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Aves estão morrendo em fazendas solares e cientistas tentam descobrir o motivo

Natalie Rosa
·5 minutos de leitura

As fazendas de energia solar trazem muitas vantagens na economia de energia e no uso de fontes limpas de eletricidade, mas nos Estados Unidos elas vêm trazendo um problema que afeta o meio-ambiente: a morte de pássaros.

Há anos as empresas estão encontrando carcaças de aves mortas no chão e, desde então, a dúvida do que estaria causando esse problema vem assombrando os pesquisadores. Mas, em 2013, acadêmicos, organizações ambientais e empresas de serviços públicos se reuniram para formar o Avian Solar Working Group, grupo dedicado a desenvolver estratégias de mitigar as mortes de pássaros em instalações solares por todo o país norte-americano.

<em>Imagem: Reprodução/Pixabay</em>
Imagem: Reprodução/Pixabay

Misti Sporer, membro do grupo e principal cientista ambiental da empresa de eletricidade Duke Energy, da Carolina do Norte, conta que inicialmente ninguém sabia dizer o que significava ver um pássaro morto nessas localidades e que foi um desafio obter tais dados. De acordo com um estudo pioneiro sobre o assunto, de 2016, estimou-se que centenas de fazendas solares de grande escala nos Estados Unidos poderiam matar aproximadamente 140 mil pássaros todos os anos.

O número é baixo, representando menos de um décimo de 1% da estimativa da quantidade de pássaros que são mortos por usinas de combustíveis fósseis, que podem acontecer com eletrocussão, envenenamento e colisões. No entanto, os pesquisadores acreditam que o número pode triplicar conforme novas fazendas solares começassem a funcionar.

Mesmo com os dados em mãos, ainda não está clara qual é a ligação das mortes com os painéis, mas uma das principais teorias é que o brilho emitido pelos tetos fazem com que os pássaros se confundam com lagos. Então, ao mergulhar no falso lago, acabam entrando em uma batida mortal. A hipótese, porém, é feita com base em uma perspectiva humana. "Os pássaros ao menos enxergam da mesma forma que os humanos? Precisamos coletar mais dados para formar uma imagem completa", diz a cientista.

Outro projeto interessante também busca entender o que acontece para prevenir que mais aves morram todos os anos. O Departamento de Energia dos Estados Unidos financiou, em um contrato de US$ 1,3 milhão, pesquisadores do Argonne National Laboratory, no Illinois, para o desenvolvimento de uma inteligência artificial dedicada a estudar o problema.

A IA irá analisar o comportamento das aves em instalações solares de grande escala em todo o país, na esperança de que os dados coletados ajudem ornitólogos a seguir com a descoberta. Yuki Hamada, cientista biofísico da Argonne e líder do estudo, fala sobre a extrema importância de reduzir este impacto ambiental. "Esses problemas aviários são uma preocupação e algo que a indústria de energia renovável quer entender e mitigar", conta.

<em>Foto: Antonios Ntoumas</em>
Foto: Antonios Ntoumas

Desafios

Apenas algumas regiões dos EUA conta com normas reguladoras que exigem o relato de morte de aves nas instalações, mas grande parte das fazendas solares de grande escala não estão se preocupando muito com o problema. Aqueles que estão cientes do que está acontecendo, no entanto, não possuem recursos suficientes para a coleta de dados e podem somente enviar agrimensores para a contagem de pássaros mortos uma vez por mês. Segundo os cientistas, é necessário fazer a apuração de dados em tempo real para ter resultados mais conclusivos.

Com a inteligência artificial criada pela Argonne, será possível treinar o algoritmo para reconhecer os pássaros com base em tamanhos, formas e cores, identificando ainda se eles estão voando por cima do painel solar ou apenas empoleirados nele. Antes mesmo da ideia de criar essa IA, Adam Szymanski, engenheiro de software da Argonne e líder do projeto, trabalhava em uma iniciativa que visava detectar pequenos drones no ar de forma automática.

"A pesquisa de aprendizado de imagem que estamos desenvolvendo é um pouco única porque não queremos apenas classificar um objeto em uma única imagem. Precisa classificar um objeto pequeno e que se movimenta rápido ao longo do tempo. Então, se um pássaro estiver voando, em alguns quadros você verá um ponto e em outros você verá as suas asas para fora, e nós precisamos rastrear objetos enquanto eles se movimentam pela câmera", explica.

Outro problema para analisar esses dados é o fato de muitas dessas fazendas solares ficarem em lugares remotos e não contarem com a infraestrutura necessária para um aprendizado de máquina. "Você deve imaginar que as instalações solares possuem energia porque elas geram. Mas elas não tem tomadas elétricas conectadas aos painéis", revela Szymanski.

<em>Imagem: Reprodução</em>
Imagem: Reprodução

Então, para que o sistema consiga fazer a captura desses dados será preciso de um hardware extremamente eficiência que funcione com seus próprios pequenos painéis solares, ou ainda com baterias. O sistema deve ser capaz ainda de armazenar uma grande quantidade de dados em tempo real.

A Argonne optou, então, por usar um hardware desenvolvido por uma companhia chamada Boulder AI, que faz o monitoramento de pedestres e do tráfego de veículos. Com um sistema que conta com uma pequena câmera, o processo atual envolve a coleta de dados de duas instalações solares em Illinois, gradualmente expandido o programa para dezenas de outros locais espalhados pelos Estados Unidos.

Inicialmente, a inteligência artificial irá identificar as aves que entram sem seu campo de visão, mas somente com um treinamento mais específico será possível diferenciar seus comportamentos com os painéis. Com os resultados em mãos, pesquisadores poderão entender as possíveis causas dessas mortes. "Essa tecnologia nos permite vislumbrar um mundo que normalmente não enxergamos para que possamos operar de uma forma menos impactante para a vida selvagem", completa Sporer.

Fonte: Canaltech

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