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Avanço da pandemia expõe falta de planos e previsões falhas da equipe de Guedes

THIAGO RESENDE E FÁBIO PUPO
***FOTO DE ARQUIVO*** BRASILIA, DF, BRASIL, 29-04-2020, 17h00: Os ministros Paulo Guedes (Economia) (E) e Braga Netto (Casa Civil) (D) durante coletiva de imprensa sobre as ações do governo no combate à pandemia do Coronavírus (COVID-19), no palácio do planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Era 11 de março. A OMS (Organização Mundial da Saúde) declarava a pandemia do novo coronavírus.

O ministro Paulo Guedes (Economia), que acabara de anunciar uma previsão de alta de 2,1% do PIB (Produto Interno Bruto) no ano, pediu uma reunião de emergência na Câmara e deixou líderes decepcionados, com a percepção de que o governo não estava dimensionando corretamente os efeitos da crise. Era o reflexo do otimismo resistente da equipe do ministro.

O primeiro caso confirmado de Covid-19 no Brasil foi em 26 de fevereiro. Na época, integrantes do time de Guedes chegaram a cogitar um impacto mínimo na economia.

No Brasil, o calor diminui a propagação do vírus, diziam eles, tentando afastar o cenário de medidas de isolamento que ganhavam força na Europa e já haviam sido adotadas na Ásia. Na última semana, o Brasil ultrapassou a marca de 40 mil mortos e cerca de 830 mil casos confirmados.

Para a economia, a projeção oficial mais recente é um tombo de 4,7% no ano. A queda ainda é considerada eufórica fora do governo. Economistas e organismos internacionais já veem um recuo de mais de 7%.

"O processo da crise é muito dinâmico e requer revisões mais frequentes de projeções macroeconômicas e fiscais. O número de [queda de] 4,7% do governo me parece ainda otimista", disse o diretor-executivo da IFI (Instituição Fiscal Independente, órgão ligado ao Senado), Felipe Salto.

Integrantes do governo reconhecem terem sido surpreendido pelos efeitos da pandemia, apesar dos sinais devastadores do coronavírus em outros países antes da chegada do vírus no Brasil.

As medidas sanitárias e uma campanha contra a transmissão vieram primeiro, enquanto a equipe econômica subestimava a força da crise.

Guedes chegou a declarar que, com R$ 5 bilhões, o vírus seria aniquilado. O governo, até hoje, continua injetando bilhões de reais na saúde pública.

As primeiras ações no campo da economia surgiram em 14 de março após o reconhecimento da situação de pandemia e cobranças do Congresso por iniciativas.

Porém, a linha adotada ainda estava com viés maior nos empresários e trabalhadores formais. Uma exceção foi a ampliação de verba para o Bolsa Família passar a atender pessoas que estavam na fila de espera, renascida na atual gestão.

Foram quase dez dias entre o primeiro caso confirmado e a primeira reunião do grupo emergencial de acompanhamento dos efeitos da Covid-19 na economia.

Esse mesmo período foi usado para o primeiro desenho da distribuição do auxílio emergencial —a operação mais complexa.

O governo era pressionado a lançar logo um plano de ajuda a profissionais autônomos, informais, microempreendedores individuais e desempregados. Mas não sabia, diante do prazo restrito, como encontrar ou cadastrar essas pessoas, nem como pagar. Isso exige tempo, o que já havia minguado.

O benefício só foi sancionado em 1º de abril e começou a ser pago no dia 9 do mesmo mês.

Novamente o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) recebeu críticas. A demora na liberação do dinheiro criou até uma campanha —#pagalogo— nas redes sociais, principal plataforma usada na campanha presidencial. O time de Guedes temia descumprir regras fiscais.

O valor do auxílio foi outra discussão. Inicialmente, Guedes propôs R$ 200. Depois, Bolsonaro declarou que o benefício subiu para R$ 600 após estudos do governo.

O relator da proposta na Câmara, deputado Marcelo Aro (PP-MG), diverge dessa versão.

"Somente quando viram que o projeto [prevendo valor maior que R$ 200 de auxílio] seria aprovado, mesmo com os votos do governo contrários, o governo sugeriu um acordo", disse Aro.

No início de maio, quando o número de mortes por Covid-19 ultrapassou marca de 10 mil no Brasil, o governo cortou a previsão oficial para o PIB, de uma estabilidade de 0,02% para recuo de 4,7%.

Poucos dias depois, o presidente Bolsonaro considerou Guedes ainda otimista nas análises.

"A desgraça que vem pela frente, eu acho que o Paulo Guedes tá sendo até legal, hein, Paulo Guedes? Eu não sou economista, não. Vai ser uma porrada muito maior do que você possa imaginar. Não são apenas os informais. Eu acho que já bateu a 10 milhões de carteira assinada, foi pro saco", disse o mandatário na reunião de 22 de abril, que teve o conteúdo liberado pela Justiça.

O Banco Mundial anunciou, em junho, que projeta uma queda de 8% no PIB do Brasil neste ano. A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) estima um recuo de 7,4% na economia brasileira. O governo, por enquanto, considera esses números exagerados.

Até o início de março, a previsão do governo era de que o coronavírus ia gerar impactos somente por causa de fatores externos (como na falta de produtos para abastecer fábricas, por exemplo).

Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, disse no fim de fevereiro que achava improvável haver restrições de circulação no território nacional.

A aposta era que o vírus não se espalharia no país em razão do clima. "Acho que não [haverá restrição de circulação]. Pelo que li, acho que o impacto no Brasil dificilmente vai ser por contaminação interna", disse Sachsida no dia 27 de fevereiro.

"Vai ser muito difícil imaginar que o Brasil vai sofrer uma grande crise porque uma parcela expressiva da população neste verão pegou isso. Acho pouco provável", afirmou o secretário na época.

Os impactos previstos pela equipe econômica eram, até então, baseados somente em três fatores.

O primeiro era a demanda externa, ou seja, a desaceleração da economia no mundo e o menor apetite por produtos brasileiros. O segundo seria o da oferta, pois fábricas nacionais poderiam desacelerar a produção se parassem de receber insumos estrangeiros (principalmente da China). E o terceiro era o preço das commodities.

Foi somente em março que o governo passou a entender que a crise seria maior do que se pensava. A equipe econômica passou a estudar medidas considerando o impacto das restrições de circulação.

O diretor de Política Econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, afirmou recentemente que a autoridade monetária não previa uma crise tão grande. O ceticismo continuava mesmo após uma reunião emergencial do Fed (o banco central americano), convocada em 3 de março para reduzir os juros em 0,5 ponto percentual.

As últimas vezes em que o Fed havia se reunido fora do calendário foram em setembro de 2001 -após os atentatos de 11 de setembro- e em outubro de 2008, no auge da crise financeira mundial.

"Quando o Fed reduziu os juros em março, todo o mundo disse: 'Que loucura, por que estão fazendo isso? Eles estão sabendo de algo que não sabemos? Estão criando pânico'. Pensamos que no Brasil atingiria parte da economia, algo similar com a greve dos caminhoneiros, que atingiu a economia por um período. Não era esperado que fosse grande", disse há pouco mais de uma semana, reconhecendo que o entendimento mudou ao longo daquele mês.

Na reunião com congressistas, em 11 de março, Guedes disse que, no pior cenário, haveria avanço de 1%. Hoje, o Focus já prevê uma queda de 6,48% para o PIB brasileiro.

Procurado, o Ministério da Economia não quis se manifestar.