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Autor do livro ‘Pense de novo’ diz que rever opiniões pode melhorar as nossas relações

·5 min de leitura

Quando foi a última vez que você mudou de ideia? O psicólogo americano Adam Grant, professor da Wharton School e autor do livro “Pense de novo” (editora Sextante), recém-lançado no Brasil, defende o valor de repensar opiniões. Para ele, a medida é fundamental não só para o bom relacionamento no trabalho e com a família, mas evita polarizações e faz bem como faz bem para a saúde.

“Repensar pode nos libertar de prisões que nós mesmos fazemos. Ficamos comprometidos com ideias, decisões e opiniões que já não nos servem bem”, diz Grant em entrevista ao EXTRA.

Quais são os benefícios de

mudar de ideia?

Não devemos ter medo de mudar de ideia. E quanto mais rápido você reconhecer que está errado, mais rápido poderá estar certo. Pensar é como você evolui, repensar é como se atualiza. Se estiver disposto a rever seus conceitos, estará preparado para mudanças, em vez de ser surpreendido por elas. E repensar faz bem para a saúde. Pode nos libertar de prisões que nós mesmos fazemos. Ficamos comprometidos com ideias, decisões e opiniões que já não nos servem bem. Às vezes estamos presos à carreira errada, ou na empresa, no relacionamento ou até na cidade errada, porque nos recusamos a questionar uma opinião que uma versão menos sábia de nós mesmos formou. E se formos rápidos em repensar, podemos evitar arrependimentos, cometer menos erros e nos preparar para, quem sabe, uma vida mais interessante, em que estejamos constantemente crescendo, evoluindo e aprendendo.

O senhor diz no seu livro que as pessoas preferem se sentir certas do que realmente estarem certas. É isso que nos impede de mudar de ideia?

É em boa parte. Uma das coisas que impede a pessoa de dizer que você está certa é admitir que ela está errada. Muita gente é apegada às suas crenças porque elas deixam o mundo mais previsível. Se ela mudar de ideia sobre algo, no que mais pode estar equivocada? É uma ameaça a seu sistema de crenças. Isso assusta.

O senhor também cita a história de um músico negro que confrontou supremacistas brancos e fez com que abandonassem a Ku Klux Klan. Qualquer um é capaz de ter essa capacidade de diálogo?

O Daryl Davis tem um talento extraordinário. Quando ouvi a história dele, pensei: “É um super-homem, eu nunca seria capaz de ter uma conversa nesse nível”. Mas quanto mais eu o ouvi, mais percebi que ele faz coisas que todos nós sabemos fazer, apenas não fazemos. Quando ele ouve algo que o surpreende, pensa as coisas como um cientista: “É tão interessante que você pense isso, como você chegou a essa conclusão?” Se nós não estivéssemos tão na defensiva, seríamos curiosos assim. Uma das coisas que Daryl me ensinou é que quando alguém discorda do que eu penso, posso aprender algo sobre como ele pensa, mesmo que eu acredite que a conclusão seja errada, o processo como um todo provavelmente vai me fazer entender melhor muita gente.

Há também a história do médico que convenceu uma mãe a vacinar os filhos. Pode contar como ele fez isso?

A história é de uma mãe do Canadá que teve um bebê prematuro em meio a um surto de sarampo na região. O que todos fariam, eu e você também, seria pregar sobre a importância da vacina. Mas chamaram um médico conhecido como “encantador de vacinas”, e ele não fez isso. Entrevistou a mulher para entender a perspectiva dela, que dividiu suas preocupações, contou que vinha de uma comunidade em que poucos eram vacinados. Ele escutou muito pacientemente, sem julgamentos. Depois disse que, como médico, o objetivo dele também era proteger o bebê e que, se ela permitisse, gostaria de compartilhar algumas informações da área dele. Trouxe evidências dos benefícios, deu o entendimento dele como cientista, e no final disse que a decisão era dela e que estava certo que ela faria o melhor. A mãe não só vacinou o bebê, como trouxe outros filhos e os sobrinhos. O que ele fez foi algo que todos podemos fazer: julgar menos, ser mais curioso, praticar a escuta e reconhecer que não podemos obrigar as pessoas a mudar de ideia

No Brasil, para além de redes sociais, há uma polarização política muito grande. Como mudar isso?

É uma pergunta difícil. Fui ao Brasil antes da Covid e já era muito claro que vocês estavam enfrentando os mesmos desafios que enfrentamos nos EUA. Para melhores conversas com pessoas próximas algumas coisas podem ajudar. Uma é deixar claro que, mesmo não tendo a mesma opinião, vocês compartilham os mesmos valores. Outra coisa válida é moldar o comportamento que eu quero ver nos outros. Eu estava tendo uma discussão com um amigo ontem e disse, antes de começarmos: “Queria avisar que tenho o mau hábito de fazer bullying de lógica, rebatendo argumentos e expondo dados sem parar e não quero mais fazer isso. Se você me pegar fazendo isso, por favor me avise”. Ele riu e disse que era muito teimoso e também não queria isso. Então nos comprometemos a ser mais cabeça aberta. As vezes também começo falando sobre a nossa última conversa: “há alguma coisa que você reconsiderou ou que eu deveria repensar?” Partilho algo que pensei de novo e tento estabelecer que repensar alguma coisa é normal, todos fazemos, não significa que você é fraco ou que você tem falta de confiança, significa que você é sempre curioso e aberto.

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