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Autora, 'autriz', escritora, mulher de letras? Uma difícil feminização na França

·2 minuto de leitura
As acadêmicas Hélène Carrère d'Encausse e Dominique Bona, em 23 de outubro de 2014 em Paris

Quando uma mulher publica um livro, é autora, ou "autriz" ("autrice")? Escritor, escritora, mulher de letras? Ou simplesmente novelista, ensaísta? A questão, não resolvida, revela as dificuldades da feminização da literatura francesa.

"Femmes de lettres, 101 auteures essentielles" (Mulheres de letras, 101 autoras essenciais) é o que diz a revista Lire, em uma edição especial publicada nesta sexta-feira (18).

Nesta edição, a austríaca Elfriede Jelinek, prêmio Nobel de Literatura 2004, garante à jornalista: "Sim, eu sou um 'autriz' cômica".

Muito incomum antes de 1990, a palavra "autora" em francês ("auteure") foi preconizada inicialmente no Canadá e adotada em 1999 pelo "Guia de ajuda à feminização dos nomes de ofícios, títulos, graus e funções" do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França.

No final, foi reconhecida pela Academia da Língua Francesa 20 anos mais tarde.

Hoje, no entanto, está sofrendo com a competição cada vez mais obstinada da palavra "autrice" - semelhante a "atriz", em francês - que retorna após anos de esquecimento.

"Ainda estamos em um período de transição. A Academia observa", declarou em 2019 a acadêmica Dominique Bona ao jornal Libération.

Em um relatório assinado por quatro membros, a instituição optava mais por "auteur" (autor) para uma mulher, assemelhando-se ao caso de "médecin" (médico, uma médico).

Embora a feminização tenha acelerado no idioma francês neste século, o processo foi muito lento no século XX. Françoise Sagan, Marguerite Yourcenar e Simone de Beauvoir provavelmente nunca ouviram que elas foram "autrice", ou "écrivaine", termos considerados uma barbárie na época.

"A insegurança linguística é muito forte na França, devido ao medo de não falar como se deve. E os franceses pensam que o idioma deve ser regido de cima, quando na realidade evolui de baixo", explica à AFP Véronique Perry, linguista da Universidade de Toulouse Paul-Sabatier.

Pessoalmente, ela prefere "auteure", mas insiste em que "cada um seja livre para se designar de acordo com sua preferência (...). Não devemos corrigir as pessoas quando se referem a si mesmas!".

O processo ocorre após séculos de repressão dos nomes femininos por parte da Academia francesa.

"Há áreas marcadas como masculinas: a escrita, a palavra pública, a filosofia... Eles venderam e impuseram a ideia às mulheres de que, nesses campos, como no da política, valia mais pensar no masculino", aponta Viennot, que assina como "professeuse" emérita.

O teto de cristal, em um setor editorial muito feminino (74% dos empregos em 2016, segundo o último relatório social do ramo), ainda existe. Desde 2000, os homens ganharam 18 prêmios literários Goncourt e 14 Nobel de Literatura, de um total de 21.

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