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Baladas cariocas fecham as portas e veem setor afundar sem apoio do governo

NICOLA PAMPLONA
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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Um dos clubes mais relevantes do Rio de Janeiro nos anos 2000, a Casa da Matriz preparava suas comemorações de 20 anos de existência. O casarão em Botafogo, na zona sul da cidade, que ajudou a disseminar a música brasileira e o rock nas pistas de dança, vinha tentando vencer a crise que já havia fechado outras casas do mesmo grupo, um império da noite carioca no início do milênio. Mas aí veio a pandemia, com as medidas de isolamento e proibição de aglomerações. "A gente estava numa curvinha ascendente, depois de um período ruim, com falências e toda uma questão financeira que a gente estava começando a vencer. Foi como cair, tomar um chute na cara e falar, desisto, não vou mais brigar", diz o dono da Matriz, Daniel Koslinski. Koslinski não foi o único a capitular. A pandemia atingiu em cheio uma noite que já sofria os efeitos da grave crise financeira do estado a partir de 2015. Agora, sem perspectivas de retorno das aglomerações e com altos custos para manter os espaços, a cidade vem enfrentando uma série de anúncios de fechamento de clubes ou casas dedicadas a música e cultura. Não há dados específicos sobre casas noturnas, mas o SindRio, o Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro, estima que 10% dos cerca de 10 mil estabelecimentos do setor na cidade já tenham fechado as portas. A expectativa é que um terço deles não tenha condições de sobreviver até o fim do ano. "Muitas casas noturnas não vão conseguir voltar depois de tanto tempo sem capital de giro", diz o jornalista e empreendedor Léo Feijó, um dos fundadores do Grupo Matriz e coautor do livro "Rio Cultura da Noite", em parceria com Marcus Wagner. "São empreendimentos de pequeno ou médio porte, que não têm um investidor ou patrocinador por trás." A Casa da Matriz era um exemplo de longevidade na volátil noite carioca, mas a crise pegou negócios em diferentes estágios e voltados para diferentes públicos. Inaugurado em 2011 como um espaço multicultural para festas, exposições e eventos de moda, o Comuna, já um bar e restaurante com festas e DJs, foi outro a sucumbir. "A gente sempre definiu a Comuna como espaço de convivência e, por mais que fosse bar e restaurante, a crise sanitária impede esse tipo de convivência, de aglomeração", diz um dos sócios da casa, Duda Pedreira. "Ficou difícil vislumbrar a possibilidade de voltar a operar." Ainda mais novo, o Baródromo, casa com decoração inspirada nos desfiles das escolas de samba, também encarou a pandemia como uma pá-de-cal. "A Lapa estava num processo de queda, mas estávamos sobrevivendo. Veio a pandemia e acabou com a esperança", diz o proprietário, Felipe Trotta. O empreendimento começou há cinco anos como um restaurante na região perto do Sambódromo. Foi transferido para a Lapa em 2017 e se estabeleceu com um ponto de referência do samba, com shows de quarta a sábado e público na média dos 40 anos, segundo Trotta. Alguns estabelecimentos optaram por mudar de conceito, como o clube Fosfobox, que ajudou a moldar a cena clubber na cidade. Depois de 16 anos num subsolo em Copacabana, a boate decidiu se mudar para um galpão no Santo Cristo, na zona portuária da cidade, que abriga o projeto multicultural NAU, ou Núcleo de Ativação Urbana. A pandemia pegou a noite do Rio em meio a um processo de migração para eventos de rua, sem cobrança de ingresso e com bebida mais barata, resultado dos anos de crise econômica. Segundo o jornalista e empreendedor Matias Maxx, a pandemia deve acelerar essa mudança. Ele foi um dos atingidos pelo isolamento, que o levou a fechar a La Cucaracha, misto de loja de quadrinhos, cultura canábica e galeria em Ipanema, na zona sul. Aberta em 2006, a casa ficou conhecida pela calçada enfumaçada, que recebia DJs e bandas em aberturas de exposição ou festas pós-praia ou pré-balada. Maxx chegou a conseguir suspensão do aluguel durante a pandemia e diz que poderia funcionar só como loja, mas desistiu de operar mesmo assim. "Como iria reabrir se o mais legal da loja sempre foi a muvuca?" Em comum, os empresários reclamam de falta de apoio do governo ao setor de cultura e entretenimento. "A cultura jovem independente já não tinha lugar na pauta nem da prefeitura nem do governo do estado e a pandemia gera outro tipo de prioridade", diz Pedreia. "O que já era urgente vai ficar mais urgente. E o que não era, vai ficar menos ainda." Feijó, que foi subsecretário estadual de Cultura entre 2016 e 2018, concorda. "A atuação do poder público é fundamental para a sobrevivência de alguns espaços e depois para o surgimento de outros", diz, lembrando como exemplo negativo o código de condutas da cidade, que ainda respeita zoneamento elaborado em 1976, dificultando a abertura de negócios. Ele destaca que, além de gerar empregos, a noite é atrativo turístico e, por isso, cidades como como Nova York, Amsterdã, Londres e Barcelona têm figuras como um "prefeito da noite", que têm a função de mediar os conflitos entre os empresários e o poder público. Na Inglaterra, acrescenta, 135 casas de shows tradicionais já foram beneficiadas por programas emergenciais do governo para garantir a sobrevivência durante a pandemia. "No Rio, pelo contrário, tem o extremismo do prefeito [Marcelo Crivella] que falava contra o Carnaval." Enquanto isso, os empresários tentam alternativas. Maxx, da La Cucaracha, continua vendendo quadrinhos e artigos de tabacaria no comércio eletrônico. Koslinski usa a marca Matriz em eventos na Vizinha 123, casa remanescente do antigo Grupo Matriz, que tem um jardim ao ar livre. Trotta diz não ter desistido de vez do Baródromo, mas ainda vê muitas incertezas para planejar uma reabertura em novo endereço. Eles têm confiança de que, quando a pandemia passar, novas casas surgirão. Mas todos lamentam a perda da memória afetiva dos empreendimentos que ficaram pelo caminho. "É muito doido pensar que, quando a gente puder sair, muitos espaços que a gente frequentava não vão mais existir", resume Pedreira, da Comuna.