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Banco Inter lança seu Super App no melhor estilo Rappi. Mas e a privacidade?

Rafael Rodrigues da Silva

Na última quinta-feira (7), o banco Inter fez o lançamento oficial do super app do banco, que permitirá aos usuários fazer muito mais do que apenas operações bancárias pelo aplicativo.O evento de lançamento aconteceu na nova sede da instituição, em Belo Horizonte, e o Canaltech estava presente para ver em primeira mão quais são as novidades trazidas pelo novo aplicativo.

Mais do que um app de banco

Quando falamos em “super app”, a primeira coisa que vem na cabeça é o WeChat, o aplicativo chinês que provavelmente é o “super app” mais conhecido do mundo. Isso porque ele foi criado como uma “cópia” do messenger do Facebook e, hoje, já há incluso uma infinidade de funcionalidades. Com ele, é possível realizar uma série de operações financeiras (pagamento de contas, transferências, compras, etc), além de adquirir pacotes de viagens, agendar consultas médicas, chamar táxi, pedir comida e muito mais.

E essa é a mesma ideia do novo Super App do banco Inter, ainda que de forma mais limitada: permitir que os usuários utilizem o mesmo aplicativo que usam para gerenciar seu dinheiro, também para efetuar suas compras. Mas o modelo do novo app do banco não é exatamente o app chinês (já que o WeChat é dono de todos diferentes serviços existentes na plataforma) mas algo mais parecido com o Rappi: ser uma plataforma comum onde empresas de diferentes segmentos podem oferecer seus serviços para os clientes da instituição.

Super App possui parcerias com algumas das principais empresas do Brasil para que os clientes do banco Inter possam resolver tudo o que precisam dentro do aplicativo (Imagem: Inter)

De acordo com João Vitor Menin, CEO do banco Inter, o app do banco já é uma espécie de “super app”, pois permite que seus correntistas possam fazer qualquer tipo de operação financeira por ele, seja pagar boletos, olhar o saldo da conta, pedir empréstimos ou gerenciar os diferentes investimentos que possui. A novidade é que, agora, a empresa está abrindo a possibilidade que os usuários utilizem o mesmo app para serviços não-financeiros, como adquirir passagens de avião, comprar um smartphone novo ou até mesmo pedir a marmita do almoço.

A maioria desses serviços pode ser encontrada na nova função “Shopping”, que é a aba do novo app designada especialmente para que o clientes do Inter tenham acesso às lojas e efetuem compras direto pelo app do banco. Desde seu lançamento, o app já possui parceria com diversos gigantes do e-commerce e que entregam em todo o Brasil, como as Lojas Americanas, Netshoes, Submarino e AliExpress. A partir da aba Shopping será possível efetuar compras em qualquer uma das lojas cadastradas no aplicativo, com o próprio Inter intermediando o pagamento.

Outra novidade trazida pelo Super App é a ideia de “estilo de vida”. Trata-se de uma mistura de serviços financeiros fornecidos pelo Inter e outros oferecidos por empresas parceiras do aplicativo. Essa parte do aplicativo é dividida em nove categorias (tecnologia, casa, transporte, entretenimento, esporte, viagem, farmácia, beleza e moda) que foram criadas baseadas nos principais hábitos de consumo dos clientes do banco.

Por exemplo, na categoria “Viagem”, o usuário tem acesso facilitado pelo app para comprar passagens aéreas, efetuar reservas em hoteis, alugar um automóvel e até mesmo fazer o câmbio de seu dinheiro por moeda estrangeira. Já na categoria transporte, ele teria acesso facilitado à compra de passagens aéreas e rodoviárias, aluguel de carros ou mesmo a possibilidade de se inserir créditos para o Uber. Com isso, ele não precisa se preocupar em carregar dinheiro ou cartão de crédito para efetuar as corridas pedidas pelo app.

A ideia de "estilo de vida" é uma das novidades proporcionadas pelo novo Super App (Imagem: Inter)

Mas não é apenas créditos para a Uber que o novo aplicativo do banco Inter permite adquirir. Ele possui todo um sistema voltado para a compra de créditos e gift cards. Com isso, ele pode adquirir e enviar cartões de presente de qualquer loja parceira do aplicativo (como a Americanas e o Submarino), efetuar recargas de celulares e até mesmo compras de créditos para lojas de videogames, como a Xbox Store.

E você pode estar se perguntando: mas qual é a vantagem de eu fazer todas essas coisas direto pelo aplicativo do banco? Além da praticidade (já que você pode usar apenas um app ao invés de deixar vinte abertos), o motivo para se efetuar essas operações tem um nome bem definido: cashback. Isso porque qualquer produto comprado ou serviço contratado através do Super App Inter garantirá ao usuário um retorno financeiro - ou seja, parte do dinheiro gasto na compra irá retornar ao cliente.

E, como o responsável por gerenciar esse cashback é o próprio banco Inter, esse retorno não será na forma de crédito, que só pode ser usado em determinada loja (como acontece em uma boa parte dos programas deste tipo), mas em dinheiro que irá retornar para sua conta e que pode ser usado para efetuar outra compra online em qualquer estabelecimento, ou mesmo para se sacá-lo em espécie.

Basicamente, toda compra ou serviço que for efetuado através do Super App, o banco Inter ganhará uma porcentagem de “comissão” sobre o valor da compra por ter sido o responsável por levar o cliente para a loja. E é nessa comissão que será baseado o cashback, onde o banco Inter irá dividir essa comissão com o cliente, 50% a 50%. Isso quer dizer que, se uma compra gerar ao banco uma comissão de R$ 10, por exemplo, o banco irá ficar com R$ 5 e os outros R$ 5 será devolvido para a conta do cliente na forma de cashback. Atualmente, esse dinheiro é devolvido para o usuário depois de trinta dias (que é o necessário, hoje, para que o banco garanta que a compra foi real e não uma tentativa de fraude), mas a empresa está trabalhando para, num futuro próximo, conseguir reduzir esse tempo para cerca de sete dias.

Curadoria, personalização e privacidade

O novo Super App irá centralizar em um só local todos os serviços que o cliente precisa, sejam eles financeiros ou não (Imagem: Inter)

Em um primeiro momento, todas as lojas e serviços que podem ser acessados pelo Super App do banco Inter são empresas que foram introduzidas pela própria equipe da instituição. No entanto, o objetivo é criar uma plataforma que, assim como já acontece com a parte de investimentos do aplicativo tradicional deles, seja de fácil integração e permita que qualquer serviço possa fazer parte do seu ecossistema.

Mas, mesmo com essa facilidade de integração, o banco Inter continuará efetuando uma curadoria para garantir que seus clientes não tenham experiências negativas ao fazer compras através do app. Segundo o CEO da empresa: “[ainda que] qualquer um possa fazer uma integração de sua loja virtual com nosso app, nós continuaremos a fazer a curadoria dessas lojas. De repente, eu não posso colocar uma certa loja no nosso aplicativo porque ela vai entregar um produto, por exemplo, mal embalado, com demora na entrega. Então, infelizmente essa curadoria acaba restringindo um pouco para os grandes nomes porque são essas empresas que conseguem garantir uma maior qualidade e eficiência tanto na operação, quanto no atendimento ao cliente. Mas há sim a intenção de abrir para outras empresas, desde que elas sigam alguns critérios de qualidade”.

Outra possibilidade interessante do Super App é que ele já está pronto para “regionalizar” alguns serviços, ou seja, fazer com que eles só apareçam para os usuários que estão em uma determinada cidade. Menin dá o exemplo do sistema de rotativo de Belo Horizonte, que é o pagamento de estacionamento em vias públicas, que em outras cidades também é conhecido como Zona Azul. Neste caso, apenas os clientes do app que estão na capital mineira têm acesso a esse sistema, enquanto ele não apareceria para de outras localidades. Outro exemplo é o da Uber, que ainda não existe em todas as cidades do país e só aparecerá nos municípios ontem tem operação.

Essa personalização permite que o Super App do banco Inter não seja algo pensado apenas para funcionar nas capitais e grandes centros urbanos, mas também que se torne um aplicativo muito útil para clientes que moram no interior, onde normalmente há uma lógica diferente na busca por serviços. Isso permitiria, por exemplo, o cadastro de lanchonetes regionais que atuam apenas em uma ou duas cidades, e não apenas de grandes redes que podem ser encontradas no Brasil inteiro.

João Vitor Menin, CEO do banco Inter (Imagem: Inter)

Mas, quando perguntado sobre se o sistema da empresa já está pronto para atender as demandas da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados, que entrará em vigor em agosto de 2020), o CEO do banco Inter tentou desconversar, se mostrando bem descrente sobre a necessidade dessa lei. “Para ser bem sincero, eu acho que esse negócio [a LGPD] pouco eficiente. No caso da gente como um banco, nós temos que garantir que o cliente não seja lesado nas finanças dele, mas essa necessidade de proteção de dados começou a se tornar algo muito maior do que o necessário", afirmou. "Por exemplo, ‘proteger o CPF’ - o CPF é um dos documentos mais públicos que existe! Como é que a LGPD vai coordenar isso? Então eu acho um tema super complicado, porque tem muito interesse econômico nisso vindo de empresas de consultoria e advocacia, por exemplo, então eu acho que é um tema muito complexo”, completa.

Esse posicionamento de Menin é algo que deveria preocupar os clientes do banco, principalmente em um momento que a empresa está tentando abrir um novo mercado para si e ficará responsável não apenas pelos dados financeiros de seus clientes, mas também com todo o histórico de consumo deles. Isso porque, mesmo que a empresa proteja com afinco as finanças de seus clientes, para evitar que sejam vítimas de golpes, essa aparente despreocupação com dados que ele não enxerga como sendo de responsabilidade “do banco” - como CPF - serve como uma espécie de “sinal amarelo” para clientes e futuros clientes.

Ainda que dados como esse não estejam diretamente vinculados à atividades financeiras, alguém de punho do CPF, nome completo, endereço e telefone de uma pessoa pode, por exemplo, usar essas informações para abrir um crediário e aplicar golpes no nome de um cliente do banco. E essa aparente despreocupação com isso pode ser um indicativo de que o banco Inter não tem a intenção de se responsabilizar, caso algum hipotético vazamento no banco de dados da empresa forneça a cibercriminosos este tipo de informação.

Claro, essa é apenas uma impressão criada por uma resposta do CEO, e não quer dizer que o banco Inter não possua dispositivos para garantir a segurança de seus clientes; durante um tour que fizemos pelo prédio da empresa, pudemos ver que a companhia possui uma enorme equipe de TI e um setor dedicado para garantir a segurança dos clientes e evitar golpes e fraudes.

Logo, é possível que, por ser uma pergunta muito técnica sobre um tema que muita gente ainda não entende em sua totalidade, a fala de Menin demonstre menos uma falta de preocupação da empresa sobre a preservação dos dados de seus clientes e mais, talvez, uma falta de conhecimento sobre algumas preocupações específicas em relação à essa nova lei de privacidade. Tanto que, na continuação da pergunta, ele concorda totalmente com a ideia de que devem existir meios que definam de quem é a culpa no caso de fraudes cometidas por cibercriminosos e de uma regulação para se evitar que companhias privadas comercializem dados de seus clientes sem a permissão destes - que são justamente os dois principais pontos de regulamentação na criação da LGPD.

Preparado para o futuro

Equipe do banco Inter presente no evento de lançamento do Super App (Imagem: Inter)

Entre as funções futuras do Super App - ou seja, ferramentas que ainda não existem no aplicativo, mas que já estão em processo de implementação - haverá o recurso de compra por um click. Essa funcionalidade deverá ser parecida com a que hoje já existe na Amazon, e permitirá, como o próprio nome diz, que os clientes do banco façam suas compras dentro do Super App com um único click. Com isso, ele não precisará preencher informações como nome, CPF, endereço ou número do cartão. Isso porque todas as informações já serão enviadas automaticamente para a loja pelo próprio banco, o que garante uma maior agilidade e segurança na operação.

O SuperApp do banco Inter já está disponível para testes para os clientes do banco, que podem acessar a página do aplicativo do banco Inter na Play Store e baixar a atualização. Por enquanto, a empresa está disponibilizando a novidade apenas para 200 mil clientes, logo, neste primeiro momento, nem todos terão acesso a ele.

Isso porque essa primeira fase do lançamento será utilizada para testar a performance do novo aplicativo junto a essa primeira leva de pessoas. Por isso, o banco Inter está pedindo que todos que utilizarem o Super App entrem em contato para falar o que não gostaram e o que poderia melhorar. A partir desse feedback, a empresa garantirá que a versão final dele agrade a todos os tipos de clientes da instituição.

Por enquanto, o Super App está disponível apenas para usuários Android e não há nenhuma previsão de quando ele chegará também para os dispositivos iOS. Mas, é possível que tenhamos novidades sobre isso já nos próximos meses.

Fonte: Canaltech

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