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Ausência de negros na disputa pela prefeitura do Recife é fruto da falta de apoio dos partidos, diz especialista

Alma Preta
·6 minuto de leitura
De 15 cidades da região metropolitana do Recife, apenas uma elegeu um prefeito preto; na capital pernambucana, nenhum candidato autodeclarado preto ou pardo foi para o segundo turno.
De 15 cidades da região metropolitana do Recife, apenas uma elegeu um prefeito preto; na capital pernambucana, nenhum candidato autodeclarado preto ou pardo foi para o segundo turno.

Texto: Victor Lacerda Edição: Nataly Simões

Das 15 cidades que compõem a região metropolitana do Recife, apenas o município de Olinda elegeu um representante autodeclarado preto para a prefeitura. É o que indicam dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O Professor Lupércio, do Solidariedade, foi reeleito com 123.534 votos para ocupar o cargo por mais quatro anos.

Lupércio é do Solidariedade, partido que, institucionalmente, não se considera de direita ou esquerda. Em seu histórico de atuação na cidade, atuou na câmara municipal por dois mandatos e, em 2012, foi o vereador mais votado da história de Olinda.

Em seu primeiro mandato como prefeito, mesmo não tendo articulação expressiva junto ao movimento negro na cidade, o Professor Lupércio desenvolveu ações e programas dirigidos à promoção da cidadania e dos direitos humanos. Através da “Coordenadoria dos Negros e Negras”, articulou com órgãos da administração municipal políticas e ações de promoção à igualdade racial.

Nas últimas eleições municipais, o professor estabeleceu rede de parceria com os partidos Podemos, Cidadania, Solidariedade, PSD, PMB, Patriota, PSDB, PL, PSC, Republicanos e o Democratas, em coligação intitulada “Olinda Segue em Frente com o Povo”. A junção rendeu 63,62% dos votos na cidade, diferença expressiva em relação ao segundo lugar, ocupado por João Paulo (PCdoB), que totalizou 23,22% de votos válidos, 45.289.

Na capital pernambucana, principalmente, onde 57% da população se autodeclara como negra, de acordo com dados fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a representação na prefeitura ainda é baixa. De 10 candidatos a prefeito em 2020, dois se declaravam negros. O candidato e vice-líder do Democratas, Mendonça Filho, autodeclarado pardo, e Thiago Santos, do Unidade Popular, um dos responsáveis pela fundação do partido o qual integra, autodeclarado preto.

Em quantidade de votos ao fim do 1º turno das eleições à Prefeitura do Recife, o candidato autodeclarado preto de esquerda ocupou o penúltimo lugar. Mesmo com aliança com o PCB, integrando a “Frente de Esquerda do Recife”, o advogado totalizou 1.232 votos, representando 0,15% entre as candidaturas válidas.

Em publicação via rede social, Santos agradeceu o número nas urnas e pontuou falta de incentivos estruturais durante a campanha. “Além de propor um programa popular para a cidade, cumprimos nosso objetivo de apresentar a Unidade Popular, mais novo partido político do Brasil! Registrado em dezembro de 2019, a UP disputou pela primeira vez as eleições sem fundo partidário e sem tempo de televisão”, declarou.

Questionados sobre quem apoiariam no segundo turno, disputado por João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT), Mendonça Filho respondeu que não iria comparecer às urnas no próximo dia 29. Já Thiago Santos decidiu expor sua postura junto ao partido e, em nota, anunciou que “apesar das diferenças programáticas e da política de alianças, chamamos a população do Recife para votar na candidata da oposição, Marília Arraes”.

A especialista em Gestão Pública e co-fundadora da Frente Favela Brasil, Karla Recife, explica que a baixa representatividade negra na prefeitura da capital, e em outras cidades também, está relacionada à falta de estruturação de acessos dentro dos partidos políticos.

“O espaço de poder que se é disputado já não tem igualdade desde a escolha de quem vai ser o candidato. Não é apenas conseguir ser candidato, é conseguir adentrar no espaço político e participar de discussões que definem, por exemplo, quem estará com a caneta que vai definir quem terá recurso ou não”, pontua a especialista.

“Isso demonstra muito de termos, hoje, candidaturas majoritárias sendo definidas por pessoas brancas. Acredito que, por isso, as pessoas negras não são bem representadas nos espaços internos dos partidos políticos em Pernambuco”, complementa Karla.

No processo eleitoral do Recife, ainda havia outro candidato autodeclarado preto. Victor Assis, do Partido da Causa Operária (PCO). Ele teve seu pedido de candidatura negado pela Justiça Eleitoral, que alegou falta de representação significativa do partido na cidade.

Ainda de acordo com os dados do TSE, as cidades de Cabo de Santo Agostinho, Jaboatão dos Guararapes, Goiana e Araçoiaba apresentaram, cada uma, uma candidatura com autodeclaração preta. Nenhuma, no entanto, conseguiu se eleger.

Já as cidades de São Lourenço da Mata, Camaragibe, Paulista, Igarassu, Abreu e Lima, Moreno, Ilha de Itamaracá, Ipojuca e Itapissuma não tinham pessoas autodeclaradas pretas nem mesmo entre os candidatos às prefeituras.

A coordenadora do Movimento Negro Unificado em Pernambuco (MNU-PE), Marta Almeida, destaca que esse cenário é reflexo do racismo instituicional e estrutural na sociedade como um todo.

“Se o racismo está dentro do âmbito familiar também estará no ambiente político. Podemos avaliar a dificuldade em disputar narrativas e espaços, como a falta de igualdade na partilha de recursos durante a campanha e a falta de estruturação dos espaços de igualdade racial dentro dos partidos”, pontua.

A ativista ainda ressalta a importância da promoção de formações políticas nas comunidades e afirma acreditar na importância do diálogo sobre representatividade dentro e fora dos partidos.

Trazendo o comparativo da atual situação de políticas públicas nacionais com as estaduais sobre ações para democratizar o acesso de pessoas negras em espaços de poder, o cenário não é bem visto pela coordenadora.

“Nós estamos vendo o sucateamento de órgãos e organizações políticas que debatiam a promoção de igualdade racial, a efetivação de ações afirmativas e o combate ao racismo. Instituições como a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial foram extintas e a própria Fundação Palmares vem tomando atitudes que naturalizam processos discriminatórios contra a população negra”, finaliza Marta.

Aumento expressivo no número de vereadores negros

Apesar da baixa presença de pessoas negras nas prefeituras do Recife e da região metropolitana, o pleito deste ano ficou marcado pelo aumento de vereadores negros eleitos. Segundo pesquisa do Gênero e Número, 28% dos vereadores eleitos na capital pernambucana são negros.

Destaque para Dani Portela (PSOL), que recebeu o título de candidata mais votada da cidade, com 14.114 votos. A historiadora, professora e advogada foi eleita em sua primeira candidatura para a Câmara da capital pernambucana.

Na cidade vizinha, em Olinda, o advogado de 26 anos Vinicius Castello, candidato pelo Partido dos Trabalhadores (PT), foi eleito com 2.007 votos, tornando-se o mais jovem vereador da cidade e o primeiro LGBTQIA+ a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal.

O partido também conseguiu eleger a estudante de direito e feminista negra Flávia Hellen, candidata à vereança na cidade de Paulista, na região metropolitana do Recife. Eleita com 1.361 votos, Flávia será a primeira vereadora negra da cidade.