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Baixa na equipe econômica não afeta ânimos na Bolsa

JÚLIA MOURA
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP - 23.08.2019: Análise de gráficos e cálculos sobre o dólar. (Foto: Bruno Rocha/Fotoarena/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Bolsa brasileira não reagiu à primeira baixa da equipe econômica do governo de Jair Bolsonaro (PSL). O ministro Paulo Guedes (Economia) decidiu demitir o secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, que ocupava o cargo desde o início do governo.

O motivo da saída foi a divulgação antecipada de estudos para uma reforma tributária, incluindo a cobrança de uma taxação nos moldes da antiga CPMF.

Nesta quarta-feira (11), a Bolsa operou em alta durante todo o pregão. No momento em que o site O Antagonista noticiou a saída de Cintra, o Ibovespa, que subia cerca de 0,35%, não teve grande oscilação. O índice fechou em alta de 0,40%, a 103.445 pontos, com volume financeiro de 16,706 bilhões.

A cotação do dólar também operou em queda durante toda a quarta e não foi impactada pela notícia. A moeda americana caiu 0,78%, a R$ 4,0650, menor valor desde 21 de agosto.

"Isso é um sinal claro de que o encaminhamento da reforma tributária pelo ministério da Economia tem sido mal planejado e conduzido de forma confusa, mantendo a usual 'bateção de cabeça', marca registrada do governo Bolsonaro", afirma Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos.

Para Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, a equipe econômica de Guedes continua bem avaliada pelo mercado. Ele acredita que a saída de Cintra deve ser recebida da mesma forma que exonerações em outras pastas do governo e cita a saída de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral e de Ricardo Vélez Rodríguez do Ministério da Educação.

"As mudanças nos vetores não têm influenciado a direção do governo como um todo e o mercado espera resposta semelhante com o ocorrido hoje. A pasta [da Receita Federal] deve ser entregue a outro e os projetos, como a nova CPMF, devem continuar a ser tocados", afirma Arbetman.

Segundo Pasianotto e Arbetman, a saída de Cintra não interferiu no desempenho do Ibovespa devido a recuperação de varejistas. Nos dois últimos pregões, as ações das empresas do setor tiveram fortes quedas com o lançamento do Amazon Prime no Brasil, plano de assinaturas que inclui frete grátis.  

"Os desdobramentos [da saída de Cintra] ainda são incertos. Talvez, se estivéssemos numa sessão mais lateral, o mercado acusasse algum viés. Como hoje tivemos dados positivos e menor aversão [a risco], prevaleceu o sentido [positivo] que impera desde o começo da manhã", diz Arbetman.

Nesta sessão, Magazine Luiza subiu 6,46% e recuperou parte das perdas dos últimos pregões. Ações da Lojas Americanas subiram 5,2%, e as da Via Varejo, 3,10%. A B2W teve alta de 3,26%.

As ações do Mercado Livre, listadas na Bolsa de Nova York, também ensaiaram recuperação neste pregão. Os papéis, que somaram queda de 8,3% nas duas últimas sessões, subiram 2,13% nesta quarta.

Além disso, dados positivos da vendas no varejo no Brasil animaram investidores. Elas cresceram 1% em julho com relação ao mês anterior, apontou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O número veio bem acima da expectativa do mercado, de 0,1%.

A alta é a maior da Pesquisa Mensal de Comércio desde novembro do ano passado, mês em que ocorre a Black Friday. O IBGE creditou a melhora ao aumento na população ocupada e nas condições de crédito paras as famílias. 

O setor que mais puxou a alta foi o de supermercados, que cresceu 1,3% no período. Com o bom desempenho, os papéis do Grupo Pão de Açúcar subiram 6% na Bolsa.

O mercado financeiro viu o crescimento das vendas como positivo, mas ainda impera uma descrença com a reversão do cenário de estagnação da economia.

"De modo geral, o dado traz uma perspectiva mais positiva para a recuperação do setor, apontando uma melhora disseminada entre diversos segmentos. No entanto, seguimos acreditando que para sustentar uma retomada mais acelerada será preciso uma melhora mais clara do mercado de trabalho e da confiança dos consumidores - dois fatores que têm apresentado uma recuperação ainda lenta na margem", diz relatório da Guide Investimentos.

"Essa divulgação foi inegavelmente positiva e deve ao menos levantar dúvida sobre projeções mais pessimistas de retração para a atividade no 3º trimestre. Por enquanto, na espera de mais sinais que confirmem esse maior vigor da atividade econômica, mantemos nossa projeção de 0,1% para o PIB do 3º trimestre e de 0,8% para o PIB de 2019", diz Ronaldo Guimarães, sócio diretor do banco digital Modalmais.

Outro destaque foi a disparada de 9% das ações da MRV, a R$ 18,50. A valorização da construtora foi impulsionada pela autorização do governo de que o subsídio das faixas 1,5 e 2 do programa Minha Casa Minha Vida sejam 100% bancados pelo FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço).

Portaria assinada na terça (10) pelo ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, também autoriza novas contratações para as mesmas fiaxas sem a necessidade de recursos da União. As duas faixas são voltadas a famílias com renda de até R$ 4.000 e oferecem subsídio de até R$ 47.500.

Até esta semana, a União arcava com 10% da subvenção -os outros 90% ficavam com o FGTS. Entretanto, os R$ 450 milhões do Orçamento federal destinados a essa finalidade foram esgotados na última semana.

Com a mudança, o governo estima que, até o final deste ano, serão injetados cerca de R$ 26,2 bilhões do FGTS no setor da construção.

No exterior, as principais Bolsas globais fecharam em alta com a decisão chinesa de isentar tarifas de importações para 16 tipos de produtos americanos. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse a isenção foi bom gesto antes de uma reunião planejada com o objetivo de amenizar a guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo.

Em Nova York, Dow Jones subiu 0,85%, S&P 500, 0,72% e Nasdaq, 1,06%.