021 de apenas 1%”, diz o Banco Mundial.

A economia americana deverá se contrair 6,1% neste ano, refletindo distúrbios associados com as medidas de controle da pandemia. O PIB da zona do euro deverá encolher 9,1% em 2020, tendo em vista o forte ônus sobre a atividade econômica causado por surtos generalizados. A economia do Japão deverá ter queda de 6,1%, pois as medidas preventivas desaceleraram a atividade econômica.

Para o Brasil, o Banco Mundial projeta queda de 8% do PIB neste ano, uma das maiores os países da América Latina e Caribe.

“A recessão de covid-19 é singular em muitos sentidos e provavelmente será a mais profunda das economias avançadas desde a Segunda Guerra Mundial e a primeira contração do produto das economias de mercado emergente e em desenvolvimento no mínimo nas últimas seis décadas”, disse o diretor do Prospects Group do Banco Mundial, Ayhan Kose, também na nota à imprensa.

“O episódio atual já provocou de longe o rebaixamento mais rápido e mais acentuado das previsões de crescimento global de que se tem registro. Se o passado serve de guia, pode haver mais rebaixamentos no futuro, o que significa que os formuladores de políticas devem estar prontos para empregar medidas adicionais de apoio à atividade econômica”, completou.

Ações econômicas e sanitárias

O Banco Mundial destaca a necessidade de ações de política econômica e de saúde para amortecer os impactos da pandemia. Segundo o organismo, é preciso garantir os principais serviços públicos, entre eles o de saúde, sustentar o setor privado e dar dinheiro diretamente às pessoas.

“É extremamente importante para as economias de mercado emergente e em desenvolvimento, que são especialmente vulneráveis, reforçar o sistema de saúde pública, abordar os desafios impostos pela informalidade e redes de proteção social limitadas e implementar reformas para gerar crescimento forte e sustentável assim que a crise passar”, diz a nota à imprensa.

Segundo a instituição, as economias de mercado emergente e em desenvolvimento com espaço fiscal disponível e condições de financiamento economicamente acessíveis deveriam considerar estímulos adicionais se persistirem os efeitos da pandemia.

“Isto deveria ser acompanhado de medidas para ajudar a restaurar a sustentabilidade fiscal de médio prazo, incluindo medidas que fortaleçam os quadros fiscais, aumentem a mobilização de receita interna e eficiência das despesas, e elevem a transparência fiscal e da dívida”, afirma o texto.

“A transparência quanto a todos os compromissos financeiros, investimentos e instrumentos como a dívida pública é um passo essencial para criar um clima de investimento atraente e poderia ter progresso substancial este ano”, completa.

Para o Banco Mundial, os países devem estar vigilantes para combater possíveis interrupções no setor financeiro. “Durante o período de recuperação, os países precisarão calibrar a retirada do apoio público”, alerta.